Dom Adolfo Zon, bispo titular da Diocese de Alto Solimões

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O Papa Francisco aceitou este 20 de maio 2015 a renuncia, por motivo de idade, de Dom Alcimar Caldas Magahães, bispo da diocese de Alto Solimões (AM), o que automaticamente converte em bispo titula ao Xaveriano Aldolfo Zon Pereira, nomeado bispo coadjutor no mês de agosto de 2014.

Dom Adolfo é missionário no Brasil desde 1993, nasceu em Seixalbo (Orense), em 1956, foi ordenado padre em 21 de junho de 1986 e bispo em 8 de novembro de 2014. Em seus mais de vinte anos nas dioceses de Abaetetuba e Belém (PA), desempenhou diferentes funções no campo das pastorais sociais e da dimensão missionária, assim como várias responsabilidades nos Missionários Xaverianos.

A diocese de Alto Solimões tem um território de 131.000km quadrados e está situada no extremo sul-ocidental do estado de Amazonas tendo com sede a cidade de Tabatinga, fazendo triple fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil.

Esta é uma região adornada pela floresta amazônica, onde as comunicações geralmente são através dos rios, o que aumenta o tempo nas distâncias, provocando dificuldades nas visitas entre aldeias e comunidades indígenas.

Após conhecer a notícia de que Dom Adolfo Zon se converteu em bispo titular de Alto Solimçoes, ele conta suas impressões sobre a realidade diocesana e dos desafios que deve enfrentar nesta nova etapa de sua vida e missão.

Depois de alguns meses como bispo coadjutor, nos que pode conhecer a realidade brevemente, quais são os desafios a serem enfrentados em sua nova missão como bispo titular?

Como o resto do Brasil, também no Alto Solimões se vive o drama da falta de educação e tantos outros carências que desfiguram o rosto do nosso povo, causando dor e sofrimento que clamam aos céus. Os desafios são próprios do lugar onde existe uma triple fronteira e a convivência entre muitas e diferentes etnias e múltiplos interesses. As diferenças entre Peru, Colômbia e Brasil levam para uma grande mobilidade humana, sem controle nem acompanhamento.

A cidade Tabatinga (AM) está crescendo desordenadamente, bairros sem os memores condições de vida, sem os serviços  mais básicos. Pessoas ocupando as margens do rio, que quando cresce inunda todas as casas até ficarem submergidas, a pesar do qual a gente continua vivendo nelas sem espaço vital.

A pobreza está estampada nas condições precárias de vida na maioria das pessoas. Consequentemente, a maior parte do povo vive sem perspectiva, em constante mobilidade. O tráfico de droga provoca violência, problemas de relacionamento, destruição e enfraquecimento de instituições com a família, a escola, o trabalho. A violência cresce e os suicídios entre os jovens se repetem em índice assustador, de maneira especial nas comunidades rurais.

Como devolver esse povo sem voz e sem vez a dignidade de filhos de Deus? Como ajudá-los a resgatar sua auto-estima e convicção do seu potencial quando estão desempregados, marginalizados e humilhados na frente de uma situação de vida sub-humana?

peixes

Dom Erwin Kräutler, presidente do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), fez uma forte denúncia contra o governo brasileiro na última reunião da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) diante da frente da situação dos povos indígenas. A partir da realidade de sua diocese, quais são os principais problemas dos indígenas? Como tenta responder a Igreja de Alto Solimões a questão indígena?

No território da nossa diocese temos a presença de mais de dez grupos indígenas. Na bacia do rio Yavarí estão presentes os Matsés, Mayorunas, Marubo, Kanamari, Matis, Kulina e Kurubo e mais de dez grupos que ainda não foram contatados. Ao longo do Rio Solimões temos outros grupos étnicos, que têm uma forma mais semelhante aos parâmetros da vida da sociedade ocidental, mas a maioria dos seus membros mantêm a sua própria cultura: Tikuna, Kokama, Kaixana e Cambebas. Os Tikunas, com mais de 40.000 membros, são os mais numerosos e vivem em terras demarcadas, divididos em mais de cem aldeias.

Os maiores problemas têm que ver com saúde, educação e as más condições precarias para a produção de alimentos. Quem está piores condições são as tribos do Rio Yavari, uma vez que as distâncias das aldeias com a cidade de Atalaia do Norte, sede do município, são muito grandes. Muitos precisam dois ou três dias de viagem para chegar à cidade. Os postos de saúde estão distantes e escolas nas aldeias oferecem apenas os primeiros cinco anos do ensino primário. Os que querem estudar têm que vir à cidade para se viver longe  da família e diante da violência e do  tráfico de droga.

Como Igreja, temos a pastoral indigenista que busca estar a serviço dessas pessoas. O nosso serviço pastoral é diversificada. Com os Tikuna trabalhamos a partir de cada comunidade eclesial, onde eles são os próprios agentes de pastoral, acompanhados pelos padres da paróquia Tikuna Belém do Solimões. Entre os Tikuna está-se avançando na catequese inculturada, pois já começaram a catequese em Tikuna e um grupo de catequistas e professores está traduzindo a Bíblia para as crianças a língua Tikuna. Com as aldeias de Rio Yavari tem uma equipe de cinco missionários do CIMI, que estão a serviço das etnias mais numerosas: Marubos, Mayoruna e Kanamari. Esta equipa está presente nas aldeias e ajudá-los em suas lutas para melhorar as condições de vida e de organização, assim como para exigir do governo uma série de políticas públicas mais eficientes. Eles também ajudam na formação de professores. As atividades deste grupo são financiados por "Manos Unidas".

O que está fazendo o pontificado de Francisco para a Igreja da Amazônia?

O Papa Francisco está muito perto de nós, porque sabemos que ele está ciente de tudo o que acontece na Amazônia por meio da CNBB para a Amazônia, liderada pelo Cardeal Claudio Hummes, um grande amigo do Papa. O Papa também chamado a Roma vários bispos do Brasil e da Amazônia para ouvi-los, tendo em vista o desenvolvimento de sua nova encíclica sobre ecologia.

Muitas pessoas estão com vontade para explorar os recursos da Amazônia. Como se apresenta o futuro da região diante das grandes empresas nacionais e internacionais e os principais projetos que o governo brasileiro está tentando implementar?

Esta região foi sempre explorado em diferentes ciclos econômicos. Ele sempre foi tratada como uma autêntica colônia. Primeiro foram os especialistas na borracha, madeira, e agora... Os políticos só se lembra de Alto Solimões lá na época das eleições. Os índios têm suas terras demarcadas, protegidas e registradas. Temos um potencial hídrico e florestal com incrível biodiversidade. Para que? Só para ser um museu! Graças a Deus, algumas comunidades estão se organizando e cuidando dos lagos naturais que oferecem uma grande quantidade de peixes, preservando a sustentabilidade.

Após mais de 20 anos como missionário na Amazônia, quais são os valores humanos, sociais, religiosos, que você tem descoberto entre os povos desta região?

Primeiramente manifestar estes 22 anos ao serviço da Igreja da Amazônia foram muito enriquecedores, visto que me ajudaram a crescer como pessoa e como discípulo missionário. Entre os valores humanos destaco a acolhida, a gratidão, a austeridade, a alegria, a solidariedade, a capacidade de sofrimento e o trabalho em conjunto. No campo social, a organização e a luta pela dignidade humana. No campo religioso, a experiência religiosa profunda, porém muitas vezes com um sincretismo, mas purificados manifestam uma experiência de fé. Entretanto, a riqueza da Igreja é que pode ajudar-nos a superar o divórcio entre fé e vida. Uma Igreja sempre de saída, que continua fazendo realidade o pedido de Jesus: Dai-lhes vos mesmos de comer!


  • Artigo publicado em espanhol no site de "Religión Digital" e traduzido por Rafael Lopez Villasenor.