No amor experimentamos a Trindade

Em Goiás, existe um dos poucos santuários do mundo dedicados a Deus Pai, e é bom saber que em todas as vezes que, nas orações litúrgicas e nas escrituras, nos referimos a Deus, estamos falando do Pai. Em grego, é Theos. Referimo-nos a Jesus Cristo sempre como o Senhor, exceto em cinco passagens.
Deus sempre será o Pai, mesmo tendo corrido o risco de ficarmos parados nele, como aconteceu com os judeus e muçulmanos, que pararam em Javé e em Alá e não foram além disso. Até hoje, continuam sustentando a ideia de um Deus poderoso e onipotente, que aparece ameaçador nos relâmpagos e tempestades, tantas vezes mencionado no Antigo Testamento.
Para tirar o medo de Deus foi preciso muitos e muitos anos, e quantas pessoas ainda têm medo dele, acreditando que Ele castiga e assim ensinam para suas crianças?! Veio Jesus e nos trouxe uma imagem tão bonita de seu Pai, talvez a mais linda de todas, quando nos contou a parábola do filho pródigo, que eu prefiro chamar de parábola do Pai Misericordioso. Hoje já estamos acostumados com Deus e chegamos a chamá-lo de Chapa, nota 10, amigão, mas na época em que se estava saindo do paganismo, a simples leitura dessa página levava todo o povo às lagrimas.
Trindade é uma experiência que fazemos todos os dias, mesmo sem nos dar conta. Nenhum ser nasceu completo. Sempre precisamos uns dos outros, precisamos de relações que teçam a nossa existência. O nosso coração nunca se satisfaz em si mesmo. Estamos sempre buscando a felicidade e cada vez mais encontramos pessoas de cara feia. A verdade é que nunca nos bastaremos a nós mesmos, porque viemos de quem é trindade, de quem é comunhão.
Todos nós amamos e somos amados. Não gosto de usar a palavra amante, porque podemos tomá-la em outro sentido, mas aqui quero referir-me àquele que ama. Quem ama, ama a outra pessoa. Até aí, temos dois: o que ama e o que é amado. O que liga essas duas pessoas não é um cola-tudo, um durex, mas o amor, que nada mais é do que o Espírito Santo.
O Pai está eternamente derramando o seu amor sobre o Filho. É o Espírito Santo que fecha esse dinâmico círculo de beleza. Deus Pai não quis parar em si mesmo, mas quis que existíssemos. Portanto, todas as vezes que amamos, estamos fazendo a experiência da Trindade, o que não acontecerá quando pensamos que amamos, mas não amamos.
Sem amor, não existiríamos como seres humanos. A força do amor é comunhão de desejos, de pensamentos, criando uma unidade profunda entre os dois, sem que nenhum deles perca a originalidade, a singularidade, sem nunca se fundirem totalmente. Amamos uma pessoa e precisamos esperar que o seu amor venha até nós. Não podemos forçá-la a nos amar. O Pai nunca será o Filho, assim como o Filho nunca será o Pai, nem o Espírito Santo nunca será o Pai nem o Filho. O mesmo acontece com os nossos amores. Um nunca será o outro. Nem o amor consegue a fusão, pois somos uma singularidade absoluta e intocável.
O amor faz a unidade na diversidade. Mas se ficássemos apenas na nossa individualidade, restaria apenas o silêncio, a morte, a solidão. A solidão é a morte, a pior tortura que existe. Estar sozinho, sem nenhum outro ser presença para nós é a verdadeira experiência de inferno. Não precisa de fogo nem de demônio. A Trindade é tudo ao contrário: é o céu, onde eu sou com o outro, unido a ele pelo amor.
Pe. João Batista Libânio








