
Este ano o mês de setembro de 2026, mês da Biblia, está dedicado ao estudo do Livro de Daniel com o lema: "Seu reino jamais será destruído" (Daniel 7, 14).As narrativas do livro de Daniel são intrigantes, construídas com visões, sonhos e revelações. Há histórias de coragem, de milagres extraordinários, de intrigas políticas e de visões proféticas que apontam para o fim dos tempos, elementos próprios da literatura apocalíptica. O relato nos situa no tempo do exílio babilônico e no período persa, porém o texto foi escrito na época dos governantes gregos, em especial no tempo de Antíoco IV (175-164 a.C.), em um contexto de extrema perseguição econômica, política e religiosa.
Autor, redação e estrutura
O nome Daniel significa “Deus é meu juiz” ou “Deus faz justiça”. O autor do livro adotou o pseudônimo de “Daniel”, um nome que lembra a tradição dos justos, citada no livro de Ezequiel 14,14.20, ao lado de Noé e Jó.
O livro de Daniel foi escrito em três línguas diferentes: hebraico (Dn 1,1-2,4a; 8,1-12,12), aramaico (Dn 2,4b-7,28, com inclusão em grego de Dn 3,24-90) e grego (Dn 13,1-14,42). Quem escreveu esse livro? É bem provável que tenha surgido do grupo dos piedosos, “homens esclarecidos”(Dn 11,35; 12,3), pois o livro reforça a importância de ser fiel à Torá e às tradições judaicas, mesmo correndo risco de morte (Dn 3,19-21; 6,17-18).
Na redação final, o livro de Daniel tem duas partes e dois acréscimos. A primeira (Dn 1,1-6,29) conta a história de Daniel e seus companheiros na corte do imperador Nabucodonosor e do imperador Dario, resistindo aos poderosos do Império, permanecendo fiéis àTorá/Lei e às suas tradições. A segunda (Dn 7,1-12,13) contém uma descrição da sequência de impérios, que vêm e vão, na imagem das quatro feras, representando Babilônia, Média, Pérsia, Grécia. Como os impérios que foram derrubados pela ação de Deus, aquele que agora está oprimindo seu povo também cairá, e em breve Deus instaurará o seu Reino.
O contexto do livro de Daniel
O livro de Daniel retorna ao tempo da Babilônia e da Pérsia, citando Nabucodonosor (Dn 3,1) e Dario (Dn 6,1). Porém, a profanação do Templo, a construção de um altar a Zeus Olímpico (“o ídolo abominável”: Dn 8,13; 9,27; 11,31; 12,11; cf. a “abominação da desolação” em 1Mc 1,54) e o martírio dos“homens esclarecidos”(Dn 11,33-35; cf. 1Mc 1,56-64) são características da perseguição de Antíoco IV (175-164 a.C.).
Desde a chegada de Alexandre Magno (333 a.C.), aconteceu o processo de implantação da helenização, marcado pelo comércio de escravos, pela exploração no comércio agrícola, pela concentração de terras e pela busca desenfreada de bens, de poder, de prazer e de honra. Antíoco III (223-187 a.C.), general dos selêucidas, intensificou a helenização na Palestina. Seu filho Antíoco IV Epífanes (175-164 a.C.), com o objetivo de pagar a dívida de guerra de seu pai, saqueou o Templo de Jerusalém (169 a.C.; cf. 1Mc 1,16-28; 2Mc 5,15-23).
Para fomentar a expansão desse espírito imperialista, Antíoco IV Epífanes emitiu um decreto (167 a.C.), extinguindo práticas da religião judaica (regras alimentares da Lei: Dn 1,5-8; 2Mc 6,18-31 etc.) consideradas como a expressão mais profunda da identidade judaica (1Mc 1,44-45.50; cf. Dn 11,31).
A dominação imperialista atingiu o auge com Antíoco IV
A maneira de viver e pensar do Império estava ameaçando e exterminando a cultura e a religião judaicas. Nesse contexto, alguns judeus seguiram o decreto de Antíoco IV (1Mc 1,43.52); no entanto, outros resistiram aos dominadores gregos, como por exemplo o grupo de Matatias e seus filhos, os macabeus (1Mc 2,1-48).
Arevolta, iniciada com os macabeus, contou com o apoio de uma parte do grupo dos piedosos, os “hassidim” ou assideus (1Mc 2,42), homens fiéis e devotos à Torá e às próprias tradições. Havia uma parte dos piedosos que era contrária à luta armada, pregando a resistência religiosa pela fidelidade à Torá (Dn 11,32-35). Posteriormente, a partir do grupo dos piedosos surgiu o movimento dos fariseus e o dos essênios.
Literatura apocalíptica
No Antigo Testamento, a partir de 538 a.C., em meio à realidade de opressão e dominação do Império, surgem os escritos apocalípticos. Porém, esta literatura só se desenvolveu entre os anos 200 a.C. e 100 d.C. Eis algumas características dessa forma de escrever:
- Apocalíptica: o termo “apocalipse” vem do grego e pode ser traduzido por revelação (Ap 1,1-2). Todo escrito apocalíptico supõe uma revelação de Deus sobre a história, o cosmos, o fim dos tempos, o futuro e a intervenção
- A história: a apocalíptica revela um conhecimento secreto do passado, do presente e do futuro (o fim dos tempos), uma história determinada por Deus libertador em favor de seu povo As visões narradas apresentam a narrativa em períodos que sucedem um ao outro, numa história determinada por Deus libertador em favor de seu povo oprimido, fiel e justo.
- Dualismo (bem e mal): a apocalíptica considera a realidade um campo de batalha entre o bem e o O bem representa os justos e fiéis a Deus; e o mal, os poderosos e perversos. Esta forma de pensar acredita que Deus dará a vitória final aos justos.
- O imperialismo: o movimento apocalíptico surgiu a partir do domínio opressor dos grandes impérios (persa, grego e romano). Nesse momento, a profecia deixou de ser a voz principal dos pobres, mas ela ressurgiu nesta nova forma de protesto e de resistência do povo oprimido, que anseia por sua restauração.
- Fidelidade, resistência e esperança: a releitura da história a partir de escritos simbólicos, de contos populares, de sonhos e visões era compreensível para o povo da época, e a principal função era alimentar a fidelidade, a resistência e a esperança em Deus, que age na história.
Fonte: Verbo Divino








