Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor

Este ano a Campanha da Fraternidade é ecumência (CFE), com o tema: “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” e o lema: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2,14). A finalidade desta campanha é avaliar e identificar caminhos para supera as polarizações e violências através do diálogo amoroso, testemunhando a unidade na diversidade.
Esta é a quinta Campanha da Fraternidade Ecumênica (2000, 2005, 2010, 2016 e 2021) na busca para a conversão ao diálogo e ao compromisso de amor entre cristãos.
1. Impressões sobre acontecimentos presentes
Vivemos durante o último ano a pandemia da Covid-19, para a qual é difícil encontrar respostas e soluções, revelando a fragilidade e a vulnerabilidade humana. Alguns religiosos associavam pandemia ao fim do mundo, seria um sinal que “Jesus está voltando”. Inclusive algumas igrejas tiveram dificuldade em fecharem os templos na quarentena, realizando aglomerações, sabendo que as multidões causam contaminações e morte. Porém muitas igrejas assumiram o testemunho cancelando todas as atividades religiosas presenciais.
Teorias conspiratórias foram desenvolvidas, de que a Covid-19 foi criado em um laboratório na China, fomentando a xenofobia e a luta geopolítica. Infelizmente a muitos trabalhadores não lhes foi permitido realizar o isolamento social: quanto menos pessoas circulando, menos propagação da Covid-19. Com o confinamento, houve aumento de violência doméstica durante o isolamento social. Inclusive, não cessou a violência policial e o racismo.
No último ano houve aumento do desemprego e da pobreza aprofundando as desigualdades, a proliferação e difusão das fake news e do discurso de ódio nas redes sociais. Vivemos momentos difíceis por causa dos muros construídos do racismo, desigualdade econômica, da dificuldade de conviver com opiniões diferentes, do desrespeito e ataque às instituições democráticas.
Diante da crise da pandemia, o dinheiro que deveria ser investido em educação, saúde, moradia e geração de emprego e renda para o bem-estar das populações foi desviado para o sistema financeiro. As consequências foram os altos índices de desemprego, aumento da pobreza, da fome e aprofundamento das intolerâncias. Enquanto 1% mais rico não abre mão dos privilégios protegidos pelo sistema perverso a maioria da população cada dia vai empobrecendo cada vez mais.
A necropolítica do governo nega a humanidade ao outro, legitimando a violência, a inimizade, o discurso de ódio, o armamento da população contra os pobres, indígenas, negros, migrantes, LGBTQI... estes são classificados como não cidadão por causa do preconceito e intolerância. Além disso, os índices de homicídio indicam racismo que atinge mais a população negra e jovem (em 1918 76% dos homicídios eram negros). Ainda entre 2008 e 2018 houve um aumento de 4% no aumento de homicídios de mulheres, o que indica um aumento do feminicídio (30% em 2018 foram feminicídios, das quais 68 % eram negras). Os números mostram que a sociedade está estruturada no racismo e no patriarcado. Os negros têm menos acesso às políticas públicas e sobrem mais violência e repressão policial. Outro grupo social que sofre a violência estrutural são as pessoas LGBTQI, com discursos de ódio, de fundamentalismo religioso, de vozes contra o reconhecimento dos direitos humanos. Brasil está entre os quatro países que juntos somam 80% de ativistas dos direitos humanos no mundo.
A catástrofe ambiental continua mostrando as consequências com o aumento das temperaturas globais, derretimentos das geleiras polares, aquecimento dos oceanos, por causa do crescimento dos incêndios florestais, da poluição... trazendo mudanças climáticas, degradação ambiental, é urgente reduzir a emissão de gases produtores do efeito estufa. Em 2019 houve um aumento de desmatamento de 30% na Amazônia.
Existe ainda o racismo e a violência religiosa que promovem a intolerância, a xenofobia e o ódio ao diferente, dirigido contra pessoas por causa dos traços físicos, expressões culturais, vestimentas, língua, vocabulário e crenças religiosas. Para o povo negro e indígena a religiosidade tradicional significa resistência e fonte de vida. Infelizmente, a intolerância religiosa é impulsionada para justifica a falsa moralidade e a prática da violência através de fundamentalismos e discursos de ódio.
2. “Carta para pessoas de boa vontade em um mundo cheio de barreiras e divisões”
O lema da CFE 2021 tirado da carta a Éfeso, uma comunidade no mar Mediterrâneo na época da Paz Romana, esta significava a institucionalização da violência e exploração. Os que aceitavam o Evangelho derrubavam o muro da separação e construíam a comunhão e a gratuidade do amor de Deus (Rm 8, 1-4.31-32; At 4,36-37; Ef 2, 17-18; 3,6). No ano 68 d.C. surgiu a guerra dos Judeus contra Nero imperador de Roma, começou a perseguição contra os cristãos (66 d.C.); a revolução judaica na palestina (66 d.C.) e a destruição de Jerusalém pelos romanos (68 d.C.). Neste contexto os cristãos começaram a serem martirizados por seguir a causa de Jesus, que era conflitiva com o Império Romano. Portanto, os que abraçavam o cristianismo eram uma ameaça para o Império. Domiciano declara o cristianismo religião ilícita.
A carta aos Efésios quer criar a unidade na diversidade (Ef 1, 3-14). A fé em Jesus Cristo é o vínculo que une a comunidade e garante que experimentos os sinais do Reino de Deus entre nós. O lema da CFE 2021, “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2,14). O versículo faz menção da parece ao templo de Jerusalém que dividia o pátio separando Judeus e gentios. Em Cristo não há lugar para a violência ódio ou racismo. Viver em paz é sinal da chegada do Reino de Deus.
A carta aos Efésios faz uma reflexão sobre a natureza da igreja que nasce da misericórdia de Deus revelado em Cristo (Ef 2,4-50). A igreja é sinal da salvação para a humanidade (Ef 1,9; 3, 4-9; 5,32; 6,19); como Corpo de Cristo, deve esforçar-se para expressar a unidade na diversidade. No hino da unidade (cf Ef 1, 4-11), o texto apresenta que os cristãos não devem combater outras tradições religiosas, mas acolhê-las e amá-las em Cristo. A carta pede de derrubar os muros entre os circuncidados (judeus) e os não circuncidados (gentios) porque em Cristo a divisão foi eliminada (Ef 2, 14-18).
A paz, “shalom”, é tema bíblico (Is 9,6; 11, 1-9; Mq 5, 4-5; Sl 85, 8-14). A paz que brota da fé em Cristo supera a inimizade e o ódio, promovendo a unidade (Ef 4, 1-16). Porém o orgulho religioso levanta muros (Ef 2,1-10). Mas os cristãos devemos construir a paz em Cristo, criando uma nova humanidade (Ef 2,19). Por isso, as comunidades cristãs são chamada serem o espaço de esperança que possibilita sonhar, exercitar e concretizar a Boa Nova.
3. Cristo é a nossa Paz: do que era dividido fez uma unidade
A fé em Jesus Cristo nos compromete a derrubarmos os muros das divisões, portanto somos chamados para trabalhar pela unidade na diversidade como:
- Promover o diálogo ecumênico participando da semana de oração pela unidade dos Cristãos na semana que antecede a festa de pentecostes.
- Conviver com outras religiões lutando contra a intolerância religiosa
- Participar de ações concretas de solidariedade em prol dos mais pobres na luta pelos direitos fundamentais em conjunto com outras Igrejas e religiões;
- Comprometermos no compromisso da superação da violência contra as mulheres e da dignidade humana na sociedade, assim como maior participação delas nas igrejas.
- O engajamento do cuidado da casa comum nas muitas ações inciativas.
Rafael Lopez Villasenor, sx








