CF 2016 ECUMÊNICA: CASA COMUM, NOSSA RESPONSABILIDADE

  • Rafael Lopez Villasenor
  • Teologia
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“Quero ver o direto brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não se seca” (Am 5,24)

Objetivo geral: assegurar o direito ao saneamento básico para todas as pessoas e empenharmo-nos, à luz da fé, por políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum.

1. VER

O saneamento básico passa não só por questões de ordem sanitária, mas também de justiça social e ambiental. É necessária e urgente que as ações para a preservação busquem construir a justiça, principalmente para os pequenos e pobres. Estudos estimam que morre uma criança a cada 3 minutos por não ter acesso a água potável, por falta de redes de esgoto e por falta de higiene. Se 100% da população tivesse acesso, à coleta de esgotos sanitários haveria uma redução em termos absolutos de 74,6 mil internações por ano.

Os últimos dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento Básico – base 2013) mostram que pouco mais de 82% da população brasileira têm acesso à água tratada. Mais de 100 milhões de pessoas no país ainda não possuem coleta de esgotos e apenas 39% destes esgotos são tratados, sendo despejados diariamente o equivalente a mais de 5 mil piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento na natureza. O que significa que apenas 33,5% dos domicílios são atendidos por rede geral de esgoto. O atendimento chega ao nível mais baixo na região Norte, onde só 2,4% dos domicílios são atendidos, seguidos da região nordeste (14,7%), Centro-Oeste (28,1%) e Sul (22,5%). A região sudeste tem o melhor atendimento de esgoto: 53,0% dos domicílios têm rede.

Dados mundiais sobre o saneamento: No mundo, um bilhão de pessoas fazem suas necessidades a céu aberto. Mais de 4.000 crianças morrem por ano por falta de acesso a água potável e ao saneamento básico. Na América Latina, as pessoas têm mais acessos aos celulares que aos banheiros. Significa que 120 milhões de latino-americanos não têm acesso aos banheiros.

O Brasil está entre os 20 países do mundo nos quais as pessoas têm menos acesso aos banheiros. Cada brasileiro gera em média 1 quilo de resíduos sólidos diariamente. Só a cidade de São Paulo gera entre 12 a 14 mil toneladas diárias de resíduos sólidos. As 13 maiores cidades do país são responsáveis por 31,9% de todos os resíduos sólidos no ambiente urbano brasileiro.

Os dados do IBGE, divulgada em 2010 mostram que o lixo: 50,8% vão para os lixões. 21,5% vão para aterros do lixo bruto coletado. 27,7% vão para aterros sanitários em conformidade com a legislação ambiental.

Apenas 42% das moradias rurais dispõem de água canalizada para uso doméstico. Os outros 58% usam água de outras fontes, sem nenhum tipo de tratamento. Somente 5,2% dos domicílios rurais possui coleta de esgoto ligado à rede geral e 28% possuem fossa séptica. Em 49% das residências que possuem banheiro, o escoamento de fezes e urina corre por meio de fossas rudimentares não ligadas à rede. Há 52,9% de residências que buscam soluções rudimentares como valas ou despejo do esgoto diretamente nos cursos de água. Há ainda 13,6% que não usam nenhuma solução. No Brasil 25% da população rural (7,6 milhões) vive em extrema pobreza. 16,2 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza extrema, ou seja, 8,6% da população vive com uma renda nominal mensal domiciliar per capita de até R$ 70,00. Desse total, 4,8 milhões não possuem nenhum rendimento,

A água é o recurso mais abundante no planeta Terra, porém, apenas 0,007% estão disponíveis para o consumo humano. O restante é constituído por águas salgadas, geleiras e águas subterrâneas de difícil captação.

O Brasil é privilegiado em recursos hídricos, com 12% da água doce do mundo. Entretanto, a escassez de água potável, que é hoje um problema crônico em diversas regiões do mundo está gerando alertas também no nosso país. Cerca de 70% da água doce do Brasil estão concentradas na região Norte, a menos populosa, enquanto que as regiões Nordeste e Sudeste, com alta população, dispõem de pouca água. O risco de desabastecimento em larga escala é uma ameaça nas áreas áridas e nas grandes cidades. Num futuro próximo, a busca pela água será capaz de provocar disputas internacionais. Apesar da constatação da falta da água, o Brasil é considerado o campeão de desperdício de água no mundo – a média de desperdício da água potável nos sistemas de distribuição chega a 37% do total de água.

2. JULGAR

Os profetas anunciam a caridade e a justiça, fundamentos do Reino de Deus. O bem comum, desejado por Deus é o grande objetivo das Sagradas Escrituras. A adesão ao do Reino de Deus, ao compromisso com a construção do bem comum é que depende a salvação.

O bem comum, não se restringi apenas à relação dos seres humanos entre si, mas também destes com a natureza, que deve ser cuidada com gratidão e respeito. O uso da natureza e dos bens materiais deve acontecer de forma justa e voltada para a construção de uma coletividade com mais igualdade, ao invés de serem utilizados para suprir a ganância de alguns.

O profeta Amós fundamenta sua pregação numa denúncia social aguda, chamando a atenção para um progresso econômico que não se traduzia em igualdade e justiça para todos. A denúncia aponta para uma situação de caos social, onde as relações afetivas estavam se rompendo (Am 2,6-8). Revela que a fé em Deus estava sendo manipulada pela religião oficial (Am 4,4-5). Deus quer justiça e dignidade para todos (Am 9,7-8). O profeta denuncia o culto vazio, repleto de louvores e oferendas, mas sem a pratica da justiça. Não são grandes oferendas que agradam a Deus, mas sim a prática do direito e da justiça (Am 5,21-25). Tema tratado também nos profetas Isaías, Oséias e Miquéias (cf. Is 32,18; Os 6,6; Mi 6,8).

O que Deus quer é que sejamos como jardineiros, que cuidam da natureza com carinho.  O cuidado uns dos outros, como quem cuida de plantas que amam. (cf. Gn 2,15). No Édem nascia um rio que se dividia em quatro braços, lembrando os quatro pontos cardeais, representando a terra inteira. Ressaltando a importância do cuidado humano pela integridade da criação. A água limpa e potável, aparece como símbolo da vida quando Moisés a fez brotar no deserto (Êx 17,6). A água símbolo da vida que Jesus anuncia à samaritana (Jo 4,14). Na Nova Jerusalém a água surge como fonte da vida (Ap 22,1-2).

O caminho do povo pelo deserto manifesta que é preciso organizar o povo (Ex 18, 13-27). Devem manter a limpeza no acampamento (Dt 23,13-14). Cuidar e tratar da água a ser consumida (Lv 11,36; Ex 15,23-25; 2 Re 2,19-22). Cuidar das árvores e bosques (Lv 19,25; Dt 20,19; Jz 4,4-5). Ter o cuidado para com os mais pobres (Dt 23, 25; 24, 14-15.19-22, Tg 5,1-6). Sem a exploração do trabalhador (Lv 25, 2-7).

 O lema da CF Ecumênica (Am 5,24) lembra que o bem estar de todos os habitantes deve ser o objetivo de todo serviço público. Ninguém pode buscar apenas o lucro fácil e rápido em detrimento dos direitos dos demais.

Jesus denuncia a ganância e os ritos vazios, que privilegiam os puros (o poder econômico e a nobreza do templo) e marginaliza os impuros (os pobres e os enfermos, vistos como desamparados por Deus, logo marginalizados). Jesus denuncia essa realidade e os chama de felizes (Mt 5,6-7).

Vivemos na sociedade urbana organizada em torno dos princípios da economia de mercado. Tudo se torna mercadoria, inclusive os bens primordiais como a água e a terra. Nesta sociedade, os benefícios públicos se destinam às regiões mais opulentas. Bairros populares são deixados em segundo lugar, sem esgoto, coleta de lixo, transporte público, boas escolas, etc.

A fidelidade a Deus precisa se manifestar na preservação de tudo para que a grande família humana possa viver com dignidade e justiça em um ambiente bem cuidado. Somos chamados a trabalhar na vinha do Senhor para o bem comum (Mt 21,28-31).

3. AGIR

As Campanhas da Fraternidade Ecumênicas fortalecem os espaços de convivência entre as diferentes Igrejas. Jesus se colocou aberto à escuta, às partilhas (cf Jo 4; Mc 8,1-9). Esta CF Ecumênica deve motivar ao encontro entre católicas, evangélicas, espíritas, outras religiões e não crentes, para encontremos ações conjuntas que favoreçam o cuidado da nossa Casa Comum.

O tema da CF orienta a atuarmos coletivamente em favor da elaboração, implementação e acompanhamento dos Planos Municipais de Saneamento Básico. O poder público tem a tarefa de realizar as obras de infraestrutura, implementar o Plano Municipal de Saneamento Básico, garantir a limpeza do espaço público e fazer a coleta seletiva do lixo. Os cidadãos tèm a tarefa de não jogar lixo nas ruas e zelar pelos espaços coletivos.

Algumas atitudes que podemos assumir: em casa – A água é usada com economia? – Sabe se o esgoto coletado é tratado? – Se incomoda e denuncia quando vê vazamentos de água em sua rua? – Quando sai de um cômodo iluminado, tem o costume de apagar a lâmpada? – Qual o destino que dá ao óleo de cozinha que não pode ser reutilizado? No bairro – Há rede de água encanada? – Há coleta regular do lixo? – Há o costume de cobrar das autoridades providência próprias do poder público? Na cidade – A água é de qualidade? – Há estações de tratamento do esgoto? Existem cooperativas populares de reciclagem dos resíduos sólidos? Quando há aprovação de projeto de construção de um imóvel, o esgoto é levado em consideração?

Que Deus nos ajude a viver com alegria e responsabilidade a missão de cuidar da casa comum! Que tal durante a Quaresma realizemos o esforço de evitar o consumismo e o desperdício dos alimentos. Que tal fazermos um dia de jejum, doando aos mais pobres o que não consumimos.

Rafael Lopez Villasenor.