Teologia da Trindade: Deus uno e Trino

  • Hans Urs Von Balthasar
  • Teologia
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 A Comunicação Trinitária

Perante a revelação de deus na história como Pai… Filho… Espírito Santo, surgem três questões:

  1. Essas três formas de encontro de Deus com a história não serão apenas  uma “máscara” usada por Deus para assumir diferentes “papeis”  ao longo da História?...
  2. Essas três formas de revelação de Deus não serão apenas três maneiras de o Homem se poder encontrar e relacionar com Deus?
  3. Ou não será a tríade divina ( ou Trindade ) uma expressão da auto-consciência do Homem e da sua necessidade de se relacionar   com Deus?
Pressupostos "cientificos" de uma resposta

No nosso conhecimento de Deus dá-se um pouco do que acontece com o conhecimento científico nos dias de hoje: * toda a verdade que se conhece depende das “ondas” que a  própria realidade nos pode revelar à experiência:   as “relações” em Deus * toda realidade conhecida e experimentada depende do  ângulo de visão do próprio experimentador e só lhe revela  um aspecto de cada vez: “complementaridade”  a Revelação e a História * só conhecemos e podemos experimentar a realidade  na medida em que nos deixamos envolver por ela  a fé e a experiência religiosa  (JOSEPH RATZINGER, Introdução ao Cristianismo, p. 126-128).

A doutrina cristã que encontra a sua expressão  no Deus Uno e Trino significa, no fundo, a renúncia à tentativa  de encontrar uma saída e a permanência no mistério que o ser humano não é capaz de alcançar: na realidade, essa profissão de fé é a única renúncia verdadeira  à pretensão do saber que torna  tão atraentes as soluções simples com a sua falsa modéstia (JOSEPH RATZINGER, Introdução ao Cristianismo, p. 121).

trinidade-1 Deus Uno -Trino: Unidade e Multiplicidade

1. Referir a essência de Deus como unidade e trindade significa que a definição da divindade ultrapassa as nossas categorias de unidade e pluralidade como  opostos: unidade e multiplicidade na filosofia.

2. Ao mesmo tempo significa que se ultrapassa o “dualismo” tão presente nas culturas antigas: persa, grega, etc. É na de “trindade” e não na dualidade que melhor se entende a “unidade” de Deus.

3. Ultrapassa-se também o conceito de “unidade” que não se confunde com  “unicidade”; “a forma máxima da unidade é a que cria o amor”; daqui vem a ideia da Trindade com a verdadeira expressão de Deus: não apenas Trindade económica, mas Trindade imanente.

Deus Uno -Trino: o conceito de pessoa

1. Aplicar a Deus o termo “pessoa” implica dizer e acreditar que Deus é “relação, é “linguagem”, é “diálogo” e é “fecundidade”. O conceito de pessoa em Deus implica falar de trindade de pessoas.

2. A palavra “pessoa” ( “pro+sopon” e “per+sonam” ) significa “um olhar dirigido para…”; é nesta dimensão antropológica que melhor poderemos aplicar o  conceito de pessoa ao Pai, ao Filho e ao E. Santo, e não tanto na dimensão de “indivídua substantia”  que pode levar-nos a um “tri-teismo”.

3. A “personalidade” das pessoas divinas ultrapassa a maneira humana de ser pessoa; no caso das pessoas humanas não existe uma relação subsistente ao passo que em Deus essa relação existe: Deus Pai nunca  foi Deus sem ser Pai… ou Deus Filho sem ser Filho, quer na revelação quer na eternidade.

Deus Uno - Trino: Absoluto e Relativo

1. A ideia de “pessoas” e de “relações” em Deus já é de certa forma atestada  na Sagrada Escritura quando nos fala de “um Deus que dialoga consigo mesmo” (Gen 1, 26; Sal 109, 1). Deus não é simplesmente “logos”, mas é “diá+logos”.

2. Os conceitos de “substância” e de “pessoa”  exigem-nos que, ao falar de Deus, saibamos estar perante formas de dizer aquilo que é  indizível; os conceitos utilizados não são os únicos possíveis, pelo que  não nos deveremos apegar demasiado à terminologia usada.

3. Falando de unidade de Deus ao nível da “substância” não se poderia falar de pluralidade ao nível dos acidentes, porque não se tratava disso;  foi então que se escolheu o conceito de pessoa enquanto “relação”; o próprio conceito de “substância” em Deus implica ser possuída pelas três pessoas.

A profissão de fé na unicidade de Deus não é menos radical no cristianismo que em qualquer outra religião monoteísta; pelo contrário, é nele, que essa unicidade alcança a sua  verdadeira grandeza.  A essência da vida cristã consiste, porém, em aceitar e viver a existência como relacionalidade, para entrar, dessa maneira, naquela unidade que é a base que sustenta toda a relacionalidade (JOSEPH RATZINGER, Introdução ao Cristianismo, p. 136).

Deus uno e Trino

1. Mesmo quando o Antigo Testamento nos fala de Deus, não o podemos aplicar apenas ao Pai: * aplica-se ao Deus que Jesus revela como Pai * aplica-se ao Deus que depois sabemos ser Trindade.

2. Quando falamos de Deus não falamos de um Deus-Uno que depois se “transforma” em Deus-Trino; ele é sempre “Uno-Trino”.

3. A unidade divina não significa um Deus “unipessoal”, nem a unidade de uma essência abstracta, nem, muito menos, a unicidade do Pai, mas  a unidade do Pai, Filho e Espírito Santo.

O Pai divino é mais que “benevolência”, “fidelidade”,  “misericórdia”, quer dizer, é um amor substancial em  si mesmo (e não só para com as criaturas) para o qual precisa do Amado, gerado na sua auto-doação; e para demonstração do perfeito desprendimento da unidade dos dois,  precisa de um “terceiro”, fruto e testemunho da unidade do amor que gera e que agradece” (H.U. VON BALTHASAR, Theologik III, Der Geist der Wahrheit, p. 404).

II. O Pai de Jesus Cristo

“Jesus compraz-se em mostrar-me o único caminho que conduz a essa fogueira divina. Esse caminho é o abandono da criança que adormece, sem medo, nos braços do pai…” (S. Terezinha de Lisiux -História de uma alma).

Paternidade Divina no Antigo Testamento

1. A ideia da paternidade divina era entendida no AT como uma forma de relação com o Povo: libertação…eleição…

2. É um Deus “com entranhas maternas” (Is 66, 13; Is 49, 15; Sal 27, 10  Jer 31, 15-20; Num 11, 12-13…).

3. Só nos escritos tardios do AT e particularmente na literatura  Sapiencial se fala de Deus como Pai do justo (Sab 2, 16).

4. O Deus criador, o Deus da Aliança, o Deus que falou pelos Profetas é o mesmo que Jesus nos apresenta como PAI.

Gostaria de recordar que a Palavra PAI permanece obviamente uma metáfora. Continua a ser verdadeiro que Deus não é homem nem mulher mas precisamente Deus. Trata-se efectivamente de uma imagem que Cristo nos entregou inequivocamente, para que nós recorrêssemos a ela na oração. Uma imagem através da qual nos quer comunicar alguma coisa sobre a visão de Deus. O Deus representado por uma imagem paterna “cria” através da palavra, e por isso, daqui deriva a diferença específica entre criatura e criação (JOSEPH RATZINGER /BENTO XVI,  Dio e il Mondo).

O Filho revela o Pai

1. Jesus fala do Deus criador, do Deus da Aliança, do Deus dos Profetas como Seu Pai  e invoca-o como tal;

2. Jesus exprime a sua relação com Deus numa dimensão familiar: trata-O com o termo aramaico “Abba” ( Mc 14, 36) que vai ser retomado em Rom 8, 15 e Gal 4, 6; 3. O Pai de Jesus Cristo é o que convida para as bodas (Lc 14, 16), é o que perdoa as dívidas (Mt 18, 23), o que caminha à procura do homem e age discretamente (Mt 13, 31-32); 4. Jesus, fala de Deus como Pai e fala de si mesmo como Filho; particularmente no “Hino de Júbilo” ou “Logion Joanino” (Mt 11, 25-27). O nome “Pai” altera assim o seu valor: não é já um simples atributo genérico que diz respeito à divindade, que exprime a sua bondade ou mesmo a eleição de um povo ou de um indivíduo, mas tornou-se um nome trinitário, um nome que se compreende a partir do Filho  e vice-versa. Mais tarde, a teologia explicará que esta comunhão entre o Pai e o Filho se realiza no Espírito Santo. Deus, Pai de todos os homens A oração do Senhor dá-nos ainda uma nova dimensão do Pai: a paternidade divina estende-se a todos os homens…

1. Há uma relação íntima entre o envio do Filho e a filiação divina de todos os homens. Ao ensinar o “Pai Nosso”, Jesus introduz-nos no mesmo tipo de relação que tem com o Pai.

2. No entanto Deus não é “nosso Pai” da mesma forma que o é de  Jesus: “vou para meu Pai e vosso Pai” (Jo 20, 17).

3. A comunidade cristã primitiva tem consciência da importância  desta relação com Deus, de modo que a “Oração do Senhor” se torna num dos elementos fundamentais da oração cristã.

Esta relação “Pai-Filho”  constitui um modelo linguístico que nos permite abrir uma brecha no mistério de Deus. Mesmo levando em consideração o facto de que  – como salienta o IV Concílio de Latrão – Deus é muito mais dissemelhante das realidades terrenas do que lhes poderá ser semelhante, nunca poderíamos ter uma ideia, por mais pálida que fosse sobre o mistério de Deus, se esta relação não nos oferecesse um reflexo daquilo que Deus realmente é  (JOSEPH RATZINGER / BENTO XVI, Dio e il Mondo).

Ó meu Deus, Trindade a quem adoro ajuda-me a esquecer-me totalmente de mim, para me instalar em ti, imóvel e tranquila, como se a minha alma já estivesse na eternidade. Que nada possa perturbar a minha paz, nem me fazer sair de ti, ó meu Imutável, mas que cada minuto me envolva mais nas profundezas do teu mistério. Pacifica a minha alma, faz dela o teu Céu, tua morada de amor e o lugar do teu descanso. Que nela eu nunca te deixe só, mas que esteja ali com todo o meu ser toda desperta na fé, toda adorante totalmente entregue à tua acção criadora (Beata ISABEL DA TRINDADE).

Da Trindade Econômica à Trindade Imanente Será possível  conhecer a realidade intima de Deus?

1. Não é possível conhecer Deus Trino por qualquer tipo de conhecimento  que não passe pela revelação histórica: é em Jesus Cristo que temos um verdadeiro acesso à “teo-logia”.

2. A teoria agostiniana e medieval dos “vestigia Dei” no mundo criado não  nos leva ao conhecimento da Trindade; pelo contrário, mais que um acto  de razão, ela pressupõe a existência da fé.

3. A questão das “sementes do Verbo”, ou sementes de verdade que o “Logos” lançou sobre o mundo poderão ter a ver com a Trindade, mas  não a dão a conhecer explicitamente.

Textos Bíblicos: Mt 28, 19; 2Cor 13, 13; 1Cor 12, 4-6; Jo 1,18; A Trindade Económica é a Trindade Imanente

1. Deus revela-se tal como Ele é. Caso contrário, não haveria verdade nem na Revelação nem na Salvação: Deus estaria a enganar-nos…

2. Nas actuações “ad extra” operam unitariamente as três pessoas divinas; não faria sentido que actuassem uma independentemente da outra…

3. Só na Incarnação do Filho há uma actuação diferenciada: só o Filho  incarna, pela acção do Espírito e segundo a vontade do Pai. E só o Filho poderia incarnar: ele é o Revelador do Pai.

4. Deus revela-se para nossa Salvação tal como Ele é: nesta forma de actuar se mostra algo do seu “ser íntimo”. 5. Na Revelação é Deus que se nos dá a si mesmo e não apenas nos oferece os seus “dons”, por excelentes que eles possam ser.

Com este modo de actuar e de se comunicar a si mesmo, Deus dá-se-nos a conhecer tal qual é. O facto de pensarmos que Ele poderia ter feito as coisas de outro modo é entrar em especulações para as quais a revelação não nos oferece qualquer fundamento.  Portanto há uma correspondência entre a Trindade económica e a Trindade imanente; são a mesma coisa, não se distinguem adequadamente (LUIS F. LADARIA, El Diós vivo y verdadero, p. 51).

E vice-versa?

1. Não podemos pretender que Deus seja apenas aquilo que nos revelou: a revelação, com o seu conteúdo, é livre e gratuita; Deus permanece  transcendente ao mundo e à História, mesmo da Revelação…

2. A Trindade não se resolve – como em Hegel – na dialéctica entre: * Deus, subjectividade infinita – TESE  * a contradição do mesmo: o Deus revelado – ANTÍTESE  * a solução da contradição: o Espírito – SINTESE.

3. A identidade entre a Trindade económica e a imanente não se pode explicar em termos de uma realização de Deus através da economia  da salvação: Deus não se “realiza” ao revelar-se, não se “dissolve” nos acontecimentos da História, nem muito menos se “esgota” neles.

Será que Deus compromete e revela todo o seu mistério na auto-comunicação que faz de si mesmo?

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A identidade entre a Trindade económica e a Trindade imanente deve entender-se no sentido de que, por um lado, Deus se nos dá e se nos revela tal como é em si mesmo, mas fá-lo livremente, quer dizer que o seu ser não se realiza nem se aperfeiçoa nessa auto-comunicação; e, por outro lado, no sentido de que, nesta revelação, Deus se mantém no seu mistério; a sua maior proximidade significa a manifestação mais directa da Sua maior grandeza.

No entanto, mesmo que a economia da salvação não condicione o ser de Deus, não quer dizer que não “afecte” a vida divina ou lhe seja indiferente.

“A Trindade económica aparece realmente como a  interpretação da Trindade imanente que apesar de ser  princípio fundante da primeira, não pode simplesmente ser identificada com ela. Porque, em tal caso, a Trindade imanente e eterna  corre o risco de se reduzir à Trindade económica. Para sermos mais claros: Deus correria o risco de  ser absorvido no processo do mundo, e de não poder  chegar a si mesmo mais que através do mesmo processo” (HANS URS VON BALTHASAR, Theodramatica III).