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Missiologia

Xaverianos na pastoral Indigenista do povo Kayapó


Há apenas seis anos, integrei a nossa comunidade xaveriana da Pastoral Indigenista em Redenção, no Sul do Pará. Diante dos desafios que essa missão oferece e por respeito aos confrades que me precederam, como me atreveria a chamar seis anos de experiência?

Contudo, estou profundamente grato ao Eterno Criador por me arrancar da estagnação e me impelir a repartir nesse novo itinerário . Estou igualmente grato àqueles que têm segurado minha mão, guiando-me e acompanhando-me ao longo do caminho. Sinto-me como um dos "trabalhadores da última hora." Realmente, "o Senhor não poderia ter sido mais bondoso para comigo!"

Meus passos na Pastoral Indigenista têm sido os de um discípulo. O meu primeiro olhar levou-me a apreciar os numerosos e diversos povos indígenas que habitam esta região entre os rios Xingu e Araguaia.

A nossa comunidade acompanha somente os Kayapó (51 aldeias), duas aldeias Karajá (Maranduba e Santo Antônio) em Santa Maria das Barreiras, e a aldeia Atikum Umã de Redenção. Mantemos contato com os Xikrin do rio Cateté e os Parakanã da Terra Indígena Apyterewa. Cada povo, com sua cultura material, religiosidade, rituais e organização social, cultura alimentar e simplicidade do modo de vida, mitos e história de luta e resistência não somente despertou a minha curiosidade, mas também me desafiou a aproximar-me com coração e mente abertos e os pés descalços "para ver Deus, buscar Deus e amar a Deus em tudo!"

Embora a educação e a formação que recebi tenham preparado-me para as situações que enfrento cotidianamente, sinto-me sempre inquieto para desaprender, enquanto missionário, a tendência de querer converter e de ser protagonista.

Seguindo os meus confrades nas visitas para as aldeias, nos encontros com lideranças indígenas, nas reuniões sobre as políticas públicas indigenistas (FUNAI, saúde, educação, desenvolvimento, etc), ou simplesmente acolhendo algum índio em nossa casa, eu aprendi que a nossa, a minha missão consistia em simplesmente estar junto, acompanhar e fortalecer os caminhos da verdadeira vida.

Nessa presença solidária, despojada e, muitas vezes, discreta, partilhamos fraternalmente as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias, as lutas e as bênçãos. Inclusive o curso de formação que realizamos como membros do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) insiste que o missionário seja amigo, aliado da causa indígena, cujos protagonistas são os próprios povos indígenas.

Essa postura de convivência solidária e serviço aos projetos indígenas de Bem-Viver nem sempre é compreendida por muitos dentro da Igreja e da sociedade envolvente que esperam de nós ações tutelares e asssistencialistas e uma atitude proselitista, a exemplo de várias denominações fundamentalistas invadindo as aldeias.

Assim, mesmo sendo somente dois na comunidade, eu e irmão Raymundo, procuramos estar presentes de maneira demorada e frequente nas aldeias, especialmente durante as festas tradicionais que atraem índios de outras aldeias. Na cidade de Redenção, beneficiamo-nos da colaboração preciosa das Irmãs Clarissas e da Pastoral da Criança. Além das visitas, acompanhamos e assessoramos os índios nas suas mobilizações políticas em prol de seus direitos constitucionais, na formação de lideranças, nas iniciativas de preservação, controle e reprodução de suas culturas, etc.

No mês de abril, além de acompanhar os índios para o Acampamento Terra Livre (ATL) em Brasília, animamos nas paróquias e escolas a celebração da Semana dos Povos Indígenas, cujo tema sempre está em consonância com a Campanha da Fraternidade do ano, ao passo que o tema deste ano é "Povos Originários lutando pela Paz, Justiça e Bem Viver."

Na verdade, a Pastoral Indigenista é um trabalho em rede, um mutirão em que se aprende que "a causa indígena é de todos nós!" Porque, como aponta Fratelli Tutti, defender a dignidade, o direito de existir dos índios é reconhecê-los como irmãos sendo que nisso defendemos também a nossa própria dignidade. Identificar-se com os últimos nos torna irmãos de todos.

Ainda, nessa convivência com os povos indígenas, estou aprendendo a observar, contemplar e escutar. Para os Kayapó, que acompanhamos desde 1978, a estética, a ética e a espiritualidade, como todos os demais aspectos da existência, entrelaçam-se. Assim, furar as orelhas de uma criança, por exemplo, não somente ressalta a beleza inerente da pessoa, especialmente quando enfeitada com os ornamentos auriculares, mas também educa a pessoa a saber ouvir, guardar e reproduzir a memória histórico-cultural do seu povo e a cultivar um espírito aguçado de discernimento.

 Com o povo Kayapó, estou reaprendendo tanto a "falar", isto é, falar em kayapó, quanto a acolher a existência na sua complexidade como ecologia.

Hoje, aprecio a hospitalidade fraterna que recebemos dos povos indígenas que acompanhamos. Para os kayapó, por exemplo, somos os "wajangare" (pajés), aqueles que lidam com a alteridade, enquanto qualquer outro não-indígena é "kuben."  Somos "õmbikwa" (parente, amigo) e a "nossa" família trata de cuidar de nós: abrigar, alimentar, pintar, etc. Eu recebi do velho Bemkati, falecido no ano passado em decorrência do coronavírus, o nome de "Mànhôkran", um nome tão misterioso quanto "Bekububo" e isso tem me levado a perceber possíveis semelhanças entre a cultura kayapó e a minha ancestralidade de povo lega.

Pe. Pascal Atumissi Bekububo

pascal

 

 

 


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