PAULO: um perfil para melhor interpretar textos e contextos

  • Luiz Alexandre Solano Rossi
  • Teologia
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Foi contemporâneo de Jesus, porém mais jovem. O tempo em que ambos viveram está a dois mil anos de distância de nós e não contamos com testemunhas presenciais para interrogá-las. A pesquisa precisará se basear no NT. Até que ponto essas fontes são confiáveis?

Opiniões se dividem a respeito da confiabilidade dos autores do NT (no sentido “histórico”).

A figura de Paulo em Atos só corresponde parcialmente com o conteúdo de suas cartas. Há acontecimentos mencionados por Paulo que faltam em Atos ou são apresentados de maneira diferente e, com freqüência, o contrário também ocorre.

De Jesus para Paulo há uma mudança de ênfase: o próprio Jesus é que é pregado em Paulo; aquele que pregava a vinda do Reino passa a ser o conteúdo da pregação. Por isso, Paulo se apresenta como um pregador do evangelho e nunca aparece como um tema central da pregação.

FONTES: O nome de Paulo se encontra em treze cartas: por ordem canônica teríamos: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito e Filemon. E mais da metade de Atos (9,1-28-31) está dedicada a suas viagens. Seus passos seguem caminhos pela Ásia Menor e Grécia. Visitou e viveu em cidades famosas de seu tempo: Jerusalém, Éfeso, Atenas, Corinto e Roma.

No entanto não há rastro algum de Paulo na literatura de seu tempo. Os historiadores romanos não o mencionam. Seu discurso no Areópago de Atenas não encontrou resposta dos filósofos gregos da época (At 17,15-34). Ele não se fez notar nas fontes extrabíblicas.

Paulo teria escrito realmente todas as cartas atribuídas a ele? Em nenhuma passagem de Atos se menciona que Paulo escrevera cartas às comunidades que havia fundado ou que pensava visitar. Por que o autor de Atos se silenciou a respeito da correspondência de Paulo?

A questão ligada a Hebreus: atualmente predomina nos círculos exegéticos a convicção de que a Carta aos Hebreus não pôde ser escrita por Paulo. As palavras em Hebreus 13,23 seriam um acréscimo tardio, com o qual se pretendeu fundamentar a atribuição da carta a Paulo. Sabe-se que no processo que levou á formação do cânon do NT se valorizou, entre outras coisas, o critério da “apostolicidade”.

A comparação de conteúdo é decisiva:
  • a) o texto de Hebreus apresenta apenas alguma característica própria do gênero literário denominado “carta”;
  • b) nada se diz sobre o autor ou de seus destinatários;
  • c) notória ausência de referências a situações concretas;
  • d) Hebreu é, de fato, um extenso, profundo e original tratado teológico.

Outro ponto significativo é a respeito da cristologia de Hebreus: nela é capital a noção de Jesus Cristo como sumo sacerdote que se “ofereceu de uma vez para sempre’ (7,25-28). Nas cartas de Paulo buscaríamos em vão uma referência semelhante entre o sofrimento e a morte de Cristo.

Treze ou sete cartas?

Quase todos os exegetas estão de acordo que as Três Epístolas Pastorais (1 e 2 Timóteo e Tito) não podem ter sido escritas pelo próprio Paulo. Essas cartas diferem tanto em linguagem quanto em estilo das restantes. As pastorais se relacionam sobretudo com a reflexão sobre a cristologia e a eclesiologia. As cartas autênticas de Paulo com a cruz e a ressurreição. Além disso, a comunidade que se reflete nas Pastorais aparece já estreitamente unida e estruturada, ou seja, a Igreja já havia se tornado uma instituição (1 Tm 3,1-13; Tt 1,15-16). Possivelmente tenham sido escritas no fim do primeiro século, várias décadas após as cartas paulinas.

Desde o início do século XIX formularam-se dúvidas a respeito da autenticidade de 2 Tessalonicenses. Na primeira, insiste-se em que o dia do Senhor virá repentinamente, como um ladrão noturno (1 Ts 5,1-3). Na segunda, porém, fala-se de uma série de sinais visíveis que precederão o fim (2 Ts 2,3-8). Um autor anônimo, possivelmente entre os anos 80 e 120, escreveu a carta que, segundo ele, melhor corresponderia à situação em que se encontrava a comunidade cristã primitiva, como consequência do “atraso da parusia”.

Efésios é uma carta que depende da de Colossenses. Não se considera Efésios uma carta. Nunca faz alusão a situações concretas. O que temos é um tratado teológico na forma epistolar.  Já não é o próprio Paulo que fala, mas sim fala-se dele. Sua figura já pertence ao passado. Já Colossenses possui um conteúdo predominantemente paulino, porém o texto também insinua diferenças. Talvez tenha sido escrita por um dos mais próximos colaboradores de Paulo.

Portanto, são 7 as cartas do NT que a maioria dos exegetas atribuem a Paulo, a saber: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filemon. As cartas de Paulo foram preservadas por seus seguidores. A cópia mais antiga desse conjunto, que se conservou até hoje, encontra-se num papiro datado de inícios do século III. Eram documentos de circunstâncias, para responder a inquietações concretas e momentâneas das comunidades.

Paulo e o autor de Atos se contradizem frequentemente. Mesmo que, em certos momentos, o autor de Atos sugira que ele era contado entre os companheiros de viagem de Paulo. Nesses momentos, ele escreve na primeira pessoal do plural e em lugar de se referir a “eles” fala de “nós” (At 16,9-18; 20,4-11; 21,1-18; 27,1-28,16). Atos, por exemplo, dá muita atenção ao tema da “conversão” de Paulo (9,1-31; 22,3-16 e 26,9-18). No entanto, na carta aos Gálatas (1.17), ele insiste em que, após aquele acontecimento decisivo, não viajou para Jerusalém. Uma viagem que seria feita somente três anos depois.

Não era costume de Paulo salpicar suas cartas com notas autobiográficas; ele inseria essas notícias unicamente quando cria ser necessário. Quem narra corretamente o acontecimento? Não há dúvida de que o autor de Atos tinha seus próprios “interesses teológicos”.

SauloEle queria demonstrar que a comunidade cristã primitiva desfrutava de um alto grau de unanimidade. Certamente que ele era bastante realista para perceber o grande silêncio a respeito das tensões existentes (At 6,1; 15,35-16,3), porém interessava-lhe demonstrar, acima de tudo, que a comunidade cristã que havia recebido o Espírito no Pentecostes vivia em uma irmandade excepcionalmente unida (At 2,41-47; 4,32-37 – os sumários).

Nesse âmbito, não deve nos surpreender que o autor de Atos se interessasse acima de tudo em dar a impressão de que nem sequer o conflitivo apóstolo Paulo poderia destruir aquela unidade. É conclusivo que os Atos não foram escritos por uma testemunha presencial.

Trata-se de um texto que somente chegou à sua fase final de composição nos anos 80 ou 90 do primeiro século, quando já havia passado muito tempo da época em que Paulo estava vivo, aproximadamente trinta ou quarenta anos.

Paulo era um homem cosmopolita; um homem de dois (ou vários mundos!).  Viveu em um contexto histórico complexo.

Orgulhava-se de suas origens judaicas (Fl 3,5-6 – e que jamais rejeitará ou negará!), declarou energicamente em duas ocasiões quase seguidas que era judeu (At 21,39; 22,3), ao se tornar um convicto seguidor de Jesus Cristo, Saulo se tronou Paulo. Sua vida mudou radicalmente, mas nunca negou sua condição de judeu. Paulo seguiu como Saulo; mas também se aproveitou das vantagens que lhe oferecia sua condição de cidadão romano (At 16,37-39).

Era um judeu da Diáspora (a comunidade judaica estava espalhada por uma imensa área, tanto dentro como fora do mundo romano. Uma parte dessa comunidade se encontrava na Mesopotâmia e Pérsia e, possivelmente por isso, interpretava o judaísmo de forma muito variada. Criou-se em Tarso, uma importante cidade helenística da região oriental da Ásia Menor (onde hoje é a Turquia). No entanto, ainda jovem foi par Jerusalém para se formar no conhecimento da Escritura e da tradição, na escola de Gamaliel, um destacado (e liberal!) dirigente do movimento dos fariseus (At 22,3).

Paulo falava vários idiomas: no ambiente helenístico de Tarso familiarizou-se com o grego e escreveu suas cartas no grego koinê. As referências de Paulo às Escrituras de seu povo são quase todas a partir do texto grego (Setenta, LXX, Septuaginta). Lia e conhecia as obras gregas clássicas, a retórica, a filosofia e interpretava as escrituras bíblicas com esse idioma (com os conceitos gregos?). Por ser cidadão romano é muito possível que também fosse capaz de falar latim, mas não há muita certeza disso. E também falava o seu idioma, isto é, hebraico e/ou aramaico (At 21,40; 22,2). Esse domínio de idiomas facilitou a Paulo suas viagens através de todo o Império Romano e a possibilidade de se fazer entender em quase todas as partes.

Paulo não nutria grandes expectativas em relação ao futuro daquele mundo (Rm 8,18-30; 1 Cor 7,29; 1 Cor 16,22). Ele era filho da apocalíptica judaica.Esta, entre inúmeras outras características, possuía aquela de apostar na intervenção de Deus a fim de libertar os seres humanos da maldade do mundo, seja destruindo-o e reconstruindo-o, seja conduzindo os fiéis a outro plano ou dimensão do universo.

Mas ele também sabia das implicações práticas que o seu anúncio produziria: tratava-se de reorientar, em termos éticos e sociais, a existência, possivelmente o desafio colocado seria o de continuar construindo um modelo alternativo de viver o presente. Demandava-se a ruptura com velhas lealdades, expressas entre outras coisas nos cultos tradicionais em que o componente de fidelidade política a Roma não era de menor importância. Além disso, cabia-se reunir em comunidade para proclamar a morte de um crucificado pelos romanos, que está prestes a vir do céu como libertador frente à fúria iminente.

Sua profissão era a de tecedor de tenda (At 18,3). É natural supor que aprendeu esse ofício com seu pai, pois era assa a norma naqueles tempos. Vale lembrar que Tarso, como capital da província romana da Cilícia, era considerado um centro governamental e, por isso, abrigava uma guarnição militar.

Segundo Atos 23,16 ele teria ao menos uma irmã. Teria nascido em Tarso por volta do ano 15. Nesse caso teria chegado a Jerusalém depois da crucificação, entre os anos 30 e 32. O autor de Atos diz que ele estava presente no apedrejamento do Estevão e o chama de “jovem” (At 7,58). O nome de Estevão é mencionado pela primeira vez em Atos, por ocasião das disputas surgidas na comunidade original (At 6,1-6). Parece também verossímil que, naqueles tempos, a idade de doze anos, no caso dos homens, fosse o momento em que eram considerados adultos no sentido religioso (Jesus no templo aos 12 anos).

Gamaliel: seria inútil buscar o nome de Gamaliel nas cartas de Paulo. Notícias a respeito dele vêm por meio de Atos (22,3; 5,34-39). Gamaliel não é uma figura fictícia. Seu nome é mencionado com respeito na literatura judaica. Ele era um elo em uma dinastia de influentes escribas. Era neto de Hilel, fundador de uma das mais importantes escolas dentro da corrente dos fariseus. Qualquer pessoa que fosse formada aos pés desse venerável e respeitado mestre poderia ser considerado especialista na escritura e na tradição.

Paulo pertencia ao partido dos fariseus e adotava seus objetivos e seus ideais.

Textos dos evangelhos que apresentam os fariseus como hipócritas e críticos de Jesus devem ser lidos com cuidado (Mt 6,1-18; 23,1-39; Lc 18,9-14; Mc 12,13-17; Lc 4,1-6; Jo 9,40-41), pois hoje sabemos que os evangelistas nos mostram uma imagem distorcida dos fariseus. Quando Jesus chega a Jerusalém, os fariseus saem de cena. Eles não possuem papel algum em seu processo e não são citados novamente. A atitude dos evangelistas com respeito aos fariseus é influenciada pelo que acontecia em seu tempo, com o resultado de que, consciente ou inconscientemente, eles projetaram essa situação para a época de Jesus. Vale lembrar que depois da destruição do templo, no ano 70, cresceu rapidamente a influência dos fariseus, que se converteram em chefes espirituais do judaísmo. Entre seus itens de crença, os fariseus acreditavam na vinda do Messias, na ressurreição do corpo, na justiça divina (Mc 12,28-32; Mt 5,10).

Paulo gostava de se descrever como um “zelota”.

Era um homem apaixonado tanto pela tradição do Antigo Testamento quanto pela comunidade cristã (Gl 1,14; Fl 3,6; 2 Cor 11,2; At 22,3). Paulo, com certeza,não era um moderado. Ele se apresenta melhor como um fanático, um zelota que se situa conscientemente no espírito da tradição judaica do AT (zelo que era, por exemplo, dirigido totalmente contra um novo movimento surgido dentro do judaísmo, isto é, os primeiros seguidores de Jesus Cristo). Gamaliel havia aconselhado que ele adotasse uma atitude de espera. Paulo não aceitou esse conselho e optou pelo enfrentamento. Por que Paulo não registra o nome de Gamaliel? É possível que, com o passar do tempo, Paulo deixasse de considerá-lo como seu mestre. A postura moderada dele deixou de exercer qualquer tipo de atração.

Paulo era um semeador de comunidades. A evangelização seguia a estrada romana, Via Egnatia, que ligava Bizâncio ao Adriático, passando por Tessalônica.

Conceitos/termos usados por Paulo devem ser compreendidos a partir do caldo cultural judaico da época, tais como: verdade, mentira, luz, justiça, etc.

Luiz Alexandre Solano Rossi.