"Anunciar o Evangelho e Doar a Própria Vida" (1Ts 2,8)

  • Rafael Lopez Villasenor
  • Teologia
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PRIMEIRA CARTA AOS TESSALONICENSES

A Primeira Carta aos Tessalonicenses é o livro do mês da Bíblia deste ano. O livro propõe a prática da fé, do amor e da esperança.

Uma fé ativa na obra de Deus, um amor capaz de sacrifício para formar a fraternidade e uma firme esperança para assegurar a caminhada rumo à construção do Reino da Vida: "Procurem sempre o bem uns dos outros e de todos" (1Ts 5,15).

O Autor da carta é Paulo, servo e apóstolo de Jesus Cristo (Rm 1,1). Ele era hebreu, filho de hebreus, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, circuncidado ao oitavo dia e fariseu (Fl 3,5). Conhecia muito bem a Torá e defendia profundamente a Lei de Moisés. Perseguiu os cristãos para defender o judaísmo, até o encontro com Cristo no caminho de Damasco (Gl 1,11-24). Este fato mudou a vida dele para sempre, tornando-se um cristão num processo revigorado: foi batizado (At 9,18), retirou-se para a Arábia, sentiu-se chamado por Deus e enviado para anunciar Jesus Cristo entre as nações (Gl 1,16-17). Fundou várias comunidades e as acompanhou por meio de visitas e cartas.

A Primeira Carta aos Tessalonicenses é o escrito mais antigo do Novo Testamento. Como cristão, Paulo viveu um processo de cristificação (Gl 2,20) que o ajudou a enfrentar os sofrimentos cotidianos (2Cor 11,24-28), sendo fiel até a morte. A morte dele aconteceu em Roma, por volta de 67 d.C.

A Primeira Carta aos Tessalonicenses foi escrita entre os anos de 50 e 51 d.C. Na época, a comunidade ainda não estava organizada e precisava de incentivo para não desanimar diante das provações. As perseguições vinham dos concidadãos adversários (1Ts 2,14) que atrapalhavam a evangelização (2,16), dos discursos filosóficos baseados meramente na racionalidade, do ambiente hostil das teorias apocalípticas permeadas de oráculos, mitos e falsas ideias de felicidade. Nesse contexto, Paulo desejava visitar a comunidade, mas, por causa de imprevistos (2,18), enviou Timóteo no lugar, que ao regressar de Tessalônica, trouxe ótimas notícias, afirmando que os cristãos guardavam boas lembranças do apóstolo, em clima de saudade (3,6).

Ao longo da jornada missionária, Paulo acompanhou cada comunidade de forma personalizada. Mesmo distante, sempre dava um jeito de exortar, orientar e consolar os cristãos. Portanto, escreveu a Primeira Carta aos Tessalonicenses em Corinto, cidade grega portuária, situada entre o mar Egeu (ao leste) e o mar Jônico (a oeste), o que favoreceu a expansão do Cristianismo. Ele chegou a Corinto no inverno de 50 a 51 d.C. e lá encontrou importantes colaboradores, como o casal Priscila e Áquila (At 18,2). Mais tarde, o apóstolo trabalhou com eles (1Cor 16,19) e fundou uma nova comunidade cristã.

Os cristãos viviam uma realidade bastante desafiadora em Tessalônica, fundada em 315 a.C. por Cassandro, Rei da Macedônia, ao norte da Grécia, na cabeceira do golfo Termaico. Metrópole portuária bastante desenvolvida, capital da província romana na Macedônia, a partir do ano de 146 d.C. Paulo fundou a comunidade por volta de 49 e 50 d.C., durante a segunda viagem missionária. Atos 17,1-9 apresentam os detalhes da missão paulina em Tessalônica, junto com Silas, e a adesão de alguns gregos adoradores de Deus e de mulheres da alta sociedade. Portanto, os cristãos convertidos eram de origem judaica, grega, profissionais itinerantes e comerciantes vindos da Itália e da Ásia Menor, que sobreviviam num ambiente politeísta, marcado pela mitologia de outros povos, e também enfrentando oposições dos judeus.

O objetivo da Primeira Carta aos Tessalonicenses é confirmar e exortar a respeito da fé (1Ts 3,2), com a finalidade de que os cristãos conservarem a fé operosa, caridade laboriosa e ter a esperança constante no Senhor (1,3).

Estrutura da Carta:
  • 1º cabeçalho, saudação e ação de graças pela fé, esperança e caridade da comunidade de Tessalônica (1,1-10).
  • 2ª encorajamento diante das dificuldades específicas da vida cristã (2,1–4,12).
  • 3ª instruções sobre a vinda gloriosa de Jesus Cristo e o destino dos mortos (4,13–5,11).
  • 4ª exortações e bênção final (5,12-28).
Aspectos teológicos:
  1. Deus Pai Na Carta, Deus é denominado Pai (1,1.3; 3,11.13), Deus vivo e verdadeiro (1,9), fonte de ação de graças (1,2), digno de confiança (2,2) e que perscruta o coração humano (2,4). Possui um plano de salvação que consiste em tornar as pessoas imitadoras de santidade (3,13; 4,7; 5,23). É o Deus da paz (5,23) que não nos destinou ao castigo, mas sim à salvação (5,9). Deus Pai convoca a comunidade para participar do seu Reino (3,11.13) e da sua glória (2,12), santificando-a com o auxílio do Espírito Santo (4,7-8) que gera a vida e revitaliza as relações, a partir da fé em Jesus Cristo.
  2. Jesus Cristo O nome Jesus aparece acompanhado dos títulos cristológicos: Cristo Jesus (2,14; 5,18), Senhor Jesus (2,15.19; 3,11.13; 4,1), nosso Senhor Jesus Cristo (1,1.3; 5,9.23.28) e Filho (1,10). Ao levar em conta que é o escrito mais antigo do Novo Testamento, temos aqui o núcleo central do querigma, ou seja, do primeiro anúncio sobre Jesus, o Messias, realizado por Paulo e seus colaboradores. Além da centralidade no Mistério Pascal, Paulo introduz o tema da parusia de Jesus, isto é, da vinda imediata do Filho de Deus, servindo-se de imagens da apocalíptica e de uma linguagem simbólica. Porém, não é possível determinar nem dia nem hora, porque tudo acontecerá no tempo de Deus, que é desprovido do controle humano (5,2).
  3. Espírito Santo é mencionado como revelador da Palavra (1,5), fonte de alegria para os cristãos (1,6) e dom de Deus (4,8). O Espírito revela a Palavra como mensagem salvífica e libertadora, gera alegria nos seguidores de Cristo recém-convertidos, ajudando-os na prática da caridade e congregando-os em comunidade (5,12-22).
  4. Comunidade cristã é composta de irmãos amados por Deus e recebeu a Palavra entre aflições. Seguiu os exemplos de Paulo e imitou o Senhor, tornando-se modelo para os cristãos da Macedônia e da Acaia (1,4-7). Deixou os ídolos, assumiu o Deus vivo e verdadeiro (1,9), acolhendo o Evangelho não apenas como instrução humana, mas como Palavra de Deus (2,13). Esta comunidade era amada por Paulo (2,8), com amor filial, digna de consolo e encorajamento (2,11-12). Além de imitadora das igrejas da Judeia, perseguida pelos concidadãos adversários (2,14) e confortada por Timóteo, que ficou impressionado com seu testemunho de fé e caridade (3,1-6). A comunidade, chamada eleita por Deus, foi convocada a cultivar a santidade do corpo, a fraternidade, o bem comum, a viver do próprio trabalho, a corrigir os indisciplinados, a confortar os desencorajados, a cuidar dos fracos, a ter paciência com todos, a rezar constantemente, a agradecer por tudo, a conservar a alegria e o que é bom, afastando-se de toda forma de mal (4,1-12; 5,12-22).
  5. Evangelho palavra de origem grega que significa boa-nova. Aplicada à situação na qual se comunicava uma notícia, que gerava alegria nas pessoas, como a vitória numa determinada guerra ou o nascimento do herdeiro do trono. “Evangelho” pode ser traduzido como “mensageiro” ou com os verbos “evangelizar”, “proclamar”. Na carta a mensagem cristã é considerada Evangelho, porque tem como base fundamental a pessoa de Jesus Cristo, a vitória sobre a morte e a inauguração do Reinado de Deus. Os tessalonicenses receberam o Evangelho com o poder do Espírito Santo, entre muitas aflições, e o partilharam não apenas na Macedônia e na Acaia, mas em outros lugares (1,5-8).
  6. Fé, esperança e caridade: ocorre pela primeira vez a tríade paulina: fé, esperança e caridade (1,3; 5,8), que posteriormente serão consideradas “virtudes teologais”. A fé é fundamentada na experiência de que Jesus Crucificado é o Messias e o Senhor Ressuscitado. Ao crer que Jesus foi ressuscitado, nós cristãos também temos a esperança de que ressuscitaremos no tempo escatológico, no momento da parusia. Mas a esperança de permanecer em comunhão com Deus e com as pessoas no fim dos tempos é antecipada na construção do Reinado de Deus, na história, por meio da vivência do amor, da caridade.

Rafael Lopez Villasenor


BIBLIOGRAFIA
  • BARBAGLIO, G. As cartas de Paulo, I. São Paulo: Loyola, 1989.
  • BORTOLINI, J. Como ler a Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses: fé, amor, esperança. São Paulo: Paulus, 2014.
  • CEBI-MG. Comunidade de Tessalônica: fermento do Reino na grande cidade. Belo Horizonte: Cebi 2017.
  • FABRIS, R. Paulo: apóstolo dos gentios. São Paulo: Paulinas, 2010.
  • FRANÇA, A. A cruz em Paulo: um sentido para o sofrimento. São Paulo: Paulinas, 2010.
  • GRENZER, M. Trajetória do apóstolo Paulo. São Paulo: Paulinas, 2015.
  • SANCHEZ BOSCH, J. Escritos paulinos. São Paulo: AM Edições, 2002.
  • SERVIÇO DE ANIMAÇÃO BÍBLICA. Em Jesus, Deus comunica-se com o povo: comunidades cristãs na diáspora. São Paulo: Paulinas, 2009.
  • SILVA, Valmor da. Paulo, apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus! Teologia paulina. São Paulo: Paulinas, 2008.