
Estamos em tempo de quaresma, em preparação para a Páscoa, tempo de refletir sobre a morte de Jesus. Vamos ver as principais causas do assassinato de Jesus. Elas podem ser resumidas em três: blasfemo, perturbar as massas e crítica às instituições religiosas.
- Por ser blasfemo.
Assim foi declarado no Sinédrio. Seu discurso era considerado blasfemo. Não havia dito palavras fortes contra Deus. Mas havia dito que Deus era um Pai e um Pai misericordioso, amigo dos pobres porque eram pobres e dos pecadores, amorosamente acolhidos e reabilitados. Há um sistema que não aceita o Reino de Deus, ainda mais o Deus de Jesus, e não tolera que Ele abra para todos as portas da amizade libertadora de Deus. Assim fazendo, de fato, Jesus desmantela aquela visão religiosa que, considerando os pobres pecadores justificava (em nome de Deus) a opressão praticada pelas classes dirigentes (legalmente representadas no Sinédrio). Era inevitável uma pronta reação que eliminasse, na raiz esta insidiosa ameaça.
- Por perturbar as massas
Jesus causava muita impressão entre o povo (cf. Mc 11,18; 12,12;14,1s) e logo os seus adversários o consideram um grave perigo que ameaça a ordem cúltico-política mantida a duras penas e para seu próprio poder. Caifás disse muito claramente: Convém que um homem morra para que não pereça todo o povo. Era verdade. Se Jesus não morresse, o povo teria podido levantar-se contra a ordem estabelecida por umas poucas famílias detentoras do poder. Teria sido um desastre. Caifás sabia ver e entender as coisas. Tinha compreendido muito bem o discurso que Jesus fazia com suas palavras e ações. Ele iria destruir os privilégios opressores de poucos em favor do amor e da fraternidade do Reino e de um mundo de pessoas que se chamam de irmãos. Para salvar e manter o sistema que sacrificava vidas humanas, os detentores do poder decidem matar Jesus. João 11,45-54 mostra que é o Sinédrio, o Grande Conselho, o órgão máximo dos judeus, que decide.
- Por criticar às instituições judias.
Jesus não era inimigo de nenhuma instituição judia. Simplesmente criticava abertamente a maneira como essas instituições oprimiam o povo ou marginalizavam os pequeninos e os pobres. Sua comunhão com pecadores e desprezados e sua transgressão da lei do sábado e do puro e impuro tiveram efeitos escandalosos. O escândalo decisivo provocado por Jesus, entretanto, nem consistia nessa ação em si (também outros não respeitavam as leis e se tornavam impuros), e sim na pretensão, a ela ligada, de agir assim em nome e no lugar de Deus. Assim sendo, as autoridades judaicas, que em nome de Deus discriminavam o povo entre justos e pecadores, ficam totalmente desacreditadas.
Atitude de Jesus diante da ameaça de morte
Tendo em vista a situação de conflito em que o jovem profeta da Galileia veio a achar-se (suspeitas e ameaças dos seus adversários) este não pode ter ilusões sobre o seu destino final (cf. Lc 13,34 par; 11,49 par.; Mc 12,6-8). Jesus percebeu que sua ação o levava a um enfrentamento mortal com aqueles que podiam lhe tirar a vida. É absolutamente impensável que não tivesse visto a probabilidade real de um fim violento e, inclusive, sua aproximação.
O servo
O mesmo Jesus, em alguns textos evangélicos, interpreta a sua morte violenta lembrando alguns trechos característicos do “servo” (cf. Mc 10,43-45; Mt 20,26-28; Lc 22,26-27): “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”. Ele afirma explicitamente o valor “redentor” de sua morte.
O próprio Jesus, portanto, apresenta a sua missão como um “servir, assim como fez o justo servo fiel a Deus e solidário com o povo ao qual foi enviado. Para ele a sua morte não é sem sentido, mas tem um significado positivo: vai ser algo “bom” para outros, para todos. Ele afirma que sua vida é “para”, “em favor de” outros e que isso produz neles um fruto positivo. Jesus compreende a própria vida como serviço e, afinal, como serviço sacrifical.
A última ceia
As palavras e os gestos de Jesus durante a última ceia são muito significativos, pois é a ceia de despedida. Jesus diz: “Em verdade vos digo, já não beberei do fruto da videira até o dia em que o beberei de novo no reino de Deus” (Mc 14,25). “Não a (páscoa) comerei até que se cumpra no reino de Deus” (Lc 22,16). Com estas palavras Jesus expressa a certeza de sua morte, por um lado, e, por outro, sua firme adesão ao Reino de Deus, o projeto que inspirou toda a sua vida. Ele proclama a sua inquebrantável confiança na realização do reino de Deus. O senhorio/reino de Deus se realizará não obstante a separação da morte. O Cristo se assentará de novo à mesa com quantos nele confiaram.
Pe. Felipe Rota Mártir








