40 anos da Conferência de Puebla

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Ao celebrarmos os 40 anos da III Conferência  dos  Bispos da América Latina, realizada em Puebla (México), no começo de 1979, é bom revisitar e refazer uma releitura do evento que marcou a Igreja da América Laticana e que apresenta opções claras pelos pobres e pelos jovens.

pueblaApós a II Conferência Geral do Episcopado da América Latina (CELAM), celebrada em Medellín em 1968, progressivamente nasceu a ideia da possibilidade de propor ao Santo Padre Paulo VI a convocação de uma nova Conferência. Depois ter realizado às relativas consultas e com o acolhimento positivo da parte do Papa, se começou a estudar um tema possível e eficaz para a Igreja no Continente. A preparação da III Conferência se deu a partir do acolhimento da Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi. Inclusive, a grande maioria dos participantes no Sínodo (1974) estiveram presentes em Puebla.  Os tempos pós Vaticano II amadureceram e a preparação foi confiada ao CELAM, com a convocação de Paulo VI em 12 de dezembro de 1977.

A III Conferência Geral aconteceu na cidade de Puebla (México), entre 28 de janeiro e 12 de fevereiro de 1979. O tema proposto foi: "A evangelização no presente e no futuro da América Latina". A data original deveria ser de 12 a 18 de outubro de 1978, mas com a morte de Paulo VI e de João Paulo I, assim como a eleição de João Paulo II uns dias antes da data proposta, a Conferência foi adiada para início do próximo ano. O novo Papa se fez presente na abertura dos trabalhos, como tinha feito Paulo VI em Medellín.

A Conferência de Puebla usou o método “ver, julgar e agir”, assumindo novos compromissos sob a inspiração da Exortação Apostólica Evangeii Nuntiandi (EN), de Paulo VI, publicada no décimo ano do aniversário do Concílio Vaticano II. A EN retomou o tema da Evangelização como desafio contínuo para os cristãos batizados, que serviu de base para Puebla. Está claro que a Exortação teve influência decisiva em Puebla, como a Populorum Progressio teve em Medellín. A semelhança entre EN e o Documento de Puebla (DP) aparece visivelmente quando são comparados os títulos dos capítulos: Cristo, Igreja, o que é evangelizar, conteúdo da evangelização, meios, agentes da evangelização.Puebla.doc

Entre a Conferência de Medellín (1968) e de Puebla (1979), algo de muito peculiar aconteceu no nosso continente. Por um lado, tanto o Brasil como na maioria dos países Latino-americanos viviam quase duas décadas de ditaduras sangrentas, com milhares de desaparecidos, torturados e mortos, assim como uma multidão de exilados políticos. Também a situação de pobreza e miséria, material e humana, era clamorosa. Por outro lado, como sementeiras de profetas e profetizas, cercadas de martírios, cheias de esperança, surgiam as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). As Comunidades Eclesiais de Base são expressão de amor preferencial da Igreja pelo povo simples; nelas se expressa, valoriza e purifica sua religiosidade e se lhe oferece possibilidade concreta de participação na tarefa eclesial e no compromisso de transformar o mundo”, (DP, 643).

O período de Medellín a Puebla é à época das grandes utopias e do nascimento da teologia da libertação, reflexão teológica latino-americana, que trabalha a partir dos pontos de Medellín: a aproximação fé-vida como caminho para viver o cristianismo; o compromisso com os pobres, por meio das comunidades de base; a releitura dos conteúdos da teologia, privilegiando os pobres; a ação política como forma para superar as injustiças sociais. Essa maneira de fazer teologia vai se sistematizando e explica os caminhos pastorais trilhados pela Igreja latino-americana na época e aponta para os compromissos assumidos em Puebla. Na verdade, é esse pensamento que conduz a Igreja da América Latina de Medellín a Puebla.

Ao mesmo tempo entre Medellín e Puebla se passava pelo agravamento da situação sociopolítica da maioria dos países e das políticas econômicas que fizeram aumentar o número dos empobrecidos com o crescimento das injustiças sociais. Nesta conjuntura, a Igreja Católica, devido à renovação do Concílio e à profética posição em favor dos pobres, presentes em Medellín, passou a representar uma das poucas ou únicas organizações capazes de se colocar contrária à ordem estabelecida. Ao mesmo tempo, a Teologia da Libertação reconstruía um dos conceitos fundamentais em Puebla. Resgatava-se o termo “pobre” do conceito bíblico do Antigo Testamento.

A voz de Puebla tem como efeito fazer concretas as palavras do Evangelho na história. Tocar os pontos concretos, julgar as situações conflitivas, orientar os cristãos na realidade de cada dia. Por isso, o clamor de Medellín e Puebla é, em si mesmo, conflitivo. As encíclicas pontifícias, contudo, dificilmente provocam conflitos; enunciam verdades tão universais que ninguém se sente atingido. A Conferência mostrou visivelmente que as propostas de Medellín tinham sido frutíferas. Tanto Medellín como Puebla foram a tomada de consciência e a afirmação da personalidade própria da Igreja latino-americana. Em outras palavras, foram os atos de emancipação, da chegada à idade adulta da Igreja latino-americana.

puebla cebsO Papa João Paulo II visitando o Continente, nos discursos falava para todos e para ninguém, no sentido que as palavras são interpretadas por todos como parte da confirmação da própria posição. Apesar disso, o documento de Puebla fala de realidades concretas, de situações determinadas e bem conhecidas no continente. Puebla acabou sendo a confirmação, atualização e aplicação de Medellín, trata-se de uma ratificação ou aprofundamento das posições na linha teológico-pastoral. O progresso se fez pois, não tanto para frente, em termos de novas posições, mas na reafirmação de uma caminhada eclesial.

No documento final aparece uma Igreja engajada e preocupada com o povo, com os desafios que devem e estão sendo assumidos. “Comunhão e participação” é a expressão utilizada em Puebla para definir o método da ação evangelizadora. Entretanto o que mais marcou a Conferência foi a coragem de expressar a necessidade de fazer opções preferenciais. Portanto, é feita a opção preferencial pelos pobres (DP, 1134-1140) e a opção preferencial pelos jovens (DP, 1166-1205), expressas na Conferência, que impulsionaram a ação eclesial em seu engajamento social, político e econômico. Entretanto, a opção preferencial pelos pobres no documento marca e polariza o processo de evangelização da Igreja, embora a Conferência fez diversas opções pastorais. Enfim, as grandes opções tomadas em Medellín, que marcaram a vida pastoral do Continente nas últimas décadas, reaparecem em Puebla ainda mais reforçadas.

O documento de Puebla se desdobra em cinco partes: visão pastoral da realidade da América Latina; desígnio de Deus sobre a América Latina; a evangelização na Igreja da América Latina: comunhão e participação; a Igreja missionária a serviço da evangelização na América Latina; opções pastorais. A estrutura se desenvolve segundo o método teológico-pastoral de ver a realidade analiticamente, julgá-1a com os critérios da fé e agir pastoralmente para transformá-la.

O Documento de Puebla não é um tratado de teologia, nem um discurso sistemático e metódico sobre a compreensão da fé, não é um documento de natureza jurídica, destinado a traçar uma conduta obrigatória e devida. Trata-se de um documento pastoral e catequético, que pretende ser fonte de inspiração para a caminhada da Igreja do continente. Abre pistas, ilumina, denuncia e anuncia, mas principalmente incita à criatividade e à continuidade.

Rafael Lopez Villasenor