A Teologia da Libertação, planetária e ecumênica

  • Arnaldo de Vidi
  • Teologia
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A palavra libertação era pouco usada; ela se tornou uma palavra chave nos últimos cinquenta anos para indicar a ação que dá liberdade integral ao homem todo e a todos os homens. É libertação das opressões históricas de ordem econômica, social, política, cultural e religiosa; é libertação da fome, da miséria, da ignorância, da descrença...

Neste sentido libertação é quase sinônimo de salvação, é até um termo mais completo, abrangente, como dizer “vida em plenitude e salvação”. De fato é Deus que quer as pessoas livres, vivendo com a dignidade de filhos seus. Jesus, o Libertador, disse que ele veio estabelecer o Reino de Deus para que todos tenham vida e vida em abundância (Jo 10,10).

O Documento de Puebla (III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano - 1979), diz que a libertação integral em Cristo faz parte do conteúdo essencial da evangelização; ela libera radicalmente dos ídolos da riqueza, do poder, do pecado, do hedonismo... (ns. 480-506).

Teologia é o estudo das questões referentes ao conhecimento da divindade, de seus atributos e relações com o mundo e com os homens, e à verdade religiosa (Dicionário Aurélio). De acordo com a definição a teologia é uma reflexão acerca da fé. Quem paga promessa, quem pede a Deus força pra conquistar seus direitos, quem aceita de Deus a doença ou se revolta, quem louva a Deus diante da natureza, quem participa da comunidade...: todos esses, fazem teologia.

Há muitas teologias na Bíblia, como a teologia do êxodo e a teologia da criação, entre outras. Há a teologia natural que estuda Deus com a só razão (sem recorrer à revelação); há a teologia patrística, escrita pelos “Padres” dos primeiros oito séculos da Igreja; há teologias da esperança, da paz... chamadas do “genitivo a mais”, porque  são capítulos dentro de um sistema teológico completo.

A Teologia é uma disciplina da filosofia que estuda Deus (Wikipédia). Esta definição é mais técnica e restrita. Ela define a teologia como uma ciência que tem a ver com a filosofia. Mestre desta teologia restrita foi (São) Tomás de Aquino. Ele raciocinou assim: “Deus é o autor seja da revelação (da Bíblia) que da razão humana (da lógica da filosofia), então podemos estudar a realidade de Deus e do cosmos com a razão e chegar às mesmas verdades que encontramos na Bíblia, pois Deus não pode contradizer-se”. Tomás foi procurar a filosofia de maior rigor e a individuou na filosofia do ser do grego Aristóteles; a partir daí, desenvolveu uma amplíssima síntese que explica racionalmente (quase) toda a realidade em consonância com as verdades reveladas na Bíblia. A teologia de Tomás (e de outros teólogos dos séculos XIII e XIV) foi assumida oficialmente pela Igreja. É a “Teologia Clássica” de modo que, quando hoje falamos de teologia, logo pensamos nesta teologia, que é um “casamento entre revelação e filosofia”.

cartaz

A Teologia da Libertação é uma tentativa de sistematizar os valores bíblicos da libertação. É teologia num sentido amplo, mas também em sentido técnico-restrito. Enquanto, porém, a Teologia Clássica procura entender a revelação graças ao instrumento da filosofia, para ter um pensamento justo ou “ortodoxo”, a Teologia da Libertação procura entender a revelação através do sofrimento do povo graças ao instrumento do conjunto das ciências sociais, para ter um agir certo, de acordo com o evangelho.

Aconteceu assim, nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) o povo se perguntava:

Onde está Deus? De que lado? O que ele pede de nós?

À luz da Palavra de Deus os pobres do continente latino-americano entendem que Deus quer igualdade social, respeito dos direitos humanos, inclusão e não exclusão, justiça e não corrupção, paz e não armamentismo, adoração de Deus e não adoração do dinheiro... A teologia começa com eles. Em seguida, uns pensadores contribuíram pra sua elaboração científica, com a ajuda das ciências sociais. São considerados fundadores: Rubem Alves, José Comblin, Gustavo Gutiérrez... Entre os que mais contribuíram está Leonardo Boff.

Há quem diga que a Teologia da Libertação morreu. Nos últimos documentos das Conferências Episcopais os bispos sempre evitaram a expressão Teologia da Libertação.  Talvez por cautela, pois esta teologia pede para a Igreja mudar de lugar social. Baseada no conceito dos direitos de igualdade social para os excluídos, ela rompe com os conceitos tradicionais. Ela inverte o movimento da Igreja: não do centro para a periferia, mas da periferia para o centro; não o reto pensar (orto-doxia), mas o reto agir (ortopráxis); não as elites, mas as bases populares...

João Paulo II numa carta à CNBB em 1986, dizia: “A Teologia da Libertação não só é oportuna, mas útil e necessária”; pedia porém o “verdadeiro desenvolvimento desta teologia, ao excluir-se seus príncipios incorretos. ... Ela deve constituir uma nova etapa - em estreita conexão com as anteriores - daquela reflexão teológica iniciada com a tradição apostólica e continuada com os grandes padres e doutores, com o magistério ordinário e extraordinário e com o rico patrimônio da Doutrina Social da Igreja. Desta forma o papa aprovava a TdL, mas negava-lhe o direito à originalidade.

O papa Francisco em seu discurso aos dirigentes do CELAM, na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, alertou para o risco da ideologização, caso a teologia tome como base as ciências sociais, “método que pode levar ao reducionismo socializante”.

Em junho 2013, dom Gerhard Ludwig Müller, presidente da Congregação da Doutrina da Fé, publicou um livro conjuntamente com Gustavo Gutiérrez, do título Da parte dos pobres: Teologia da Libertação, Teologia da Igreja. Nele dom Müller diz: “O movimento eclesial teológico da América Latina, conhecido como Teologia da Libertação, deve ser considerado, em minha opinião, entre as correntes mais significativas da teologia católica do século XX. (...) Só por meio da Teologia da Libertação, a Teologia católica pôde se emancipar do dilema dualista do aquém e do além, da felicidade terrena e da salvação ultra terrena". Assim entendemos que a ideologização não estava por conta dos teólogos latino-americanos, mas dos seus detratores, asseclas do capitalismo neo-liberal.

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Teologia da Libertação, teologia planetária e ecumênica

Roma inocentou e revalidou a Teologia da Libertação... tarde demais para voltar àquela empolgação dos anos 70 e 80.  Mesmo assim, ela continua onde há uma “reflexão crítica da práxis histórica à luz da Palavra” (G. Gutiérrez).

Continua onde acontece um processo por meio do qual o mundo é transformado; onde há um processo de formação e organização coletivas da vida humana; onde a Igreja é comunitária e participativa, dialogante e inculturada, empenhada a unir fé e política...

Tendo ainda muito povo e muitos povos que sofrem opressão e miséria, a Teologia da Libertação não somente não é superada, mas, pelo contrário, se torna mundial e ecumênica. Ela interessa a Ásia, a África, a própria Europa e até os Estados Unidos, aviltados pelo neo-liberalismo. Já no seu nascer, após o Vaticano II, ela encontrou eco no mundo inteiro.

E ela continua viva na igreja comprometida com a sociedade e com os processos históricos de libertação.

Pe Arnaldo de Vidi sx.