Os pobres são evangelizados? Perspectiva a partir da tradição Guadalupana

  • Gerardo Custodio Lopez
  • Teologia
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Muito tem se escrito a respeito do papel que joga o pobre na teologia latino-americana. O exemplo clássico disso são as obras: Teologia da Libertação de Gustavo Gutiérrez e Jesus Cristo e a liberação do homemde Leonardo Boff.

Entre tanto, se a analise do pobre parte considerando o acontecimento do Tepeyac, no contexto da tradição guadalupana, então nos colocamos no angulo diferente, onde pode surgir alguma novidade com a seguinte pergunta, que será o tema da nossa reflexão: Os pobres são evangelizados?

Partindo da tradição guadalupana onde se apresenta uma relação entre os três personagens principais: a Senhora do Céu, Juan Diego e o Bispo, a iniciativa parte da Senhora que fala para Juan Diego, onde mostra a maneira especial como a mensagem é transmitida de maneira natural, numa conversação fraterna, amigável, de você para você, respeitando a pessoa do outro e seu entorno, para logo surgir o convite para ser portador de uma grande notícia. No relato, Juan Diego, que representa um povo que vivia no caos pelas consequências da conquista, é transformado pelo encontro com a Senhora e ele aceita levar a mensagem para o bispo, quem a sua vez, também é convidado a receber a boa notícia.

Por pobre entendemos aquele necessitado, desprotegido, limitado, carente, reduzido, rebaixado… do mais elemental para viver como pessoa. Evangelizado vem de evangelho, boa nova. Evangelizado é aquele que responde à proposta da boa nova, à salvação, e melhor ainda, ao Reino de Deus, ao projeto de Deus([1]).

CONTANDO O NICAN MOPOHUA

             Nican Mopohua são as primeiras palavras náhuatl da narrativa das aparições no Tepeyac ([2]) que significam: aqui se relata. Foi escrito por Antonio Valeriano([3]) na língua náhuatl clássica algum tempo antes da morte de Juan Diego em 1548.

             Conta-se que una Senhora do Céu chamada Guadalupe apareceu no morro do  Tepeyac. Deixou-se ver de um pobre índio de nome Juan Diego. Aconteceu em 1531, um sábado 09 de dezembro na madrugada, nos que Juan Diego se dirigia a Tlatelolco para o culto. Ouviu música e pássaros provenientes da cima que lhe fez pensar que estava por acaso sonhando ou já estava no céu. Alguém o chamou: Juanito, Juan Dieguito. Subiu a colina e viu uma Senhora de pé que pediu de se aproximar: “O menor de meus filhos, a onde você vai? Eu sou Maria, a mãe do verdadeiro Deus, o doador da vida, o Criador  da humanidade e Mestre da proximidade, o Senhor dos Céus e da terra. Quero meu templo aqui neste lugar, aonde vou a mostrar e dar todo meu amor, compaixão, ajuda e proteção as pessoas, a você e aos moradores desta terra e a quantos me amem, Aí ouvirei suas queixas e remedarei suas penas, misérias e dores. Agora vê ao palácio do bispo de México e dizei para ele, que eu envio você como meu mensageiro. Esta é a missão que lhe confio."

             Ele foi ao palácio do bispo Juan de Zumarraga a quem deu a mensagem, mas não acreditou porque pensava que era uma invenção dele. Juan Diego volveu chateado e disse para a Senhora, que já o esperava: "Suplico, minha Senhora, que encarregues a um dos nobres, pessoas respeitadas para que assim a sua palavra seja acreditada". Logo Juan Diego falou sobre si mesmo: "Eu sou apenas um pequeno homem que não tem um lugar próprio, um cordão, escadinha, palha, uma folha; você me envia para um lugar por onde não ando nem paro."  Ela respondeu: "é absolutamente necessário que seja precisamente você quem vai falar por mim. Suplico-lhe e ordenou-lhe que vá amanhã novamente ver o bispo." Ele replicou: "irei com muito boa vontade, mas quiçá não seja ainda acreditado. Amanhã voltarei para dar-lhe o retorno do bispo".

             O dia seguinte era domingo, foi e com dificuldade o deixaram ver o bispo a quem relatou a mensagem, mas mesmo assim não acreditou nele. O bispo pediu uma prova para acreditar. Na segunda feira, Juan Diego ficou em casa por causa da doença do tio Bernardino. Na terça feira, Juan Diego ia por um padre para que auxilie o tio, mas a Senhora sai ao encontro dele e lhe pergunta: aonde vai? Ele após explicar-lhe sobre o tio doente ela respondeu: "escuta, o menor de meus filhos, que nada o reprima, não tenhas medo de nenhuma doença ou dor. Não estou aqui eu que sou tua mãe? Não estas sob minha proteção e amparo? Há algo mais que você precise? Esteja seguro que ele não morrerá, por agora, do que ele padece, pode estar seguro que ele se recuperará" Ele consolou-se muito e seu coração recuperou a calma.

             Juan Diego lhe suplicou que o enviasse pelo sinal. Ela disse: "vai para a cima do morro, aí encontrarás muitas flores, corta-as, ajunta-as e trazei-as para mim, para que eu as veja" Juan Diego subiu ao morro e cortou as flores e as colocou no seu poncho. Logo que voltou diante da Senhora, ela as tomou com as mãos e as colocou de novo no poncho. "Meu filinho, estas rosas são a prova e o sinal, para serem apresentadas apenas diante do bispo". Ele se marchou.

             Depois de muito esperar conseguiu ver o bispo e disse: "Senhor bispo, fiz como você ordenou, aqui tem o sinal para que acredite em minhas palavras e na mensagem, receba-as". Nesse momento desenrolou o poncho e as flores caíram espelhadas no chão. No mesmo instante apareceu pintada no poncho a imagem da Senhora. O bispo ajoelhou-se e todos se emocionaram, chorando e pedindo desculpas por não ter acreditado na palavra dele e ter negado o que ela tinha pedido.

             O bispo desatou o manto do pescoço de Juan Diego e o levou para a capela. Juan Diego ficou aí o dia inteiro e ao dia seguinte, o bispo disse: "Vamos para que mostre o lugar onde a Rainha do céu quer que seu templo seja erguido."Juan Diego indicou o lugar e logo se dirigiram para a casa dele. Uma vez que chegaram, o tio Juan Bernardino contou a maneira como a Senhora o tinha curado e que ele também tinha visto a Senhora tal e como o sobrinho. "Ela disse o seu nome, que seria o nome da preciosa imagem, a sempre Virgem Maria de Guadalupe".

 O  ENCONTRO E A RELAÇÃO DOS PERSONAGENS

Ao mesmo tempo em que analisou a relação dos personagens, vou sugerindo alguns pontos que vejo adequados para a evangelização do pobre.

  • Encontro da Senhora com Juan Diego (o pobre)

Mais que aparições a Juan Diego,  foram encontros, aproximações fraternas. Os encontros vão mostrando, por um lado, à Senhora que se revela progressivamente na identidade e no desejo que a leva a estar aí; por outro lado, Juan Diego e logo o bispo vão entendendo a identidade da Senhora na medida em que acontecem os encontros.

            A Senhora do céu apresenta-se num ambiente em concordância com a ordem do universo, já que a missão asteca era a conservação do mundo pela mística ao deus Huitzilopochtli ([4]) de dar vida ao sol. Ela chama a Juan Diego e lhe diz: Juanito... Aonde você vai?

"No xocoyouh Iuantzin... como objetividade e sem forçar o náhuatl, devemos de entender: 'Juan, você é digno de respeito, o menor de meus filhos... ' ou dentro do contexto do conquistado seria: 'Juan você que é digno, foi reduzido, foi diminuído."([5])

            As palavras da Senhora tocam profundamente na realidade de Juan Diego e do povo que representa. Em poucos anos, tinham passado de um estilo de  vida a um ambiente de morte gerado pela conquista. As vidas deles não tinham mais sentido, porque os valores tinham sido destruídos, os deuses tinham sido derrotados ([6]). No primeiro encontro com Juan Diego, a Senhora tinha falado com ternura como se fossem velhos conhecidos, o trata com respeito e ele percebe a afabilidade.

            No começo do relato aparece a palavra senhora com minúscula e depois com maiúscula. Juan Diego agrega: "Nochpotzine" que significa: Menina, ele não vê a Senhora como uma figura prepotente. Reconhece que tem certa superioridade, mas ele expressa-se com familiaridade, por esta razão ele também a chama: minha Senhora, minha menina.

  • Ela quer sua casa na terra dos expulsos

            Juan Diego diz à Virgem: 'Tenho que chegar a vossa casa de México Tlatelolco'. Porém, a Senhora diz que ela quer a casa no Tepeyac. Não diz que quer outra casa' ([7]) Talvez, quer dizer que no lugar onde estão os missionários não é a cada dela? A tarefa evangelizadora não estava sendo fácil e agora parece que a 'mãe de Deus' não está do lado dele, entretanto, a mensagem no conseguirá o objetivo sem a participação dele, porque a meta é que vencidos e vencedores formem 'uma nova família' ([8]).

Ela quer um templo para se manifestar ao povo. Quatro palavras são usadas (amor, compaixão, ajuda e proteção) para dizer o que ela deseja oferecer no templo onde vivem os despojados  da terra e, em concordância com Hoorneart, diria que no lugar considerado desprezível, ela sugere que a evangelização comece, onde moram os 'pagãos' e não ao contrário. Os indígenas não seriam enviados ao centro para se converter em crentes ([9]), já que o ensinamento da doutrina deve estar acompanhada do respeito e da dignidade da pessoa humana ([10]), como parte essencial do evento. Isto está muito claro entre a Senhora e Juan Diego.

            A Senhora oferece apoio a todos, contudo é preferencial para com os mais danificados pela opressão, os que vivem pelo rumo do Tepeyac. Para receber a ajuda dela, ela põe uma espécie de condição para todos: amar e confiar nela sempre. Juan Diego está vivendo a experiência de se sentir amado pelo fato que é o escolhido para a missão. O Tepeyac é o lugar onde começa a evangelização, onde eles vivem, onde a Senhora escolheu.

  • Juan Diego sente a confiança da Senhora e adota linguagem dela

guadalupe y juan diegoNo segundo encontro, ela diz: "Diga (ao bispo) que eu pessoalmente, a sempre Virgem Santa Maria, Mãe de Deus, envia você". Juan Diego não leva credito pelo bispo. Ao voltar, ela o espera, não se aparece, já está aí. Juan Diego lhe diz: "a menor de minhas filhas", ele usa a mesma palavra (Xocoyoun = filinho, rebento, brotinho) que ela usa com ele. Esta palavra significa num adulto: reduzido, insignificante, oprimido. Em outras palavras, Juan Diego lhe diz que o plano da Senhora não está funcionando, que ela também está sendo rebaixada, rejeitada e a põe na mesma situação que ele. Isto faz ver que o relacionamento entre os dois vai-se tornando estreito. Ela faz sentir que caminha junto com ele (e seu povo) e participa da realidade que está vivendo, porque ela é a mãe dos pobres e está do lado dele.

Juan Diego não oculta o pesar por não realizar-se o pedido da Senhora. Ele revela as suas aflições, compartilha a sua situação, pede perdão pela falta de efetividade, simplesmente  não pode conseguir os resultados desejados. Os pobres sempre se sentem culpados, e Juan Diego sente o mais profundo de seu 'nada', mas percebe o apoio da Senhora; deseja continuar e por sua vez quer ser fiel.

  • O pobre é confirmado na missão

            A Senhora diz: 'Tlaxiccaqui', escuta; 'Noxocoyouh' oprimido, reduzido. Ela repara que o menor de seus filhos anda triste e deprimido, isso não podia ser negado, nem despercebido, essa era a realidade concreta, mas apesar disso, ela o escolhe para realizar seu plano; não leva em conta os poderosos (o magnificat), além disso, nem mesmo os menciona.  "'Huelmomatica', com sua mãos, em outras palavras, o pobre deve levar adiante essa missão, a modelar, der lhe forma. ‘Ipanitlatoz', favorecer, apoiar, pede-se o apoio de Juan Diego." ([11])

            Ela manda de novo: "fazer saber por inteiro a minha vontade... que eu em pessoa... envio você". Uma tradução mais fiel seria: "que minha vontade tem que ser cumprida". Para a mentalidade náhuatl, cumprir a vontade divina não era questão de quer ou não querer, mas uma ordem. O paraíso de cantos e flores que havia ao seu contorno diz que Ela está relacionada com o divino. Ela vem do lugar onde Deus mora ([12]). O bispo deverá apenas entender e obedecer. Na cultura indígena, rejeitar a colaboração com os Deuses era considerado a traição máxima. Enfim, ela quer um templo onde os pobres possam ser reconhecidos como pessoas com dignidade. Juan Diego está pronto para refazer a missão e cumprir o desejo da Senhora. Ele como asteca ao ser eleito para uma missão era uma honra grande, um compromisso.

  • O templo é lugar de respeito e saúde das pessoas

              No terceiro encontro,  'A que está olhando bem em todas as direções' vai ao encontro de Juan Diego e lhe diz: 'noxocoyouh' meu filho pequeno. Ela sabe que ele tem um problema, que é a doença do tio. Este terceiro encontro vem a significar a intermediação, a necessidade de uma solução que acontece até o final do evento. 'A preocupação material' de buscar a saúde do tio, e a 'preocupação espiritual' da Senhora vem ao encontro da unidade de um único objetivo. De fato, no evento há uma só realidade. O tio é beneficiado primeiramente e a seguir todo o povo doente que está morrendo pela peste. Juan Diego intercede por todos. Ninguém ficará esquecido, porque a divindade está com eles. Buscar a saúde do tio é desejar a saúde para todo o povo e é parte do projeto da Senhora. Juan Diego  'a convida' a buscar juntos a saúde: "Você está bem de saúde, Senhora e minha Menina? e desse jeito os dois interesses se unem num só projeto.

              Juan Diego não lhe diz nada sobre o sinal, só sobre a mensagem. Tem presa, "Por favor... tenha-me paciência". Isto mostra a confiança que tem agora com a Senhora, não obstante, os astecas temiam às deidades. Juan Diego é evangelizado, consolado e recebe a confiança que precisa: "Não estou aqui eu que sou sua Mãe? Não temas nenhum mal..."

"Cuix amo Nehuatl in nimopaccayeliz? (A frase não se pode traduzir pela profundidade do conteúdo...) Não sou a natureza de sua saúde, o ser de seu bem estar, o princípio vital de sua paz?  ([13]).

            "Implorou que quanto antes o enviasse a ver o senhor bispo... para que este creia". Ela manda colher flores: "cortá-las, ajuntá-las, colhê-las", como terceiro personagem da intermediação em que ele participa, o faz não de forma passiva, mas como intermediário e mensageiro da Senhora: "Você contará diretinho tudo... para que possa induzir o Prelado". Para o mundo indígena, o sinal são as flores e para o bispo será a imagem. Cada qual interpreta a partir do próprio mundo. Ele apenas deve cumprir o mandato. "Já contente e seguro de se sair bem", Juan Diego é outro, parece que tem recuperado a confiança em si mesmo. Sente ter o apoio dEla. A dor do começo de ser ‘macehual’ (coitado, pobrezinho) vai ficando para trás e se lança para cumprir a sua missão.

  • O seu testemunho e sua palavra são escutados e acreditados

             "Os criados ao aproximar-se a Juan Diego não enxergavam verdadeiras flores, entretanto lhes pareciam pintadas, ou lavradas, ou costuradas na manta". As cores e figuras na roupa mostravam a identidade da pessoa que as vestia([14]). Se o verso diz que as flores pareciam 'pintadas ou lavradas ou costuradas' significa que as flores de verdade são já parte da personalidade de Juan Diego; ninguém as poderia roubar dele.

             "O bispo entendeu, que aquilo era realmente a prova". O poder do sinal vai tocar o coração 'incrédulo' do bispo. O bispo, antes de ver, prepara-se para aceitar e apoiar a mensagem; ele deseja com entusiasmo ver a prova que revelaria a autenticidade do que acontecia e acabaria com todo tipo de dúvida.

             "... Que pedias um sinal para poder acreditar em mim". A força destas palavras afirmam que aceitar à 'Mãe de Deus' é também aceitar o Índio. Se isto acontece, então há uma razão para construir o templo, de outra maneira, ter um templo apenas por edificá-lo, não é parte do projeto da Senhora. O templo tem que re-estabelecer  a dignidade do oprimido, "templo novo e sociedade nova" ([15]).

             "Eu tinha dado minha palavra de trazer algum sinal... para que seja feita a sua vontade". A prova pedida e o portador não se podem separar. O bispo, ou a aceita ou a deixa; a vontade da Senhora ou a sua própria vontade; construir o templo que dá dignidade ao Índio ou ignora todo o fato do Tepeyac. "Para que apareça a verdade de minha palavra e da minha mensagem". Este é um ponto decisivo do evento. Juan Diego não é um mero instrumento, mas uma pessoa. Ele é digno de confiança. É o portador da mensagem.

  • O bispo ao aceitar a mensagem aceita o mensageiro

"Desenrolou a sua manta branca... as flores espalharam-se pelo chão... desenhou-se na manta e apareceu repentinamente à preciosa imagem da sempre Virgem Santa Maria, Mãe de Deus... que foi chamada Guadalupe". "Logo que a viu o bispo, ele e todos... mostraram que a contemplaram com o coração e com o pensamento". "O bispo com lágrimas de tristeza, rezou e pediu perdão por não ter posto em obra a vontade dela".  O que aconteceu com as flores?  O bispo colocou toda a sua atenção apenas na imagem. Três encontros e duas aparições (aparição com o bispo nas flores e a do tio Bernardino) somam cinco que significa também, superação, pelo que o bispo e os empregados chegaram a ser parte positiva no evento. "Todos tem assumido a mesma atitude do pobre Juan Diego, se identificaram com ele... choram, pedem perdão"([16]). A meta do evento está se conseguindo. "A contemplaram com o coração e com o pensamento".

No evento, Guadalupe é fonte da mensagem e Juan Diego é o meio para poder realizá-lo, mesmo que ele e seu povo tenham sido reduzidos ao mais baixo nível pelos que sustentavam o poder ([17]). Ele emerge como evangelizado e evangelizador no projeto da Senhora, assumido a missão e chegando a ser parte dela.

"O médio é a mensagem; o mensageiro cheio de fé é a mensagem. Mas a mensagem encarnada no mensageiro resulta inaceitável, repulsivo, muda a ordem normal, que necessita mudança, conversão, morte para aceitá-lo como Boa Nova, o indígena vem da 'religião do diabo' "([18]).

  • Juan Diego faz uma síntese teológica

Nesta frase: "Explicou com precisão... que em todo se descobria ser ela a sempre Virgem, santíssima Mãe do Salvador, Nosso  Senhor Jesus Cristo". Aqui se encontra parte da mensagem: por um lado, o nome de Jesus Cristo aprece nos lábios de Juan Diego, ela não mencionou esse nome. Por outro lado, Juan Diego joga o papel de teólogo, colocando uma interpretação pessoal. O testemunho dele forma a base da tradição guadalupana, o Índio não diz que a Senhora é a Mãe dos astecas, da maneira como ela o tinha dito antes. Ele vai além do conceito asteca da divindade e faz uma síntese do que provavelmente tinha aprendido na igreja, que a 'Virgem é a Mãe de Jesus Cristo''([19]). A mensagem tem se desenvolvido de tal modo, que depois de considerar as crenças do povo, o Nican Mopohua apresenta à Senhora do Tepeyac como a mensageira da divindade.

A participação do bispo é básica também, para levar adiante os acontecimentos do Tepeyac até o final. O bispo não está obrigado a acreditar, nem por promessas, nem por ameaças; a Senhora, também não faz um contrato de trabalho com os missionários, nem fala com o bispo diretamente, mas através de um intermediário. Aos olhos do bispo, Juan Diego era o homem que tinha que ser catequizado na verdadeira doutrina, entretanto, o bispo foi 'convertido' através do Índio e o primeiro sinal da conversão está em hospedar a Juan Diego no palácio episcopal.

Receber alguém na própria casa era sinal de confiança, como fazer parte da família. Juan Diego era e o mensageiro conduziram o bispo a duvidar dele mesmo e de sua segurança para aprender a escutar ao pobre e a ter respeito por ele ([20]). A seguir o bispo perguntou pelo  lugar onde o santuário deveria ser levantado. É necessário passar do lugar da dominação para o lugar do oprimido, que é lugar escolhido pela Senhora. O bispo, portanto, assim o fez.

  • Fé e Vida se unem no mesmo projeto

No evento guadalupano, fé e vida, palavras e obras são coerentes. Trazem de novo a dignidade e a saúde aos Índios, não é apenas um anúncio, mais também um fato. O relato começa com o concreto, com a vida normal e fala de 'assuntos materiais' para levá-los a uma etapa mais completa ([21]).

A Senhora não apenas começa um projeto, mas também o leva a seu comprimento, e também não o começa no lugar do que oprime, mas com o povo explorado, onde o papel dela chega a ser essencial. Ela não quer um templo onde está o palácio episcopal, mas onde o povo pobre tem sido esquecido ([22]). Não quer pessoas sem direitos para que sejam integrados à cidade, porque eles moram bem distantes.

Esse é o sentido de construir um templo, porque a Igreja precisa estar com o pobre, igualmente como o pobre precisa estar com a Igreja.

Gerardo Custodio Lopez.


[1] Cf. Xavier León-Dufour, Vocabulario de Teología Bíblica, (Barcelona, Ed. Herder, 1980).
 
[2] O Tepeyac é o lugar onde já havia um templo para render culto a deusa Tonantzin, deus indígena. O povo fazia longas romarias de todos os cantos para a visitar. Está situado em um morro a uma légua (4-5 Km). ao norte da cidade do México. Cf Jaques Lafaye, Quetzalcóatl and Guadalupe: The Formation of Mexican National Consciousness 1531-1813 (Chicago and London: Univ. of Chicago Press, 1976), 211-12.
 
[3] "O célebre índio Antônio Valeriano, foi natural de Azcapotzalco, filho de caciques nobres y parente de Moctezuma. Quando em 1537 fundou Antônio de Mendoza o colégio de Santiago Tlatelolco, Valeriano foi um dos primeiros colegiais e catedrático de gramática. Foi governador dos índios de México por espaço de trinta e cinco ou quarenta anos e morreu de idade avançada em Agosto de 1665." José Cantú Corro Juan Diego (Cuautla: Ed. Juan Diego, 1941), 56.
 
[4] Huitzilopochtli foi um dos deuses dos astecas. Ele é um dos quatro filhos do deus supremo Ometéotl (omo=dos, teotl=deus). Os Astecas eram convictos de terem sido leitos por deus para serem os 'senhores' da maior parte do país. Huitzilopochtli era un deus guerreiro dos Astecas. Este deus nasceu brigando e para brigar. Cf. Bernardino de Sahagún, Historia de las Cosas de la Nueva España, libro III, c.III, nn.1-4 (México: Porrúa, 1985. Huitzilopochtli era a inspiração dos astecas e estes aceitaram essa mística. Cf. León Portilla, Los Antiguos Mexicanos, 95. "Os astecas pensavam que  Huitzilopochtli estava com raiva deles por não o alimentar suficientemente. A teoría era que a missão de alimentar o sol foi lhes dada pelo fato de terem sido o povo eleito de Huitzilopochtli muitos anos antes." Peterson, Ancient Mexico, 145
 
[5] Siller Clodomiro, “En torno al Nican Mopohua, Anotaciones y Comentarios” (Libro anual 1981-1982, Conmemoración Guadalupana 450 años), México, 1984, 151. I.S.E.E.
 
[6] Cfr. Elizondo Virgilio, “La Morenita, the evangelizer of the Americas”, San Antonio, 1980, 53. MACC.
 
[7] Siller, Anotaciones y comentarios, 153
 
[8] Cfr. Hoornaert, Eduardo, Guadalupe, evangelización y dominación, Lima, 1979, 15 Colección CEP.
 
[9] Cfr. Ibid. 32.
 
[10] Hoje chama-se `libertação integral', `evangelização'. Cf. Puebla, nn. 4, 75, 85, 480-85. `Evangelii Nuntiandi', nn. 29-34. Muitos anos depois os bispos latino-americanos reunidos em Medellín (1968) e Puebla (1979) finalmente o levariam em consideração. Cf. Sobrino, "The Significance of Puebla for the Catholic Church in Latin America." 289-309.  Dussel, "La Coyuntura de Puebla" Historia de la Iglesia, 416-28. De Medellín a Puebla, una década de sangre y esperanza 1968-79 (México: Edicol, 1979)."
 
[11] Siller, Anotaciones y Comentarios, 161.
 
[12] Cf. Rojas,  Versión Literal del Nican Mopohua, (México 1978), 42. n. 27.
 
[13] Ibid. 43. n. 117.
 
[14] “El ayate era el símbolo de la persona."  Rojas, Versión Literal, 45. n.181.
 
[15] Siller, Anotaciones y Comentarios, 177.
 
[16] Ibid. 180.
 
[17] Cfr. Motolinía, Toribio, History of the Indians of New Spain, Richmond, Virg. 1951, 91. Academy of American Franciscan History. "Para poder cumprir suas obrigações (pagar os tributos),  muitas pessoas morreram como consequência, uns por tortura, outros na prisão cruel, dado que eram tratados desumanamente e tidos como mais abaixo das bestas."
 
[18] Pedro Trigo, "Maria evangelizadora, Maria Indígena" Christus 638 (México, 1990), 25. Sept. Cfr. Pineda Ana María, Is the Medium the Message?, An examination of Orality and Literacy in Evangelization, (Chicago 1978) 2-4. CTU
 
[19] Siller, Anotaciones y comentarios, 163.
 
[20] Cfr. Hoornaert, Guadalupe, 26-27.
 
[21] Cf.“A massa Índia começava a adotar o cristianismo radicalmente, substancialmente, autenticamente." Enrique Dussel, Historia de la Iglesia en América Latina, coloniaje y liberación 1492-1620, (México, 1977),132.
 
[22] Pelo ano de 1531, a cidade do México tinha sido distribuída entre os estrangeiros; os nativos eram usados para a reconstrução da cidade e moravam nas periferias, entretanto os membros de la Real Audiência disputavam os melhores lugares. Cfr. Miguel Civeira Taboada. La ciudad de México en 1531. (México, 1988) 7-14.