
Pe. Adriano Cunha, missionário xaveriano, natural de São Paulo (Brasil), conta um pouco de suas atividades, de sua vida e missão em terras do Chade, um país no centro da África.
Aqui estamos esperando as chuvas. Elas estão quase chegando. Uma espera cheia de esperança e oração invade nosso coração. Na língua mussey o verbo chover é uma expressão composta por duas palavras: “loná sîya”. Lona é o nome do Deus criador, nós cristãos o assumimos quando falamos de Deus; siya, por sua vez, recebe várias significações dependendo do contexto, pode querer dizer brotar, crescer, surgir... Assim, não falamos de chuva sem falar de Deus, acho que porque sabemos que ela é dom e dela depende a abundância da colheita. Por mais que o homem trabalhe e se esforce a outra parte da conquista é graça, é dom, é “providência de Deus”.
A chegada das chuvas transforma a paisagem. O horizonte, vasto e plano, pintado de amarelo pelos meses de seca cedera espaço ao verde que reaparece milagrosamente desde as primeiras pequenas e tímidas garoas. As estradas arenosas, os campos desertos, cederão espaço a rios e riachos que reaparecerão serpenteando caminhos outrora secos, as planícies se inundam e as plantações de arroz crescem à medida que a água aumenta. Campos de sorgos de vários tipos, de algodão, de sésamo, de hibisco vão colorindo o ambiente. Os pássaros cantam. A vida se renova. Deus “transborda” sobre a terra.
Contemplando este renascer constante da natureza redobro de esperanças. A terra seca não é terra morta é terra em espera. Na terra existe uma força de vida esperançosa que precisa da água, dom do céu, da semente e das mãos do lavrador. Assim também é a missão. À nós, padres xaverianos da comunidade de Gunu-Gaya, nos foi confiado um grande terreno a semear: duas grandes paróquias, com 72 comunidades eclesiais de base, algumas há mais de 50km de distância da nossa casa. Os cristãos são minoria. A Igreja é jovem. Nossos recursos são precários.
Temos o sentimento de que nunca fazemos o necessário, os resultados parecem pequenos vendo a imensidão do trabalho. Temos muitos catecúmenos que precisariam ser melhor acompanhados, temos cristãos que necessitariam uma vida sacramental mais assídua, temos uma urgente necessidade de evangelizar, de formar, de ensinar. Os líderes das nossas comunidades mereceriam uma maior proximidade com seus pastores para se tornarem mais fortes na fé; as situações de injustiça, pobreza e sofrimento estão a esperar respostas profeticamente evangélicas.
De manhã até à tarde a cabeça do missionário fica imaginando como fazer mais, como fazer melhor. Mas quando o cansaço procura abrir um espaço para a tristeza, olhamos para o céu e lembramos que a colheita não depende somente dos nossos esforços, ela depende da abundância das chuvas. E por mais seca que tenha sido a estação as chuvas sempre vêm. A missão é missão de Deus: Ele é o proprietário da vinha (cf. Mt 21, 33), Ele é a água viva que sacia e dá vida (cf. Jo 4, 14), Ele é a Palavra semeada no coração do homem (cf. Jo 1, 14). Nós somos colaboradores, instrumentos da missão. É Deus quem transforma a terra seca dos nossos corações em terrenos frutuosos.
Como missionário devo aprender duas atitudes dos agricultores mussey, a primeira é ter um olhar capaz de ler os pequenos sinais de um tempo novo e se alegrar com eles. Outro dia, visitando uma pequena comunidade, meus olhos não enxergavam nada mais do que uma grande planície deserta. Falando sobre as chuvas com um catequista, ele me disse: “padre, olhe para o chão”; lá eu percebi alguns minúsculos brotinhos de mato verde que corajosamente atravessavam o solo quente, com alegria ele continuou: “logo, logo poderemos semear”. É preciso se alegrar, contemplando os pequenos sinais de Deus na vida da humanidade para poder ter a coragem de laborar. Esta atitude muda a maneira de ver o mundo e as pessoas. Deixo de olhar somente para a grande planície deserta para contemplar também os pequenos brotos que surgem.
A segunda atitude é a coragem de se arriscar e de fazer a sua parte sem contar com os resultados. Cultivar a terra na nossa região é como jogar na loteria. O êxito da colheita é tão hipotético que se pensassem somente no resultado, poucos assumiriam as fatigas do trabalho. Apesar disto, todas as famílias, quando chega o tempo certo, se ativam a preparar a terra, a semear, a roçar, e depois a colher. Cada um faz a sua parte. Eu como missionário devo aprender a assumir a minha parte de trabalho, a arriscar o meu cansaço, a utilizar minhas energias, a abusar da criatividade sem pensar muito na quantidade da colheita, ela pertence a Deus.
Buscar a alegria nas pequenas coisas, assumir o compromisso de fazer a sua parte da melhor maneira possível e manter o coração sempre regado de esperança no amor de Deus é a missão do missionário. Rezem por todos os missionários e missionárias que oferecem a alegria de suas vidas como sinal real da presença de Jesus no coração do mundo.
Adriano Cunha, sx












