Recordações: no meio do caminho havia os xaverianos

No final dos anos oitenta, aquele padre que andava de moto, acolhia os jovens, socorria os pobres e deserdados na cidade de Piraquara, região metropolitana de Curitiba, me chamou a atenção. Na biblioteca do seminário São Camilo em Pinhais eu havia lido muita coisa sobre a opção da Igreja pelos pobres e sobre a caminhada das Comunidades Eclesiais de Base e das pastorais sociais da Igreja no Brasil. Porém, era a primeira vez que eu via um padre colocar em prática aquele novo jeito de ser Igreja que eu lia nos livros, acolhendo os jovens e os empobrecidos daquela periferia geográfica e existencial. Aquele profundo testemunho pastoral me tirou da zona de conforto, me desafiou.
Alberto era o nome do padre. Eu me aproximei, ele me acolheu, me escutou e começou falar de Jesus Cristo, dos pobres e da sua congregação missionária, sobre a qual eu nunca tinha ouvido falar. Ele, então, me deu uns livros, me falou do Conforti, e não muito tempo depois lá estava eu na Vila Perneta morando numa comunidade xaveriana inserida no meio popular. Junto comigo os jovens Marcelino, João Corso e Eduardo. Além do Alberto, o padre Sandro - que também andava de moto - e um padre jovem muito bravo chamado Vagner que eu nunca vou esquecer.
Inicie ali na Vila Perneta a trilha que mudou a minha vida para sempre. Ao longo de seis aos passando pela Vila Maria Antonieta, Belo Horizonte e São Paulo, conheci outros padres xaverianos que me ensinaram a cultivar uma espiritualidade libertadora alicerçada nas lições do Concílio Vaticano II e dos documentos do episcopado latino americano. Aprendi que Jesus deve ser o centro de nossas vidas, de nossas escolhas, e que não há como amar Jesus e não se comprometer com os pobres e deserdados do mundo. Mais do que discurso esses padres me ensinaram uma maneira de viver, de sentir com o mundo, com a Igreja, com os pobres.
Figuras admiráveis como os xaverianos Leão, Giorgio, Emílio, Pedro, Arnaldo, Mário Menin, Alberto, Peron, Décio, Estevo, me apresentaram as pastorais sociais da Igreja e me falaram de diversas maneiras, cada um a seu modo, sobre a importância dos movimentos populares. Eu escutava, estudava e procurava caminhar com eles. Neste caminho me tornei assessor da Pastoral Operária, espaço no qual pude não somente colaborar mas também aprender com a organização dos trabalhadores/as na busca por justiça e direito.
Mesmo antes de deixar a vida religiosa motivado por questões pessoais, eu já havia formulado um propósito: dedicar minha vida ao trabalho com os pobres e pequenos e partilhar com eles o meu destino iluminado pela prática de Jesus e de seu evangelho. É o que procuro fazer sendo diretor de uma escola pública estadual localizada na periferia de Campinas, onde moro com minha esposa e filhos, além de continuar colaborando com as pastorais da Igreja e com os movimentos sociais.
Na comemoração dos setenta anos de presença xaveriana no Brasil quero agradecer imensamente a formação humana que recebi e que procuro colocar em prática na minha família e no meu trabalho. Que o testemunho de vida simples e comprometida com o evangelho continue a ser a marca e a referência dos Xaverianos no Brasil e no mundo.
Arnaldo Valentim Silva









