Miqueias: a prática da justiça e do direito

  • Rafael Lopez Villasenor
  • Teologia
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O contexto do profeta

Miqueias significa “Quem é como Deus?” (Jz 17,1; 1Rs 11,8).O nome é uma profissão de fé. Deixa entrever a profunda experiência de Deus como que marcou a vida do profeta.

Ele é um camponês natural de Morasti-Gat (Mq 1,1; 5,10; Jr 26,18), vila na fronteira do Reino de Judá com a Filisteia. Profetizou entre os anos do 720 e 701 a C, quando sua região estava sendo devastada pelos assírios. A origem camponesa se manifesta na linguagem concreta e franca, nas comparações breves e nos jogos de palavras.

O profeta se dirige aos governantes e habitantes das duas capitais: Samaria e Jeru­salém. Samaria, capital do reino do norte, também chamado reino de Israel. Jerusalém, capital do reino de Judá, no sul. Ainda, cem anos depois de Miqueias, na época do profeta Jeremias, em torno do ano 590, a atuação do profeta Miqueias ainda era lembrada pelos anciãos do povo (cf Mq 26, 16-19; Jr 26,16-19).

Miqueias, homem do povo da roça com linguagem simples e direta.

Ele viveu identificado com o povo do interior, explorado e oprimido pelos grandes latifúndios (Mq 2,1-2). Lavrador, que observava como as terras dos pobres eram tomadas e invadidas (Mq 2,2), por isso, denuncia a dominação ao povo trabalhador no campo (Mq 3,3; 3,9-11).

Miqueias nas profecias lembra Abraão e Jacó (Mq 7,20), o Êxodo e os nomes de Moisés, Aarão e Miriam, a irmã de Moisés (Mq 6,4; 7,15). Evoca as histórias de Balac, rei de Moab, e do profeta Balaão (Mq 6,5). Ele lembra “o que aconteceu desde Setim até Guilgal” (Mq 6,5), isto é, por ocasião da travessia do rio Jordão quando o povo entrou na terra prometida (cf. Nm 25,1; Js 2,1; 3,1; 4,19-24), assim como os “tempos remotos” de quan­do Davi foi ungido como rei em Belém (Mq 5,1; cf. 1Sm 16,1-13), os crimes e as injustiças praticadas pelos reis Amri e Acab, reis de Israel (cf. Mq 6,16).

Homem de fé simples e pura, acredita que tudo vem de Deus (Mq 7,18-20).

Nas visões ou oráculos, vê ação de Deus como um pastor que vai condu­zir o povo (Mq 2,12; 4,6-7) e portanto o povo será como um rebanho tranquilo (Mq 7,14-15). Sião vai ser um sinal no mundo inteiro (Mq 4,1), vai ser “a montanha de Deus” (Mq 4,1-2). De Sião, a lei de Deus vai se irradiar entre os povos (Mq 4,2b). As espadas irão se transformar em arados e haverá paz (Mq 4,3), cada qual na sua terrinha, tranquilo e feliz (Mq 4,4). Vai ser como o orvalho para a terra seca (Mq 5,6). Deus vai ser a luz (Mq 7,8). A terra do povo será alargada com as fronteiras do tempo do êxodo (Mq 7,12), e a terra dos inimigos ficará vazia (Mq 7,13). Todas as nações o verão (Mq 7,16-17).

Homem de esperança (Mq 7,15), que transforma a saudade em expectativa.

Vive os conflitos do povo e junto com o povo. Identificado com o povo é solidário e crê na misericórdia com quem sofre, reconhece os erros cometidos pelos opressores e pede perdão (Mq 7,1; 7,8-10).

De acordo com os exegetas, o livro de Miqueias não tem apenas palavras do próprio profeta. Composto por sete capítulos, o profeta, talvez, escreveu apenas 1,2-2,11; 3,1-12; 6,1-7.7. O restante é fruto de um trabalho em mutirão em tempos posteriores, acrescentado por seus discípulos.

Comentário aos textos

1,1-16 Denúncia contra Jerusalém e Samaria. O profeta Miqueias é um camponês natural de Morasti-Gat (Mq 1,1; 5,10; Jr 26,18). No cenário internacional o império assírio está em ascensão, constituindo grave ameaça para o reino de Israel (Samaria) e o reino de Judá (Jerusalém), favorecendo apenas a elite que morava nas cidades de Samaria e de Jerusalém. O profeta não assume neutralidade, ele é solidário e denuncia a injustiça contra os pobres e camponeses. Deus se coloca do lado dos desprivilegiados. A expectativa de Miqueias é de uma sociedade na prática da justiça, se colocando contra os privilégios de uns poucos.

2,1-13 A terra é dom de Deus. Miqueias como camponês defende a terra não como mercadora negociável, mas como dom de Deus, os ricos aos poucos vão tomando as terras. O profete denuncia os que acumulam. Esta não deve ser vendida, pertence a Deus (cf Dt 5,21; Lv 25,23). O camponês era injustiçado e explorado e muitas vezes obrigado abandonar as próprias terras. A riqueza ficava em mãos de poucos, pois não há como estar em comunhão com Deus e oprimir. Quem oprime não fazem parte do povo de Deus.

3,1-12 Denúncias contra as autoridades. As palavras são proferidas contra as autoridades de Jerusalém. O texto reflete a confiança dos pobres que liam o profeta depois do exílio da Babilônia. O conflito que é retratado traz a realidade social entre o campesinato e a corte. O abuso de poder favorecia o enriquecimento ilícito, a corrupção, os latifundiários e a corrupção dos governantes. O profeta vai descontruindo aos poucos o sistema de dominação e corrupção. Miqueias denuncia os chefes, os sacerdotes e falsos profetas e traz esperança de um futuro novo.

4,1-8 Esperança para Sião e Jerusalém. O texto, talvez é um acréscimo posterior. Miqueias (4,1-4) é sinótico com Isaias (2,2-4), o texto é uma profecia messiânica com palavras cheias de esperança, que anunciam o futuro novo para Jerusalém como a capital da justiça, em que cada um viverá feliz e tranquilo na terra, sem guerras, nem opressão. O sonho de paz supõe a destruição das armas de guerra, assim o mesmo material que serve para guerra pode ser transformado em instrumento de trabalho e cultivo da terra. Deus se serve de alguém para iniciar um novo povo (4,6-8). A restauração não acontece por meio da elite de poderosos, mas a partir dos pobres, fracos e indefesos, que se tornam a força escolhida por Deus.

5,1-3 O Messias virá de Belém (Belém = Beth+lehem significa “casa do pão). Rute era de Belém (Rt 1,2; 4,11). Davi era de Belém (1Sm 17,12), também o Messias virá de Belém (cf. 1Sm 16,1-13; Mt 2,5-6). O profeta anuncia a renovação da dinastia de Davi no meio ao sofrimento do povo.  Existe a esperança que o povo de Deus manifesta de sobreviver às grandes potências opressoras do tempo. Os Cristãos vemos neste texto a profecia do nascimento de Jesus em Belém como o Messias esperando, que faz a opção pelos pobres e oprimidos.

5,4-13 A paz messiânica O texto foi escrito por várias mãos. O profeta fala do resto de Jacó ou Israel, expressão entre os profetas, significando que com os justos Deus começará um novo povo. Portanto, a primeira promessa do Messias é trazer a paz e justiça, logo Deus vai fazer o julgamento implacável purificando de toda idolatria e destruindo as armas, colocando fim ao militarismo, como falsa segurança dos governantes. Mas o caminho da paz não é alcançado instantaneamente e sem conflito, exige o processo de transformação da sociedade.

6,1-8 Apelo à fidelidade e a justiça Miqueias retoma as denúncias contra a situação de opressão, onde o formalismo religioso encobre uma vida social injusta e transforma a realidade em um verdadeiro inferno. O Deus de Israel não fica indiferente, se mostra sempre fiel, liberta o povo e o protege defendendo a vida. Ele quer uma vida nova, movida pela justiça e pelo amor, em que o povo caminhe unido à Aliança. Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminho com Deus (6,8). Portanto, o único e verdadeiro culto que agrada a Deus é a prática de justiça, da misericórdia e do amor. O culto será autêntico quando se defender a vida através da justiça e da misericórdia.

6,9-16 Contra a classe dominante Os ricos serão julgados pela opressão sobre os pobres. Deus revela o projeto de vida desmascarando a opressão. Miqueias denuncia os ricos afirmando que plantarão e não colherão por ser fruto da injustiça e dominação (6,15-16), por sua vez Isaias (65,21) afirma que os pobres plantarão e colherão os frutos por ser fruto do próprio trabalho. A expectativa de Miqueias é a sociedade baseada na prática do direito e da justiça, mas o que ele constata é uma sociedade que tem como base os privilégios de alguns em prejuízo da pobreza da maioria do povo camponês.

7, 8-20 Cântico de Esperança. Possivelmente, estes versículos são um acréscimo ao livro de Miqueias após o exílio. Tendo sofrido o castigo da invasão e destruição do país, a comunidade judaica tenta, a duras penas, reconstruí-lo da melhor maneira. Consciente dos erros passados, o povo luta para readquirir a unidade e a confiança perdidas. Este cântico é um estímulo para vencer o desânimo e a falta de fé. Jerusalém após o exílio está destruída, e o povo sofre o desprezo dos países vizinhos. Porém, o povo repatriado confia que ele irá restaurar sua própria honra e que Jerusalém conhecerá um novo tempo, tornando-se o centro de reunião para todos os homens.

Rafael Lopez Villasenor.


Bibliografia
  • BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral. São Paulo: Paulus 2005.
  • MESTER & OROFINO. Profeta Miqueias: a esperança é a última que morre. São Leopoldo: CEBI 2015.
  • ROSSI, Luiz A. S. (Org). Miqueias: memórias libertadoras de um líder camponês. São Paulo: Paulinas, 2016. SAB. Mês da Bíblia 2016, para que N´Ele nossos povos tenham vida. Livro de Miqueias. São Paulo: Paulinas 2016.
  • STORNIOLO I. Como ler o libro de Miqueias. Um profeta contra o latifúndio. São Paulo: Paulus, 1990.