Religiosidade subjetiva na atualidade

  • Rafael Lopez Villasenor
  • Teologia
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O campo religioso é atingido pelas grandes transformações sociais, como parte da modernidade líquida, criando-se uma religiosidade subjetiva, individualista e difusa, muitas vezes, desligada das instituições religiosas.

É um fenômeno próprio da nossa época, aonde os valores perenes e sólidos são cada vez mais relativizados, transitórios, subjetivos, emotivos... as pessoas escolhem a religião, sem depender da "tradição" ou instituição. O sagrado se apresenta como migratório provocando um nomadismo místico. Isto é, o indivíduo, batizado no catolicismo, muitas vezes pode atravessar por um mundo plural religioso.

Há um tempo, não muito distante, os descrentes, sem amor a Deus e sem religião, eram raros. Todos eram educados para ver e ouvir as coisas do mundo religioso e a conversa cotidiana confirmava que este é um universo encantado que esconde e revela um poder espiritual. A exigência de um sentido para a vida trazia às religiões certa identidade e lhes dava vida.

Durante muitos séculos a religião esteve na vida cotidiana e no centro da existência humana. Os sinais religiosos ditavam o ritmo do tempo. As festas religiosas regulavam os ciclos da vida dos indivíduos e da coletividade O ano estava determinado pelos tempos litúrgicos, com suas festividades e comemorações sagradas, o dia obedecia ao ritmo marcado pelas sucessivas horas sagradas, o toque do "Angelus", o chamado à missa, ao rosário, ao serviço religioso. O relógio paroquial instalado no alto da torre da Igreja com seus toques era o indicar do tempo sagrado e profano. A religiosidade popular repousava no fundamento da religião cosmológica do Deus transparente no cosmos.

Na atualidade, a religião popular parece ser a manifestação de Deus nas emoções, na subjetividade individual. O mundo religioso era um mundo encantado. Apesar de o encanto ter sido quebrado, a religião não desapareceu.

Entretanto, houve um processo de mudança chamado de secularização, na qual as instituições religiosas não foram mais referência religiosa, os indivíduos apresentaram diferentes atitudes e relações com o transcendente, com a ideia de Deus. As crenças passaram há não ser mais herdadas e transmitidas de uma geração para outra.

Em muitos casos a religião como instituição deixou de dar aos indivíduos e grupos o conjunto de referências, normas, valores e símbolos que deram sentido à vida e a existência. Como consequência, vivemos uma época de subjetivismo, pluralismo e trânsito religioso, acentuado pela modernidade líquida; passou o tempo em que as instituições religiosas, podiam propor à sociedade um conjunto de exigências relativas à fé e aos comportamentos, esperando uma aceitação social imediata.

Nas sociedades contemporâneas, os indivíduos decidem livremente a respeito do tipo de religião a se adotar, ou escolhem ficar sem religião; o que as organizações religiosas oferecem tem que ser atrativo para os potenciais consumidores. Assim a religião sofre o impacto dessa nova mentalidade da sociedade líquida. Ela deixa de ser dominada pela tradição para se tornar objeto de escolhas e gosto do indivíduo.

 A sociedade líquida moderna também induze para as transformações religiosas, isto é, fazer a opção por uma igreja ou religião nunca foi tão fácil! Melhor ainda, deixar uma igreja ou religião e adaptar outra, ir e vir ou abandonar tudo, parecem ser movimentos constantes de uma "religiosidade líquida". Nunca ao longo da história houve tanta mobilidade religiosa, de maneira especial dentro do pentecostalismo!

A modernidade líquida produziu um tipo de mentalidade secular que toca na base das identidades e sistemas de sentido individuais. Tanto o movimento de adesão a uma religião quanto o de abandono são acalentados por essa mentalidade na qual o que prevalece é a relativização do papel soberano da religião na vida de cada indivíduo. A pessoa sente-se à vontade para assistir a um culto evangélico, participar de uma cerimônia budista ou de um ritual afro-brasileiro sem constrangimento e, posteriormente, participar de uma missa.

O sentimento de "bem estar" "tocar o coração", produzir um apelo de tipo emocional, parecem determinar a escolha do grupo religioso, e ainda a aproximação com Deus, são as principais motivações para mudar de religião. A opção religiosa está relacionada com experiência sentimental, individual e subjetiva, desligada da comunidade e da realidade. O importante é se sentir bem no grupo religioso. Os diferentes dados mostram que há situações em que não existe identificação com a religião que se professava e acaba mudando ou abandonando tudo.

Cada vez mais as pessoas procuram a religião para atender a necessidades de consumo pessoal. Muda-se de religião de acordo com o estado de animo. As motivações para a desfiliação e trânsito religioso são de ordem pessoal. A tradição e doutrina perdem o peso na escolha. Sentem-se livres para abraçar a religião com a qual mais se identificam sem o temor de romper com a tradição herdada. A religião passou a ser um bem privado! Mudar de religião ou igreja parece que faz bem!

Motivações pragmáticas existenciais estão na base da escolha da religião, como a necessidade de resolver problemas pessoais, tais como desemprego, doença, desavenças familiares entre outros, estão presentes na opção da igreja ou religião. A diversidade e pluralismo religioso permite a pessoa autônoma e moderna ter acesso a uma experiência religiosa individual, privada, subjetiva e líquida, inclusiva à mobilidade religiosa. O que hoje é de um jeito amanhã pode ser diferente.

A religião no paradigma da modernidade é uma questão complexa, ambivalente, subjetiva, individualista. Nenhuma certeza pode ser imposta a ninguém. Cada um faz sua crença e sua religião de acordo com suas necessidades imediatas. O valor último ou padrão aferidor é a própria pessoa.

Rafael Lopez Villasenor.