Vida Religiosa e Missão

  • Estevão Raschietti
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Papa Francisco proclamou para 2015 o Ano da Vida Consagrada com o objetivo de reconhecer, agradecer e valorizar a presença de tantos religiosos e religiosas que trabalham com extrema dedicação, sem poupar esforços, nas nossas igrejas, na sociedade e pelo mundo afora.

“Convido todas as comunidades cristãs – diz o Papa – a viverem este Ano, procurando antes de mais nada agradecer ao Senhor e, reconhecidas, recordar os dons que foram recebidos, e ainda recebemos, por meio da santidade dos Fundadores e das Fundadoras e da fidelidade de tantos consagrados ao seu próprio carisma. A todos vos convido a estreitar-vos ao redor das pessoas consagradas, rejubilar com elas, partilhar as suas dificuldades, colaborar com elas, na medida do possível, para a prosseguimentos do seu serviço e da sua obra, que são aliás os da Igreja inteira. Fazei-lhes sentir o carinho e o encorajamento de todo o povo cristão”.

Por sua vez, o Papa Bento XVI lembrou ao Povo de Deus que “a vida consagrada resplandece em toda a história da Igreja, pela sua capacidade de assumir explicitamente o dever do anúncio e da pregação da Palavra de Deus na missio ad gentes e nas situações mais difíceis” (VD 94c). Com efeito, quanto mais a missão é radical, mais precisa de uma consagração de toda a vida e uma de uma dedicação total.

Os religiosos e as religiosas são enviados e enviadas em missão para fazer um dom humilde e gratuito de sua vida inteira nos lugares mais desafiadores.

Se pensarmos, pois, propriamente à missão além-fronteiras, não pode haver sem mergulho profundo numa outra cultura, que requer aprendizagem de idiomas, costumes, mentalidades, relações, cosmovisões, sem longos tempos de dedicação e entrega. Assumindo concretamente a vida de um povo e sua causa, assumimos de fato o seguimento de Jesus e de seu Evangelho que diz: “todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos, campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais, e terá como herança a vida eterna” (Mt 19,29).

Como é que acontece hoje essa entrega? Como é que se processa essa doação total da vida? Como é possível no mundo de hoje, onde às pessoas estão tão voltadas para seu próprio interesse e para a realização de sua própria existência, ter homens e mulheres que gastam toda sua vida para os outros? Que projeto de vida é este? Será que ainda podemos propor uma coisa assim para as novas gerações do século XXI?

Há 50 anos, o Concílio Vaticano II lembrou que a Vida Religiosa Consagrada tem como vocação própria viver exclusivamente para Deus, renunciando ao mundo, seguindo Jesus “como única coisa necessária” (Lc 10,42). Claro que isso é também vocação de qualquer cristão (cf. LG 40). Contudo, podemos compreender a especificidade da vida consagrada a partir da totalidade da sua oferta e da sua maneira profética de viver: “os religiosos devem ser homens e mulheres capazes de despertar o mundo”, afirma Papa Francisco.

Portanto, um religioso não se consagra para tornar-se missionário: o religioso se consagra somente para Deus. A missão na vida religiosa não é uma meta, um objetivo ou um projeto de vida. A missão é um caminho: “quem coloca Cristo no centro de sua vida descentraliza-se! Quanto mais te une a Jesus e ele se torna o centro da tua vida, tanto mais ele te faz sair de ti mesmo, te descentraliza e abre aos outros”, assegura Francisco.

O religioso e a religiosa não partem em missão porque eles querem ou porque eles escolhem, mas porque alguém os envia e porque são escolhidos. O centro deles é viver somente para Deus, que os envia, os faz sair, os coloca em movimento, os desloca a serviço da Igreja e do mundo. “A intimidade da Igreja com Jesus é uma intimidade itinerante, e a comunhão ‘reveste essencialmente a forma de comunhão missionária’”, garante ainda o Papa.

Sim, porque Deus é missão, Deus é Amor: um Amor que não se contem, que transborda, que sai de si e vai ao encontro das pessoas. Nós todos somos chamados a participar desse movimento de amor e desta maneira participarmos da vida divina, da vida eterna. Tornar-se missionário significa participar da vida de Deus, do seguimento de Jesus que prometeu de estar sempre conosco (cf. Mt 28,20) e da ação do Espírito que acompanha e dirige a Igreja. Jesus não entregou uma missão aos apóstolos: chamou-os a cooperar com sua missão que ainda hoje continua, porque ele permanece presente e operante na história até o final dos tempos.

A obra missionária, portanto, é de Deus: “em qualquer forma de evangelização, o primado é sempre de Deus, que quis chamar-nos para cooperar com Ele e impelir-nos com a força do seu Espírito” (EG 12).

A Vida Religiosa Consagrada participa desta missão com a profissão dos conselhos evangélicos – os votos de pobreza, castidade, obediência – vivida em comunidade. A missão não se situa no âmbito da atividade, mas naquele das relações, assim como o termo “irmão” é chave para compreender toda essência do Evangelho: Deus é Pai, nós somos seus filhos e filhas, irmãos e irmãs “de sangue” entre nós. E ponto. Quer amar a Deus de verdade? Ama seu irmão. A comunidade, desta forma, é o primeiro lugar de missão, lugar no qual o sinal da comunhão é o sinal mais alto que os discípulos e as discípulas de Jesus podem oferecer ao mundo.

O mundo exige hoje um testemunho de comunhão e de fraternidade. Na comunidade se expressa o engajamento fundamental contra toda forma de domínio sobre o outro, e a prática assídua da fraternidade, como manifestação de uma nova lógica de convivência universal. Esse testemunho não é opcional, mas é algo de absolutamente indispensável porque, como diria papa Francisco, “preenche os vazios de amor que há nos corações, nas relações humanas, nas famílias, nas comunidades e no mundo. Ser santo não é um luxo, é necessário para a salvação do mundo. Isto é o que o Senhor nos pede”.

Enfim, a Vida Religiosa Consagrada expressa seu sinal de entrega total e unicamente a Deus no serviço aos mais pobres e excluídos, nas Galileias deste mundo afora. Na época, a Galileia era uma região marginalizada, abandonada e esquecida, onde Jesus foi viver, pregar e curar. Hoje as Galileias são as periferias onde homens e mulheres do nosso tempo esperam palavras de consolo, de proximidade, de perdão e de alegria. Os consagrados e as consagradas são chamados nos porões da humanidade a levar a todos o abraço de Deus que se inclina com ternura de mãe.

Mais uma vez Papa Francisco incentiva os religiosos a sair pela porta afora para procurar e encontrar: “o encontro e o acolhimento de todos, a solidariedade e a fraternidade, são elementos que tornam a nossa civilização verdadeiramente humana. Ser servidores da comunhão e da cultura do encontro. Quero vocês quase obsessivos neste aspecto! E fazê-lo sem ser presunçosos”.

Estevão Raschietti.