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Teologia

A Divindade do Espírito Santo: polêmicas Trinitárias após o concilio de Niceia


Neste ano, celebramos os 1700 anos do Concílio de Niceia, realizado em 325, que definiu a profissão de fé com a fórmula: “Cremos no Espírito Santo”. Contudo, em plena controvérsia ariana, após 360, surgiu uma entre várias tendências que debatiam a natureza e o lugar do Espírito Santo em relação ao Pai e ao Filho.

O Concílio de Niceia, convocado, conduzido e dominado pelo imperador Constantino, deu o golpe decisivo contra o arianismo, heresia cristológica que questionava a divindade de Jesus Cristo.  O concílio contou com a participação de 308 bispos orientais, 5 bispos ocidentais e 2 presbíteros romanos. Com base na fé batismal, definiu-se a divindade de Cristo como “Filho de Deus, unigênito, da mesma substância do Pai, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado”. No entanto, o Espírito Santo foi apenas mencionado no credo, sem receber atenção ou aprofundamento específico.

Após o Concílio, desenvolveu-se um conflito envolvendo autoridades eclesiásticas e civis, marcado por disputas políticas no interior da Igreja. Com a morte de Constantino, em 337, tornou-se ainda mais urgente a formulação de uma confissão de fé unitária, capaz de reconciliar as facções surgidas a partir da definição de Niceia. A partir da metade do século IV, o confronto adquiriu um caráter mais estritamente teológico, com a radicalização do movimento ariano sob a liderança de Aécio e Eunômio.

Ganhava força uma corrente que negava a divindade do Espírito Santo, liderada por Macedônio, bispo de Constantinopla entre 342 e 360. Após longo tempo como diácono na Igreja de Constantinopla, Macedônio foi ordenado presbítero por volta de 332–335. Quando o imperador Constâncio exilou o bispo ortodoxo e nomeou Eusébio de Nicomédia, de tendência ariana, macedônio fortaleceu-se politicamente. Com a morte de Eusébio, foi eleito bispo pelos arianos e passou a nomear apenas presbíteros arianos para as sedes vacantes de sua diocese, tornando o império, na prática, ariano. A partir de 380, passou-se a utilizar o termo “macedonianos” para designar aqueles que negavam a consubstancialidade do Espírito Santo com o Pai e o Filho, considerando-o uma entidade intermediária entre Deus e as criaturas. Esse movimento ficou também conhecido como pneumatômacos, ou seja, “inimigos do Espírito”.

São Jerônimo em seu Chronicon de 380, refere-se explicitamente à heresia e ao seu “fundador”: “Macedônio (...) foi feito bispo dos arianos no lugar de Paulo. Dele deriva a atual heresia macedoniana”. Dídimo, o Cego, no tratado De Trinitate, menciona com frequência os “macedonianos”, atribuindo a Macedônio o papel de heresiarca. Antes mesmo do Concílio de Constantinopla, Dídimo já havia redigido, em Alexandria, uma compilação exegética intitulada De Spiritu Sancto, em 63 capítulos, que se tornou uma das obras mais importantes da Antiguidade sobre o tema. Essa obra foi traduzida ao latim por Jerônimo.

Santo Ambrósio escreveu Sobre o Espírito Santo (datada de 381), em três livros, na qual afirma que o Espírito Santo, como o Filho, é consubstancial ao Pai e, portanto, Deus verdadeiro. Embora pouco original, essa obra depende fortemente dos escritos de Dídimo, de Santo Atanásio e de Basílio de Cesareia. O protagonismo de Atanásio foi defensor incansável da ortodoxia de Niceia. Ele confrontou diretamente os que interpretavam as expressões bíblicas sobre o Espírito em sentido figurado, os chamados “tropici”. Para Atanásio, o Espírito Santo deve ser compreendido no seio da Trindade como participante do movimento circular interno, conceito teológico expresso pela palavra pericórese, ou seja, da união intratrinitária. O Espírito não é criatura, como sustentavam os “tropici”, os macedonianos ou os pneumatômacos: Ele é consubstancial ao Pai e ao Filho.

A contribuição decisiva para a formulação da doutrina trinitária viria dos Padres Capadócios: Basílio de Cesareia, seu irmão Gregório de Nissa e seu amigo Gregório Nazianzeno. Sua influência se estende não apenas ao plano teológico e especulativo, mas também à vida monástica, que viviam apesar de exercerem o episcopado. A eles se deve a distinção entre hipóstase (pessoa) e ousia (substância), permitindo a formulação clássica da fé cristã: uma substância e três pessoas.

Basílio, em sua obra Sobre o Espírito Santo (375) demonstrou em coerência com a fé batismal, que o Espírito Santo é a terceira Pessoa da Trindade, doadora da vida e digna da mesma adoração prestada ao Pai e ao Filho. Ele mostrou ainda que o Espírito não é criatura, mas consubstancial a Deus. Distinguindo-se a geração do Filho da processão do Espírito, afirmou-se que este procede do Pai e do Filho (Filioque). Basílio insistiu contra os pneumatômacos que o Espírito deve ser “conumerado”, ou seja, incluído junto ao Pai e ao Filho na adoração trinitária.

Gregório Nazianzeno aprofundou a noção de pericórese, destacando que o Espírito Santo “procede” do Pai e participa de sua substância, assim como o Filho é “gerado”. Gregório de Nissa, por sua vez, enfrentou duramente Eunômio e os macedonianos, acusados de promover um triteísmo. Gregório mostrou que, embora distintas nas operações, as pessoas divinas testemunham uma única essência. O Espírito Santo provém do Pai e é recebido pelo Filho: o Pai é a fonte da potência, o Filho é potência do Pai, e o Espírito, a potência do Filho.

No Ocidente, ao mesmo tempo, Dâmaso de Roma e Ambrósio de Milão ajudaram a consolidar a ortodoxia nicena, afirmando a divindade do Espírito Santo e rejeitando o sabelianismo. A influência dos Capadócios marcou profundamente o Concílio de Constantinopla e toda a teologia grega posterior, sempre atenta ao equilíbrio entre a Trindade em si mesma e sua manifestação salvífica na história.

Na pneumatologia grega, o Espírito é princípio pessoal de divinização da criatura, aquele que, em sua força, conduz o ser humano de volta ao Pai. O Espírito Santo, para os Padres gregos, não é objeto de uma teologia meramente especulativa, mas horizonte e chave de inteligibilidade do próprio mistério da salvação.


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