Maria presença que cativa o Espírito Santo

O mês de Maio dedicado a Maria, tempo pascal que antecipa a festa de Pentecostes. A grandeza de Maria reside na relação privilegiada e singular com a Trindade, participando do projeto criador e salvador. Como se atribui ao Espírito Santo o lado feminino de Deus, - Espírito em hebraico é feminino -, a liturgia e a teologia, com frequência, guardadas as devidas distâncias entre criatura e Deus, aplicam os mesmos títulos ao Espírito Santo e a Maria.
“Tendo-se completado o dia de Pentecostes, estavam reunidos no mesmo lugar”. (At 2,1). Admirando uma pintura: o dia de Pentecostes, Maria, a Mãe de Jesus rodeada pelos doze apóstolos, sobre cada cabeça uma língua de fogo. Quadro conhecido, familiar, mas desta vez a contemplação faz brotar uma interrogação: por que somente uma mulher, a Mãe de Jesus?
Acredito que o pintor compreendeu e penetrou profundamente no espírito de Lucas: o Livro dos Atos é a continuidade do Evangelho; a Boa Notícia de Jesus, a Boa Notícia das Comunidades. O primeiro Livro, o Evangelho, se abre com a presença forte de umas personagens entre elas se sobre sai: Maria, o Espírito Santo e Jesus. Vamos acompanhar: O Espírito Santo virá sobre ti... Lc 1,35; Isabel cheia de Espírito Santo exclamou... Lc 1,41; Zacarias, cheio de Espírito Santo profetizou... Lc 1,67; Simeão... se guiava pelo Espírito Santo... Lc 2,25; o céu se abriu, desceu sobre ele o Espírito Santo... Lc 3,22; Jesus, cheio de Espírito Santo, afastou-se do Jordão e deixou-se levar pelo Espírito ao deserto... Lc 4,1; Impulsionado pelo Espírito, Jesus voltou à Galileia... Lc 4,14; O Espírito do Senhor está sobre mim... Lc 4,18.
Ao ler novamente estes textos, espontânea vem uma reflexão: lá onde está Maria está o Espírito Santo. Lá onde está o Espírito há novidade. Onde há novidade desabrocha a vida. O Espírito é cativado pela presença de Maria. Nem sempre seu nome é verbalizado, mas ela está presente e sua presença chama a força do Espírito que faz reconhecer, profetizar, que guia e conduz. E em sua presença, na vida cotidiana de Nazaré, o filho Jesus cresce forte e cheio de sabedoria (cf. Lc 2,40.52). E, Lucas no seu segundo Livro, os Atos, desde as primeiras palavras quis nos dizer que tudo isso continua: depois de dar instruções aos apóstolos que havia escolhido At 1,2; João batizou com água, vós em breve sereis batizados com o Espírito Santo At 1,5; Mas recebereis uma força, do Espírito Santo que virá sobre vós. E sereis minhas testemunhas... At 1,8; Todos eles estavam reunidos, com algumas mulheres, a mãe de Jesus... At 1,14; Estando reunidos no mesmo lugar At 2,1.
O Espirito prometido desce sobre os discípulos e discípulas cativado pela presença de Maria. Está é a única vez em que se fala dela. Única e indispensável presença da mãe de Jesus. Sem ela não haveria Jesus, sem ela não haveria as primeiras comunidades. Maria gera em seu ventre o Filho de Deus. Maria gera em seu coração os filhos e filhas que vão dar continuidade ao Projeto de Vida.
O texto de At. 2,1, não expressa o nome de Maria, mas ao longo dos séculos os artistas sempre pintaram esta cena com sua presença. Os pintores interpretam a fé do povo que vê Maria como mãe de Jesus e nossa mãe. Ao fazer isto interpretam corretamente as primeiras páginas do Livro dos Atos, pois o texto diz: estando reunidos no mesmo lugar repetindo ao pé dá letra as outras palavras todos eles estavam reunidos, com algumas mulheres, a mãe de Jesus. Este estar reunidos, este estar no mesmo lugar nos fala de continuidade. O mesmo lugar, as mesmas pessoas.
Então seja Lucas, seja os pintores, seja a igreja al longo do tempo cometeram uma grande injustiça. Lucas influenciado pela linguagem patriarcal ignora as mulheres e faz sair as praças somente homens como as havia ignorado na escolha do apóstolo. Os pintores na sua piedade popular apresentam Maria no convívio dos apóstolos. Maria a Mãe de Jesus. Maria mãe dos apóstolos. Maria a Mãe da Igreja nascente. Maria, aquele sem a qual não há Espírito Santo. Maria na sua Maternidade divina espoliada de sua humanidade.
Mas as outras mulheres, as mulheres sem rosto e nome estas desaparecem das pinturas como desapareceram da história. Elas que seguiram, serviram, subiram com Jesus até a cruz, elas desaparecem. Elas, com nome de Maria Madalena, Maria de Clopas, Susana, Joana, escolhidas como testemunhas privilegiadas do Ressuscitado são esquecidas. Mas, o Espirito entrou nas palavras de Pedro e lhe fez proclamar a profecia de Joel onde as mulheres tomam a palavra, os jovens profetizam e os anciãos sonham. Profecia dos tempos messiânicos, profecia do Espirito, em Maria, nas mulheres. Elas, como todas as mulheres clamam para que sua memória seja acordada. E quem sabe um pintor ousado, ou quem sabe uma pintora as represente na cena da Pentecostes, faça justiça depois de dois mil anos de história.
Ir. Tea Frigério, mmx







