Uma vida dedicada às missões

  • Jaime Carlos Patias
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Após 13 anos a serviço das Pontifícias Obras Missionárias (POM), padre Sávio Corinaldesi, missionário xaveriano, encerrou suas funções na equipe nacional das POM, no final de 2014. O religioso de 78 anos voltou a Belém do Pará, sede da Região do Brasil Norte da sua Congregação.

Padre Sávio, italiano, foi ordenado padre em 15 de outubro de 1961. Seu primeiro campo de trabalho foi na Espanha, onde, por seis anos, atuou na Animação Missionária dos seminários a serviço das POM. Chegou ao Brasil em 1968. Trabalhou por 34 anos nas dioceses de Belém e Abaetetuba (PA) e na prelazia do Xingu. Foi diretor do Centro de Formação Intercultural (Cenfi), em Brasília (DF).

Também ocupou o cargo de superior dos Xaverianos da Amazônia e foi secretário executivo do Regional Norte 2 da CNBB. Em 2002 assumiu a Secretaria da IAM, das POM. Padre Sávio sempre foi profundo em suas reflexões. Com um estilo de vida simples, comunica a essência do Evangelho e tem sido de grande ajuda para a Equipe das POM. Acompanhe a entrevista:

Destaques do trabalho realizado ao longo desses anos nas POM?

Desde que deixei o seminário da minha diocese onde me preparava para ser padre, convencido pelos “números” (minha diocese tinha 70 padres, para 41 paróquias em um território de 315 km2), sempre me deixei questionar pelas necessidades das igrejas mais pobres. As POM, que nasceram para o serviço a essas igrejas, realizariam plenamente meus sonhos. O Concílio Vaticano II tinha recordado que o anúncio do Evangelho até os confins do mundo é obrigação de todo cristão. Depois do Concílio, os papas continuaram a lembrar sobre a necessidade do empenho missionário. Mais de 2000 anos depois da sua vinda ao mundo, 70% da humanidade ainda não ouviu falar de Jesus Cristo e outros 30%, são 90% que precisam de uma nova evangelização. Saio das POM com certa sensação de fracasso.

Poderia nos explicar melhor essa sensação de frustração?

Em 1988, a CNBB, em sua 26ª Assembleia Geral publicou o documento “Igreja, Comunhão e Missão”. Nele os bispos afirmavam: “As exigências do trabalho pastoral em nossas dioceses não nos dispensam da missão ad gentes. Antes, o envio missionário contribui para a renovação e vitalidade das Igrejas particulares”. (116) “... As missões Ad Gentes não são, portanto, algo facultativo para a Igreja local, mas fazem parte constitutiva de sua responsabilidade” (117). De 1988 para cá, o clero a serviço do povo brasileiro passou de 13.892 para 22.119 (em 2010). Um aumento de 59% que resulta ainda mais constrangedor quando comparado com o baixo número de missionários enviados além-fronteiras. A missão universal de fato foi por nós esquecida, mesmo diante do “aumento avassalador” dos recursos humanos, pastorais e financeiros. “Uma Igreja samaritana. Seria essa a contribuição específica da América-Latina ao mundo”.

Outro motivo que me faz sentir fracassado é o tipo de Igreja que somos. Meus primeiros anos de vida no Brasil me fizeram conhecer uma Igreja com uma clara opção preferencial pelos pobres. Uma Igreja samaritana. Seria essa a contribuição específica da América-Latina ao mundo. Mas agora muita coisa mudou. Nossa Igreja esqueceu que deve ser samaritana. Voltou a prestigiar os sacerdotes e os levitas que rodeiam nossos altares e povoam nossos templos (Lc 10, 25-37). Uma Igreja de ritos, cultos, cerimônias, que nada tem a ver com Jesus Cristo. Em um mundo que criou o café descafeinado, o cigarro sem nicotina, o leite desnatado... nós inventamos a “missão sem saída”, o “envio” sem destino. Uma missão que não se aproxima das vítimas por receio de sujar as mãos ou a barra da túnica. Uma missão descompromissada assim, não serve mesmo. Melhor não fazer.

Que mensagem teria para os leitores?

Nossa Igreja precisa se deixar avaliar pelos destinatários da missão. É a absolvição deles ou sua condenação que vai valer. Peço a Deus que este meio de comunicação seja sempre a voz deles, questionando-a e não a deixando sossegada. Estive por quase 13 anos nas POM. Tempo muito maior que o previsto, tempo suficiente para realizar sonhos. Por exemplo, o sonho de ver a Igreja do Brasil se tornando cada vez mais missionária. Lembro que logo nos primeiros dias pude ler, as palavras severas de dom Luciano Mendes de Almeida pronunciadas em um encontro de congregações missionárias: “Os missionários estrangeiros foram verdadeiros missionários conosco, mas não nos ajudaram a sermos missionários... Pedimos a eles que nos ensinem também a nós a alegria da missão além-fronteiras”.

Qual a sua missão agora em Belém do Pará?

Jesus disse a Pedro: “Quando você era mais jovem, vestia-se e ia para onde queria; mas quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir” (Jo 21,18). Meu presente e meu futuro estão nas mãos do meu parceiro, o Dr. Parkinson que vai tomando posse de mim, cada vez mais arrogante e exigente.

Ele pensa que vai me ganhar, mas o coitado ignora que pertencemos a uma raça de pessoas que, pela graça de Deus, produz frutos também quando pregadas numa cruz.