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Missiologia

A MISSÃO AD GENTES NO TECEIRO MILÊNIO


Chegamos ao momento de propor alguns desafios para a missão ad gentes no terceiro milênio. Como todos esses fatores mencionados convergem?

O fator mais importante é o nascimento da globalização entendida como uma nova ordem mundial. A globalização é um fenômeno ambivalente que provoca violência a grande parte da população mundial, principalmente aos pobres, e impede que um grande número de pessoas possa melhorar suas condições de vida. Mas também possibilita novas comunicações e relacionamentos. O Papa João Paulo II assim o expressou: "Globalização na solidariedade, globalização sem marginalização" (Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 1997).

Por mais que desaprovemos os males que a globalização causou aos pobres, devemos reconhecer que ela pode representar a ordem mundial com a qual temos que conviver. Não há alternativa nesse sentido. O cristianismo lutou experimentando sempre uma para relação tensa com a ordem estabelecida por não aceitar a injustiça.

A globalização tem duas características significativas: seu poder de homogeneização, pelo qual se conecta a todo o mundo e comunica a mesma mensagem usando a mesma rede. Também seu poder de fragmentação que desorganiza os arranjos sociais enfatizando o sentido do particular e do local. Como se relaciona este aspecto da globalização com a missão ad gentes?

Os institutos missionários e a própria Igreja deveriam usar seus recursos de organização transnacional e não governamental para unir todas as pessoas em solidariedade com a família humana e criar redes de apoio e ajuda. Os institutos missionários deveriam demonstrar por seus modos de vida e trabalho que as organizações transnacionais não têm necessidade de ser opressivas, mas podem associar os recursos humanos e materiais para melhorar a vida da humanidade. Deveriam usar seus recursos para alcançar as pessoas espalhadas agora pelo mundo, como resultado da migração ou do status de refugiado, aquelas pessoas que fluem para as grandes cidades perdendo sua identidade no processo. Como missionários e como teóricos da missão, devemos refletir sobre como os fatores de homogeneização do mundo de hoje dão forma a nossos pensamentos e nossos relacionamentos.

A globalização também fragmenta o mundo. Nesse sentido, parece-me que a missão ad gentes é chamada a resolver as consequências dessa fragmentação, para que as pessoas reconstruam, recriem uma nova identidade, que os ajude a resistir aos abusos da globalização, para que refugiados e deslocados reconstruam suas vidas e possam curar as feridas produzidas. O trabalho da missão, então, é um trabalho de reconciliação, isto é, restaurar a dignidade humana e curar a sociedade destruída. A tarefa missionária consiste em dizer a verdade, buscar a justiça e criar uma nova visão moral. Na verdade, acho que a reconciliação pode ser uma metáfora perfeita (9). No mundo caracterizado por uma maior interconexão e fragmentação, devemos empregar nossas habilidades para "derrubar os muros de hostilidade que nos separam", como lemos em Efésios (2,14).

Em qual ponto nos encontramos nós em relação à missão ad gentes? Vamos resumir em cinco pontos:

1) Ao igual que o império que criou uma infraestrutura -melhor ou pior- para a missão ad gentes organizada da qual somos herdeiros, a atual ordem mundial oriunda da globalização criará a infraestrutura -melhor ou pior- para a missão ad gentes à qual devemos dirigirmos.

2) As pessoas a quem se dirige a missão, não serão determinadas pelo território, mas pelas identidades que se constituem e adquirem forma com a globalização. Tais identidades serão muito mais fluidas.

3) Dois dos desafios teológicos da missão ad gentes: o diálogo e a teologia das religiões, devem ser considerados à luz desta nova reorganização do mundo. Num mundo em que a fragmentação ameaça constantemente a qualidade de vida de todos juntos, o diálogo aparece como elemento fundamental não só para compreender os outros, mas também para criar um ambiente de confiança que nos possibilita a comunicação e a cooperação. O pluralismo exacerbado que a globalização cria por meio da interconexão nos obrigará a formar novos conceitos sobre o próprio pluralismo, que nos ajudarão a formular uma teologia das religiões adequada e fiel.

4) A reconciliação será talvez, a metáfora mais importante para a missão ad gentes nos próximos anos. É uma questão com a qual devemos conviver, por exemplo, a assistência aos trabalhadores na resolução de conflitos e na reconstrução das comunidades ou sociedades. A reconciliação não se trata de uma pacificação fácil; também não se trata de um paliativo que substitui o trabalho duro pela justiça e pela verdade.

5) O novo sentido para a reorganização dos institutos missionários ainda é inexplorado. Implica primeiro, uma análise da realidade que reconheça que as coisas mudam e, em seguida, o desdobramento de estratégias e relacionamentos que atingem as pessoas. Significa também a formulação de uma espiritualidade que sustente o trabalho que enfatize a inter-relação, a proclamação da verdade e a criação de uma nova visão moral para as sociedades. Implica também a busca da justiça e o cultivo de relações baseadas na confiança para estabelecer comunidades de memória e esperança. Os institutos missionários dedicados especialmente à missão ad gentes ainda têm um longo caminho a percorrer.

Gerardo Custódio Lopez, sx


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