Os Crucificados da História

O teólogo jesuíta Ignacio Ellacuria, mártir de El Salvador, afirmava que é bom falar de "Deus crucificado", mas também do "povo crucificado", este "povo crucificado", que é uma realidade global do terceiro mundo. O documento de Puebla, nesta mesma linha descreve os rostos sofridos na América Latina, que nos levam a reconhecer as feições sofredoras de Cristo, o Senhor que nos questiona e interpela (Cf. Puebla, 32-39).

A Cruz para os pobres e excluídos, significa não só pobreza, mas também a morte lenta e real antes do tempo, provocada pela exploração de uns poucos. Morrer crucificado, não significa só morrer, mas ser matado. A cruz é imposta pelos diversos poderes. Cruz é aquilo que limita a vida, que faz sofrer e dificulta andar. Neste sentido, para Jon Sobrino, o povo crucificado é a continuação histórica do servo sofredor de Javé, do qual o pecado do mundo continua tirando toda a figura humana, do qual os poderes deste mundo continuam despojando de tudo, continuam arrebatando-lhe até a vida. 

mural de los martires cerezoO servo de Javé é homem de dores, habituado ao sofrimento (Is 53,3), essa é a condição do povo crucificado sem direitos, sem políticas públicas: fome, doença analfabetismo, frustração. Existe um projeto de vida para as minorias, excluindo as maiorias da sociedade. Eles são o povo crucificado, o servo sofredor.

Os movimentos populares se organizam em prol das políticas públicas para estabelecer a justiça e o direito (Is. 42,4-7), mas, muitas vezes, são perseguições e ameaçados de morte, ao igual ao servo sofredor desfigurado, não sendo mais considerados como gente, causando espanto, asco e horror (Is. 52,14; 53,2).  O povo crucificado é "desprezável e os homens, não fazem caso dele" (Is. 53,3), tirando-lhe tudo, até a dignidade.

O servo sofreu pacientemente, foi humilhado, sofrendo as consequências de uma estrutura injusta, onde se vive e se morre esmagado (Is. 53, 4-12).  Na nossa sociedade hoje, há um grande número de pessoas sem direitos e sem políticas públicas que morrem antes de tempo no anonimato. Não entregam ativamente a vida pela defesa da fé, nem sequer para defender o Reino de Deus, mas são vítimas do sistema. 

Eles são camponeses, sem-terra, idosos, índios, mulheres, favelados, meninos e sofredores de rua... que morrem lenta, constante e continuamente no dia-a-dia, sem terem nenhuma defesa, como o servo de Javé. São simplesmente mortos e massacrados. São o “povo Crucificado”.

Estas maiorias oprimidas durante a vida e massacradas durante a morte, são as que melhor expressam o sofrimento do mundo. Elas completam (no pensamento de Ellacuria), na sua carne o que falta à paixão de Cristo.  São hoje o servo sofredor e o Cristo crucificado.

O povo oprimido ao decidir viver, tomando consciência de sua cruz, protestou e defendeu seus direitos. Logo foi chamado de comunista, terrorista, preguiçoso por invocar o Deus da vida. A repressão contra sua luta foi brutal (Is. 53,8-9), primeiro tentando desacreditá-lo, dizendo que é "subversivo" e "perigoso", logo sendo assassinado e sua morte não foi investigada (Is. 53,9).

O servo sofredor, no texto do profeta Isaias, é morto por estabelecer o direito e a justiça (Is. 42,1.4). Ainda hoje, muitos são martirizados por lutar a favor da justiça e o direito dos fracos, dos sem-terra, dos sem direitos (basta lembrar o martírio da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro). A sorte do povo crucificado acaba analogicamente como o destino do servo.

O servo é escolhido por Deus para ser a salvação do mundo (Is. 49, 3-7); o fraco também é o escolhido para salvar o mundo, sendo contraditório aos olhos da história, onde aparecem os poderosos e grandes como salvadores. A opressão interiorizada gera consciência e esta gera organização para a libertação. Assim os oprimidos trazem a salvação como Cristo trouxe salvação.

O servo carregou o pecado alheio (Is. 53,5-9), o pecado de muitos (Is. 53,12). O povo crucificado nos sem direitos, leva nos ombros o pecado de seus opressores. O processo que exclui os pobres é identificado com o capitalismo, que elimina os fracos por não terem possibilidades de competir no mercado. Infelizmente o pobre é o perdedor e não pode sonhar com direitos humanos. Os pobres são descartados das políticas públicas e dos direitos básicos.

Porém, não há salvação só pelo fato de ser crucificado, humilhado e assassinado; não é no sofrimento que está a salvação, isto seria absurdo!  É necessário ressuscitar. Nas palavras de Ellacuria: "só um povo que vive porque tem ressuscitado da morte que se lhe tem imposto, é que pode salvar o mundo". 

Como Jesus crucificado ressuscitou, o povo crucificado deve ressuscitar. A ressurreição de Jesus é a esperança da ressurreição e de futuro para os crucificados, os sem-terra, os excluídos do sistema, que estão ainda na sexta-feira santa e lutam para ressuscitar e terem vida em abundância (cf. Jo. 10,10).

A ressurreição de Jesus torna-se afirmação da vida e rejeição de todo tipo de morte. É a supremacia da vida sobre a morte, ele aparece aos apóstolos com uma corporeidade, tem fome, desejo de partilha; torna-se também, um protesto contra a opressão do corpo dos crucificados da história.

A ressurreição é afirmação à vida corpórea dos pobres, dos sem-terra, dos sem-direitos, sobre todo tipo de morte e de opressão, manifestando ao Deus da Vida. Negar a vida ao corpo é matar a pessoa, é matar o direito de ressurreição dos crucificados da história.

Rafael Lopez Villasenor, sx

REFERÊNCIAS

BOFF, L.  Paixão de Cristo, paixão do mundo, Vozes, Petrópolis, 1977.

CELAM, Conclusões da III Conferência Geral do Episcopado de PUEBLA (1979): A Evangelização no mundo contemporâneo, Ed. Paulinas, São Paulo, 1979.

ELLACURIA, I. El pueblo crucificado, em Mysterium Liberationis; Conceptos fundamentales de la Teologia de la Liberación, Tomo II. Ed. Trotta, Valladolid, España, 1990, pp. 189-215.

FERRARO, B. Cristologia em tempos de ídolos e sacrifícios, Ed. Paulinas, São Paulo, 1992.  

SOBRINO, J. Jesus o libertador; a história de Jesus de Nazaré, Ed. Paulos, São Paulo, 1994.

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