A Igreja continuadora do Reino e da Missão de Jesus Cristo

  • Ilson Luiz Hubner
  • Teologia
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Os discípulos assumiram o encargo de continuar a pregação de Jesus depois da sua morte. Eles souberam conservar as características pré-pascais do anúncio do Reino.

Mas surge uma perspectiva nova e surpreendente: ao tema do senhorio de Deus é acrescentado o anúncio querigmático sobre Jesus, o Messias e Senhor.

Há uma sensível mudança de perspectiva que impacta fortemente a teologia neotestamentária. Para a comunidade pós-pascal o senhorio de Deus se torna uma realidade novamente operante justamente no senhorio do Jesus exaltado. “O senhorio de Deus permanece uma realidade futura quanto ao seu pleno cumprimento, mas já começa a realizar-se agora no Senhorio de Cristo.” Ao identificar mensagem (querigma) com o mensageiro (Jesus, na condição de exaltado) a pregação da comunidade insere uma dinâmica cristocêntrica na forma de conceber Deus. Pode-se dizer que o Novo Testamento é cristocêntrico e quem faz a impostação dessa nova perspectiva é a Igreja nascente.

O anúncio do Reino de Deus se converte, na história da Igreja, no anúncio do querigma. Jesus é reconhecido como o Cristo. Jesus Cristo não é um nome próprio, mas a expressão de uma confissão de fé que remonta às primeiras comunidades que gravitavam entorno a Jerusalém. “Aquele Jesus que foi fixado na cruz é o Messias prometido, o Ungido escatológico do Senhor, que “Deus constituiu Senhor e Messias” (At 2,36; Rm 1,3-4). É um nome confessional, que conota a estrutura de fundo de toda a cristologia. É uma confissão de fé que constitui o fundamento e a origem do dado neotestamentário.”

Dessa forma, anunciar o querigma é manifestar o Reino. A Igreja herda, quase que naturalmente, aquelas características antes percebidas no anúncio do Reino. Ela assume sua dimensão escatológica e, ao mesmo tempo, se reconhece como peregrina na sua missão sobre a terra. A Igreja passou a ser entendida como aquela que torna o Reino de Deus presente no mundo. Mais ainda, como aquela que visualiza, em si mesma, o Reino de Deus.

Vigorou na história da eclesiologia uma associação com dupla funcionalidade na relação Igreja e Reino de Deus. Primeiro, a Igreja foi identificada, sem maiores problemas, com o Reino de Deus; segundo, a Igreja Católica Romana reteve em si tudo aquilo que significa a Igreja enquanto tal. Nos anos anteriores ao Concílio Vaticano II, há uma sequência de identificações: Reino de Deus = Igreja de Cristo = Igreja Católica Romana = Corpo místico de Cristo sobre a Terra. Esse esquema marcou a história da Igreja durante muitos séculos. O conceito bíblico Reino de Deus findou subordinado à Igreja enquanto tal. A missão histórica de anunciar o Evangelho se confunde com o anúncio da própria Igreja Católica Romana, entendendo por romana o estado de comunhão com a Igreja de Roma. Neste tipo de compreensão o Corpo místico de Cristo, a Igreja de Cristo e a Igreja Católica são a mesma coisa. Esse tipo de eclesiologia sustenta uma visão de Igreja demasiado atenta a si mesma, restrita à sua organização interna e estabelecida diante do mundo como sociedade perfeita.

Mas é preciso considerar que a eclesiologia atual tem mudado de perspectiva. O reflexo mais nítido dessa afirmação se encontra no evento Vaticano II. O interesse é perceber como a teologia recente, inclusive a teologia do magistério, tem entendido a relação Igreja e Reino. Importa perceber como a categoria Reino de Deus, redescoberta na busca pelo Jesus histórico, foi desenvolvida nesse novo movimento renovador da Igreja a partir do Vaticano II.

rein1A relação entre Reino e Igreja na teologia recente

 Há unanimidade na teologia recente em compreender o papel e a missão da Igreja voltados para o mundo. Esse dado, sem dúvida, responde aos anseios teológicos antigos impulsionados pelas conclusões do Vaticano II. Representa também o desejo da teologia em superar, de uma vez por todas, quaisquer resquícios de modelos eclesiológicos aos moldes de uma societas perfecta. É nesse tom desejoso de vincular a Igreja com o mundo que a relação Reino e Igreja aparecer na teologia pós-conciliar.

O empenho da Igreja em relação ao Reino de Deus ajuda a tornar visível o seu papel e a sua função no mundo. A igreja não existe por seu próprio querer, mesmo que frequentemente (ao lado de muitas outras religiões) tenha se esquecido disso.” O sentido da Igreja é estar no mundo, presente e atuante na história, lugar da salvação, da revelação e do sofrimento. Nessa perspectiva o Reino de Deus propõe um conteúdo de resposta, oferecido através da Igreja para o mundo.

A comunidade cristã surge como Igreja que, por sua vez, é comunidade escatológica animada pela constante expectativa da esperança. A dimensão escatológica, conatural à gênese do cristianismo, deve ainda situar o papel da Igreja. Mas a Igreja não é escatológica por si mesma, por isso ela deve estar referida, intensa e constantemente, ao Reino de Deus. E se Jesus se ocupou do Reino como elemento central do seu ministério, o mesmo deve fazer a Igreja. “O Reino deve constituir o interesse central da Igreja se essa deseja permanecer fiel à mensagem de Jesus.”

A mensagem de Jesus, expressa pelo Reino, não é limitada a uma comunidade de crentes, mas está aberta futuristicamente para toda a humanidade. Essa universalidade do Reino mantem um vínculo de continuidade entre aquilo que era a expectativa de Israel, enquanto povo escolhido por Deus, e a ação do próprio Jesus que traz o senhorio de Deus de forma proeminente na história.

Israel é o povo separado para Deus e, também por isso, portador de uma função para a humanidade que transcende sua particularidade. A Igreja não é absolutamente nada fora de sua função como congregação escatológica e, portanto, como sinal de antecipação do senhorio vindouro de Deus e de sua salvação para a humanidade. Por isso faz parte de sua peculiaridade que a missão cristã tenha transposto os limites do povo judaico e da particularidade de suas instituições para se tornar igreja formada de judeus e gentios que está unida pela fé na aparição de Jesus como expressão de uma nova humanidade a ser consumada no futuro de Deus.

 A expectativa escatológica que orienta a reflexão sobre o Reino coincide com a própria realidade do mundo e da Igreja: em ambos se verifica o caráter de incompletude. Mas o Reino não pode ser identificado nem com o mundo e nem com a Igreja. Segundo essa linha de pensamento, o Reino é a categoria que dá futuro ao mundo e cabe à Igreja, mantendo-se fiel ao pensamento de Jesus Cristo, comunicar essa mensagem.

Cabe então à Igreja já antecipar na história do mundo, sem perder a dimensão utópica da esperança, o destino da humanidade e a meta da própria história. Essa é a vocação da Igreja que só pode ser realizada a contento enquanto se mantiver orientada para o mundo comunicando a mensagem do Reino.

É a fidelidade a Cristo que obriga a Igreja a se enxergar além de si mesma, evitando o risco de se isolar no mundo como grupo de indivíduos reunidos por interesses comuns de natureza religiosa. A Igreja deve se compreender anunciadora do Reino de Deus que orienta a história humana.

A distinção entre Igreja e Reino

 A Igreja está necessariamente vinculada com o mundo e o Reino de Deus dá o conteúdo desse vínculo. “O Reino de Deus não é a Igreja.” Na verdade é perfeitamente possível compreender o sentido do Reino de Deus sem Igreja.

Dessa forma, a Igreja não deve ser equiparada ao Reino de Deus e vice versa. A Igreja é importante para o Reino e pelo mandado de Jesus Cristo ela está endereçada para o Reino. “E na medida em que a Igreja segue sua orientação e segue a sua direção, o Reino de Deus se manifesta através da Igreja.” Isso se torna mais efetivo na constatação de que a doutrina sobre a Igreja não nasce da própria Igreja, mas do Reino de Deus. Derivada do Reino, a Igreja cumpre sua missão no mundo quando, descentrada de si, orienta seu anúncio não somente para o seu redil, mas para o mundo, para a humanidade.

Jesus de Nazare

O vínculo entre Igreja e Reino de Deus

Uma vez assumido, conforme boa parte da teologia recente, a diferença entre Reino e Igreja, é preciso determinar qual é a intensidade e a natureza da relação entre ambos. A resposta é de natureza cristológica. É fato constatável que uma parte significativa da pesquisa histórica e exegética resiste em identificar e relacionar a origem da Igreja com o próprio Jesus. A tendência é atribuir um caráter derivativo como resultado de um processo posterior à atuação histórica de Jesus, vinculando o surgimento da Igreja ao processo de evangelização mais tardio, depois da era apostólica.

Parece correto afirmar que historicamente Jesus não tenha tido a intenção deliberada de fundar uma nova comunidade religiosa e, pois, as primeiras comunidades cristãs mantiveram a convicção de viver intensamente de acordo com a tradição judaica na sua totalidade. Quanto a Jesus, parece bastante claro que seu objetivo era animar o povo para a vinda próxima do Reino de Deus. Disso se deduz com grande probabilidade histórica que um grupo religioso especial, com uma missão igualmente especial, cujo objetivo fosse o de se afastar da tradição judaica nunca esteve no horizonte de Jesus ou dos seus primeiros seguidores.

A mensagem de Jesus destinou-se intencional e voluntariamente a todo o povo de Israel. Mas pertence à história o fato de que apenas uma pequena parte da população acolheu a sua mensagem, suscitando a lembrança daquilo que, em outras circunstâncias, os profetas se referiram como o “resto de Israel”. É justamente nesse fato que boa parte da teologia recente identifica o caráter universal da ação de Jesus e dos primeiros cristãos. E tal afirmação precisa ser entendida corretamente: é certo que Jesus e as primeiras comunidades se sentiram enviados à Israel enquanto povo da aliança. “E Jesus se dirige a Israel como um todo, sem excluir grupo algum.” Mas não há impedimento ou qualquer restrição para que essa mensagem trazida por Jesus, a saber, o Reino de Deus, não possa ser universalizada a partir de Israel.

Jesus, na sua atuação histórica, não se ocupou de fundar explicitamente uma igreja.

Mas isso não impede de se perceber que há, na origem da Igreja, um “efeito histórico” que alcança o próprio Jesus. Esse “efeito” deriva da ação de Jesus que, como já foi dito, não se ocupou propriamente da Igreja, mas do Reino de Deus. Assim, por meio de Jesus se estabelece um vínculo de sintonia entre o Reino, como expressão da vida e a obra de Jesus, e a Igreja que deriva dessa ação histórica. A missão dos apóstolos e a missão da Igreja pós-apostólica estão marcadas pelo mesmo caráter escatológico que animou a vida e a missão do próprio Jesus. É desse modo que o Jesus histórico é a origem da Igreja histórica. O Jesus pré-pascal com sua pregação e sua atividade colocou as bases para a manifestação de uma igreja pós-pascal. Por um lado, tal afirmação reforça o valor histórico atribuível à Igreja, dando-lhe um alcance universal desde a sua fundação. Por outro lado, também fica evidenciado que a ação histórica de Jesus não justifica um movimento religioso que se entenda exclusivista e radicalmente separado com a tradição comum da época.

A Igreja não é o Reino de Deus, mas é sua função manter-se no nível do testemunho simbólico deste Reino. Cumpre à Igreja presente e atuante na história, fazer aquilo que Jesus fez para a humanidade do seu tempo: anunciar a todos o “advento do Reino de Deus, criando uma relação de comunicação, se interessando pelas pessoas mais pobres e marginalizadas, estabelecendo um vínculo de comunhão entre as pessoas de fé e mostrando-se solidária para com todos.” Só assim a Igreja se torna sacramento do Reino.

A Igreja referida ao Reino

 Há um fato decisivo que, embora já tenha sido desenvolvido anteriormente, merece ser retomado novamente: Jesus, o pregador do Reino se torna, depois da sua morte e ressurreição, objeto da pregação. Essa mudança é protagonizada por aqueles que, desde o princípio, acreditaram na sua ressurreição. Essa mudança constitui o centro de convergência da cristologia: a pregação apostólica contempla o messias crucificado, ressuscitado por Deus, exaltado e ungido. Ele é o Senhor, o portador da realeza.

O exemplo mais candente desse processo é a obra lucana. Embora seja necessário considerar que o Evangelho de Lucas e o Atos dos Apóstolos sejam fruto da experiência pascal, é certo que no âmbito a narração e dentro da lógica literária pretendida pelo autor, há a caracterização evidente de duas etapas intermediadas pela páscoa.

A comunidade pós-pascal, comunidade eclesial, não esquece o Reino de Deus. Na verdade “o compreende de maneira nova: o Reino de Deus é tornado decisivamente eficaz no reino de Jesus glorificado.”

Anunciar Jesus é anunciar o Reino. Em certos momentos, o reino de Cristo significa a mesma coisa que o Reino de Deus. No contexto das primeiras comunidades parece bastante adequado enxergar todo o processo nessa ótica. A teologia paulina, que se preocupa em desenvolver uma ampla doutrina soteriológica a partir de Jesus Cristo, não trabalha a sua cristologia conectada à dimensão do Reino de Deus. Paulo parte da perspectiva pós-pascal e o Reino de Deus se converte em Reino de Cristo. É Jesus Cristo, o Senhor, o centro da pregação paulina.

A Igreja é meio em ralação ao Reino, vocacionada a ser, até o fim, fermento, levedura destinada a mover a massa. Então não se trata de realidades dissociadas. Conforme o Novo Testamento, é impossível entender a Igreja sem um vínculo com o Reino. Não há contradição, no plano cristológico, entre o Reino e a Igreja. A Igreja está naturalmente ordenada para o Reino porque, como foi dito anteriormente, Jesus Cristo assumiu como missão anunciar o Reino de Deus. É direcionado também à Igreja a orientação de Jesus recolhida por Mt 6,33: “procurai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça.” A Igreja cumpre a sua missão mantendo-se fiel à promessa de que o Senhor está com ela todos os dias, até o fim do mundo, na manifestação definitiva do seu Reino. A Igreja está submetida à soberania do seu Senhor, submetida ao Reino de Cristo, um reino ao qual, a própria Igreja está limitadamente condicionada ao seu advento. E assim se cumpre aquela profecia, que é um desenvolvimento cristológico consistente, onde é dito que Cristo, no tempo oportuno entregará tudo ao Pai. Mantendo-se fiel a essas promessas a Igreja subsiste no mundo realizando sua missão, adquirindo a fisionomia de ser sacramento do Reino.

A Igreja como sacramento na história

 A reflexão sobre a relação Jesus Cristo, Reino e Igreja também é desenvolvida na teologia recente, especialmente na América Latina, pela Teologia da Libertação. Sempre coerente com o entendimento de manter a conexão entre reflexão e ação, essa teologia desenvolve uma eclesiologia buscando dar identidade teórica ao sentido da Igreja e sua razão de existir no mundo. O princípio é que uma teologia útil para o terceiro mundo precisa partir dos fatos históricos com a intenção de levar à ações concretas que possam impactar a história.

A Igreja não deve ser entendida por ela mesma, ou desde si, porque está a serviço de realidades que a transcendem. Conforme observa Leonardo Boff, “o Reino e o mundo são as pilastras que sustentam o edifício da Igreja.” O mundo, onde atua a Igreja, é o lugar da realização histórica do Reino de Deus, ainda que o Reino não seja totalmente absorvido pela história e pelo mundo. É a partir desse princípio que a Teologia da Libertação entende a Igreja como sacramento histórico de salvação.

Na articulação Reino, mundo e Igreja o Reino é a grandeza que engloba as demais. O mundo é o espaço da historificação do Reino e a Igreja se apresenta como realização antecipatória e sacramental do Reino dentro do mundo.

Mas esse Reino, manifestado no mundo, revela a intenção primeira do próprio Jesus, trazendo ao mundo o desejo salvífico de Deus.   Quanto à natureza, a Igreja herda de Jesus sua razão de ser e, segundo o entendimento da Teologia da Libertação, a atuação histórica de Jesus é libertadora. Disso resulta o sentido da missão da Igreja, uma missão necessariamente libertadora. É nesse ponto que a Igreja se entende com o Reino, uma vez que este constitui, ao mesmo tempo, o meio e a meta da libertação.

Sacramento histórico da libertação, por natureza

A dimensão sacramental da Igreja é tema pacífico para a eclesiologia, sobretudo a partir do Vaticano II. Frequentemente a Igreja é designada como sacramento de Jesus Cristo, sacramento do Reino e, bem mais intensamente, sacramento da salvação. A Teologia da Libertação acrescenta que a Igreja é sacramento de libertação.

Naturalmente todas essas referências quanto à plural dimensão sacramental da Igreja são complementares e, no máximo, identificam as perspectivas de abordagem de cada linha de reflexão. O ponto de partida da Teologia da Libertação é cristológico: “Jesus é o primeiro e fundamental sacramento de salvação, e a Igreja, como continuadora e realizadora de Jesus, participa, ainda que de forma derivada, desse mesmo caráter.”

Até esse ponto a eclesiologia desenvolvida pela Teologia da Libertação mantém-se na mesma perspectiva de entendimento universal da eclesiologia cristã. A novidade está na insistência de que essa sacramentalidade operada pela Igreja é histórica. A Igreja é sacramento “histórico” da salvação, mas só o é medida em que torna a salvação operante no mundo na forma de libertação.

Afinal, não é possível falar de salvação a não ser a partir de situações concretas. “A salvação é sempre salvação de alguém e, nesse alguém, de algo.” Essa clareza é determinante para que o tema da salvação não seja reduzido a uma série de teorias abstratas. A dimensão histórica desse caráter sacramental é reforçada a partir da teologia joanina da encarnação.

A sacramentalidade histórica da Igreja como expressão do Reino

 A Igreja deve se compreender e ser compreendida sempre no seguimento do Jesus histórico, a serviço do Reino de Deus. A Igreja se compreende a partir de Jesus Cristo e sabe que, tal como ele, está orientada para o mundo.

 Assim, o Reino de Deus dá o tom unificador daquilo que é a missão recebida de Jesus e os destinatários dessa mesma missão. É importante para a Igreja manter vivo o sentido da sua origem e missão. A Igreja precisa sempre e constantemente estar centrada em Jesus e, por meio dele, perceber a centralidade no anúncio do Reino. “E se a Igreja não encarna sua preocupação central por Jesus ressuscitado na realização do Reino de Deus na história, está perdendo sua pedra de toque e com ela, a garantia de estar servindo efetivamente ao Senhor e não a si mesma.”

A importância da Igreja é essencial para os planos de Deus, mas ao mesmo tempo relativa. É essencial porque a missão de Jesus não encontrou termo na sua atuação histórica. A Igreja assume também essa missão. Mas é relativa, porque a Igreja só existe sob a condição de estar no mundo em função do Reino. Para Boff, “a Igreja possui essencialmente uma função de substitutivo do Reino e deve, teologicamente, se definir como o instrumento para a realização real, mas ainda imperfeito deste mesmo Reino no mundo.”

Já foi afirmado que Jesus não centra seu anúncio, sua missão em si mesmo, mas no Deus do Reino. Essa é sua missão, anunciar o Reino que é de Deus e, dessa forma, desvelar a face amorosa do próprio Deus que se dirige ao ser humano. Poucas expressões teológicas têm uma incidência histórica tão intensa como esta do Reino. No significado do Reino está compreendida de forma inseparável a atuação salvífica de Deus, que atinge positivamente o humano e evidencia o desejo de Deus em estabelecer proximidade com as pessoas.

É desse Reino que se ocupou Jesus, não só na condição de anunciador, mas de instaurador. Mas é também missão da Igreja, herdada do próprio Jesus. Assim, a Igreja assume o compromisso de historicizar o Reino de Deus segundo as exigências de cada situação e de cada época para que ela mesma se consolide como sacramento histórico de libertação. Essa libertação é a salvação de Deus oferecida na implantação do seu Reino na história.

Jesus vinculou seu ministério à dimensão do Reino de Deus. Rezou pedindo sua vinda e o anunciou já presente: “o Reino já está no meio de vós” (Lc 17,21). O projeto histórico de Jesus foi o Reino de Deus. O Reino expressa anseios concretos e palpáveis, apontando caminho para a libertação: a busca da justiça, a libertação dos oprimidos, as curas das doenças, os exorcismos, a boa nova aos pobres. “Em resumo, o Reino expressa as expectativas de todos aqueles que não ocupam posição de poder ou de privilégio na sociedade, para que irrompa uma sociedade nova.”

Na abertura para o Reino de Deus a Igreja pode reconhecer seu papel e sua missão e, então, colocar-se em atitude de diálogo com as outras religiões. De tudo aquilo que foi exposto é correto afirmar que a Igreja tem clareza a respeito da sua missão que, na essência, é a continuidade da missão de Jesus. A realidade atual do mundo torna também evidente que a missão da Igreja deve ser realizada num horizonte de diálogo com o mundo e, necessariamente, com as demais religiões. Assim, a Igreja é impelida a continuar oferecendo à humanidade aquilo que ela mesma recebeu de Jesus Cristo e continua recebendo na ação incessante do Espírito Santo.

Pe Ilson Luiz Hubner.