O Evangelho de São João e a Comunidade do Discípulo Amado

  • João Ferreira Santiago
  • Teologia
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No ponto central do Novo Testamento encontra-se um carismática judeu executado pelos romanos por volta do ano 30 d. C. Sua figura aparece aqui ao lado de Deus.

A reinterpretação pretende levar a entender como no interior de uma religião monoteísta um homem (mulher) pôde figurar ao lado de Deus, e como com isto ela se abriu para os não-judeus, tornando-se para muitos judeus inaceitável. (THEÍSSEN, 2006, p. 9). O título “Novo Testamento” origina-se da promessa de uma “Nova Aliança” em Jr 31, 31-34, onde se diz que um dia Deus não iria mais escrever seus mandamentos em tábuas de pedra, mas nos corações dos israelitas, de modo que não haveria mais necessidade de transmiti-los através de nenhum mestre humano (THEÍSSEN, 2006, p. 10).

A tradição dos ditos e dos feitos nos evangelhos sinóticos e o anúncio cristão do agir de Deus nas cartas paulinas só chegam a figurar lado a lado nos escritos joaneus. Aqui o próprio Jesus terreno passa a ser o anunciador de Cristo. Ele prega a respeito de si mesmo, assim como Paulo pregou a respeito dele. No ponto culminante dos discursos de despedida Ele resume sua missão: “Saí do Pai e vim ao mundo. Agora deixo o mundo e volto para junto do Pai” (Jo 16, 28). (THEÍSSEN, 2006, p.15).

Para o Apocalipse de João também existe um modelo veterotestamentário: o livro de Daniel, que apresenta o conflito entre o poder de Deus e os reinos do mundo. Também o Apocalipse apoia-se em uma rica tradição apocalíptica de escritos revelados ao apresentar o poder de Deus em conflito com o poder de Roma.  Mas também este livro só pode impor-se a reboque de outro gênero: a moldura do livro do Apocalipse é uma carta. Ele começa como uma epístola: “João às sete igrejas que há na Ásia: convosco estejam a graça  e a paz...” (1,4), e encerra-se com uma bênção, como as epístolas (22,21; cf. Hb 13,25). (THEÍSSEN, 2006, p.16).

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O Batista foi encarcerado. O tempo seguiu adiante.

Jesus, provavelmente, interpretou isto como uma graça. Pois o simples fato de o sol nascer é para Ele um sinal de bondade de Deus (Mt 5,45). Deus concede ao homem tempo para a conversão (Lc 13, 6-9). THEÍSSEN, 2006, p. 17). Quase sempre o reinado de Deus significava libertação do domínio estrangeiro, mas em Jesus são justamente os estrangeiros que nele irão entrar (Lc 13,29). Não se trata, portanto, de um triunfo sobre os inimigos de Israel, mas sim de uma esperança para os estrangeiros e para os de fora. (THEÍSSEN, 2006, p. 18).

(...) Sob o ponto de vista da história das formas, evangelhos e cartas serem de modelo para o cânon néo-testamentário, que consiste basicamente destas duas formas. As cartas obtêm sua autoridade dos Apóstolos. Já nos evangelhos a única autoridade passa a ser Jesus. (...) Sob o ponto de vista da história das formas, evangelhos e cartas serem de modelo para o cânon néo-testamentário, que consiste basicamente destas duas formas.  As cartas obtêm sua autoridade dos Apóstolos. Já nos evangelhos a única autoridade passa a ser Jesus.

O Evangelho de João une estes dois desenvolvimentos: Jesus é nele o único “apóstolo” (=o enviado de Deus), e o discípulo amado é seu intérprete, acima mesmo do primeiro apóstolo, Pedro. No evangelho de João as duas imagens se fundem. Jesus é preexistente e pertence ao mundo celeste. Após a encarnação, e antes de voltar para o Pai, Ele é um Deus peregrinando na terra. São condenadas as dúvidas em sua encarnação (1Jo 4,2). É Ele quem por excelência nos traz a revelação.

A teoria joanina da revelação é aparentada com o esquema da revelação das cartas paulinas: antes de Jesus ninguém viu a Deus (Jo 1,18). Jesus nos traz informação e nos anuncia a respeito de si próprio o que a respeito dele é anunciado nas cartas paulinas: por isso no evangelho de João mais uma vez se torna agudo o problema básico da religião cristã primitiva: Teria Jesus se autodivinizado? Duas vezes esta acusação é levantada contra Ele (Jo 5,18; 10,33).  (THEÍSSEN, 2006, p. 110-111).

O autor do Evangelho de João deve ter conhecido os outros Evangelhos, mesmo que não os tenha utilizado como fonte. Seu plano é semelhante ao Evangelho de Marcos: começa com João Batista e termina com a história da paixão.  (...) Isto constitui mais um argumento a favor da Síria. É verdade que a visão tradicional situa a origem do Evangelho de João na Ásia Menor.

Localizá-lo em Éfeso poderia estar ligado à identificação do evangelista com o autor do Apocalipse, que é secundária, pois este pertence claramente à Ásia Menor, mas é proveniente também da Palestina (Theíssen, 2006, p. 111-112). Há um pouco mais de clareza quanto à época em que este Evangelho teve. Se em Jo 4,20s o templo destruído sobre o Garizim é equiparado ao templo de Jerusalém, entrementes também este último já está sendo destruído.  (...) Como tempo de origem para o Evangelho de João chega-se, dessa  forma, à época por volta de 100-120 d. C.

Certamente o Evangelho de João não surgiu de uma única fornada.

Ele possui duas conclusões: em 20,30s e em 21,24s e dois discursos de despedida: um dialogal em 13,31-14,31, e outro monologal e, 15, 1 – 17,26.

O Evangelho de João é uma reinterpretação da fé cristã, à qual no cristianismo tradicional é atribuída uma insuficiência. Isto se torna mais claro na escatologia. Pelos primeiros cristãos o Reino de Deus, a parusia, a ressurreição e o juízo eram esperados como acontecimentos futuros (THEÍSSEN, 2006, p. 113). (...) Então “voltarei novamente e vos levarei comigo...” (14,3). No final, entretanto, Ele promete: “Se alguém me ama, guarda minha palavra; meu Pai o amará, viremos a ele e nele faremos morada” (14,23). “(...) Quem escuta minha palavra e crer naquele que me enviou tem a vida eterna e não é condenado, mas passou da morte para a vida” (5, 24). “(...) Quem nele crer não é condenado, mas quem não crer já está condenado” (3,18)  (THEÍSSEN, 2006, p. 114).

Se faltam no quarto Evangelho elementos da tradição sinótica, encontram-se em compensação, dados novos: o sinal de Caná (João 2, 1-11), a conversa com Nicodemos (João 3,1-11), o diálogo com a Samaritana (João 4, 5-42), a ressurreição de Lázaro (João e suas consequências (11, 1-57), o lava-pés (João 13, 1-19) e diversas indicações na narrativa da Paixão e da Ressurreição (...) assim as derradeiras palestras após a última ceia (João 13,31-17,26) preparam o tempo da Igreja. TEB Introdução ao Evangelho de João.

Segunda Parte: Comunidade do Discípulo Amado

Comunidades do/a Discípulo/a Amado/a   Jo 13,23; 19,26; 20,2; 21,7.20; Jo 15,19.

O protagonismo das mulheres
  • Maria de Nazaré Jo 2,1-12 (cf. v. 4); Jo 19,25-27
  • Mulher samaritana Jo 4,1-42 (cf. vv. 25-30)
  • Mulher adúltera -( Jo 8,1-11)
  • Martha de Betânia Jo 11 (cf. v. 27)
  • Maria de Betânia Jo 12,1-12
  • A mulher sofre e gera o novo (Jo 16,21)
  • Maria de Magdala  Jo 20,1-2.11-18 (vv. 17-18)
  • uma mulher unge a cabeça de Jesus Jo 12,1-8:
  • casa de Martha, Maria e Lázaro
  • Maria (irmã de Martha/Lázaro) unge os pés de Jesus
  • Maria Madalena vai sozinha ao túmulo, encontra seu mestre, é enviada como apóstola (Jo 20,1.11-18).
Três discípulos devem ter aderido a esse modelo de comunidades
  • Filipe e André (nomes gregos) Jo 1,35-48; Jo 6,1-15 (cf. vv. 5-9) Jo 12,21-22; Jo 14,8-10.
  • Tomé (grego: Thomás - gêmeo) Jo 11,15-16; Jo 14,5-6; Jo 20,24-29.
Quem está na origem dessas comunidades? Cinco grupos:
  • Galileus (Jo 1,43-45)
  • Batistas (Jo 1,19; 1,35-39)
  • Samaritanos (Jo 4,1-42; cf. Jo 8,48)
  • Eclo 50,25-26; Lc 10,29-37)
  • Gregos (Jo 7,35; 12,20-32)
  • Judeus expulsos das sinagogas (Jo 9,22.34s; 16,20
Projeto das comunidades joaninas
  • Espírito Santo, a única autoridade (Jo 20,22)
  • Em profunda união com Jesus e o Pai (Jo 15,1-17) 
  • Autoridade serviço (Jo 13,1-17)
  • Um único princípio: o amor (Jo 13,34-35)
  • Recriar a vida (Jo 1,1-4.14; 10,10; 19,41; 20,15.22.31)
  • Libertar a vida de tudo que a oprime (Jo 1,14; 8,31-32) -
  • Radical igualdade (social, de gênero, étnica...).
Conflitos dentro das comunidades
  • fé ainda insuficiente (Jo 2,23-25; 6,60-66; 7,5.13; 12,42-43;  Nicodemos - Jo 3,1-21; 19,39; José de Arimatéia - Jo 19,38-42.
  • A insistência de Jesus na unidade é sinal de que havia divisões na comunidade (Jo 17,11.20-23).
Conflitos com outras comunidades
  • o movimento batista  - At 18,25; 19,1-7 - Jo 1,7-8; 1,15.30; 1,19-23; 3,29-30; 10,41-42; 3,22-26.
  • As igrejas de Jerusalém (representadas por Pedro X Discípulo Amado) - 1,35-42 O Cordeiro de Deus (cf. 1,42; Cefas 21,19 Segue-me) - 13,1-17 – O Lava Pés; 13,23-26 A revelação da traição de Judas; 18,10-11 A espada de Pedro; 18,15-16; 18,17-27; 19,25-27; 19,35; 21,24;  20,1-10 O sepulcro Vazio;  21,1-7;  21,15-19; 21,20-23.
Conflitos com o Judaísmo e com o império
  • Em torno de 70 vezes, refere-se aos judeus- Jo 1,19; 2,18; 5,10.15-18; 8,48; 10,31...
  • tempo de Jesus: os saduceus  - tempo do evangelho: fariseus (expulsão das sinagogas: 9,22.34s; 12,42; 16,2). Mais de 70 vezes, usa a palavra mundo. Ela tem diversos sentidos: - mundo físico (Jo 17,5.24) - toda a humanidade (Jo 3,16-17; 8,12) - um grupo humano numeroso (Jo 12,19) - maioria das vezes, é uma referência à estrutura social e religiosa excludente do Judaísmo e dos romanos (Jo 8,23; 11,48; 14,27; 15,18-16,4a; 17,6.14.16; 18,36).
Conflitos com o Judaísmo e com o império:

Em João, por trás de satanás estão os romanos, senhores do mundo. O projeto do príncipe deste mundo (12,31; 14,30; 16,11), entra em Judas (13,27; 14,30 // 18,3).  Como em Ap 13, o poder opressor romano é a encarnação de satanás. Ao contrário, Jesus é a encarnação do Deus de amor que cria e liberta.

João Ferreira Santiago


BiBLIOGRAFIA
  • COMBLIN, José. Atos dos Apóstolos. V. I. Petrópolis: Vozes.
  • HOORNAERT, Eduardo. O Movimento de Jesus. São Paulo: FTD.
  • STRÖHER, Marga. A Igreja na Casa dela. Ensaios e Monografias, n. 12. São Leopoldo: IEPG. THEÍSSEN, Gerd. O Novo Testamento. Petrópolis-RJ: Vozes, 2006.
  • VVAA. Cristianismos Originários. RIBLA, n. 22. Petrópolis: Vozes.
  • VVAA. Cristianismos Originários Extrapalestinos. - RIBLA, n. 29. Petrópolis: Vozes.
  • THEÍSSEN, Gerd. O Novo Testamento. Petrópolis-RJ:  Vozes, 2006