Desafios da Vida Religiosa Consagrada hoje

  • Rafael Lopez Villasenor
  • Teologia
0
0
0
s2smodern
0
0
0
s2smodern
powered by social2s

O presente texto pretende ajudar a refletir sobre a reapropriação do núcleo identitário da Vida Consagrada com um olhar antropológico, a partir da época que vivemos, marcada por intensas, velozes e profundas mudanças. As relações, os hábitos, as formas de proceder, mudam em um tempo muito rápido.

Os conflitos contemporâneos, também penetram na Vida Consagrada hodierna, esses acontecimentos não devem desanimar, mas ser uma ocasião favorável para o crescimento e a expectativa de um novo tempo de esperança na dimensão profética missionária.

A Vida Religiosa na conjuntura da sociedade líquida

A Vida Religiosa Consagrada (VRC) vive inserida em uma época de grandes transformações com profundas mudanças, o que nos leva a pensar que os desafios se multiplicam, de maneira especial entre as novas gerações nelas diretamente envolvidas, bem como as outras gerações desafiadas pela realidade nova. Mudanças causadas por vários aspectos, entre elas, as novas plataformas de comunicação resultante de novas tecnologias. Neste sentido, a chegada das novas tecnologias como internet, celulares, redes sociais... facilitam as informações, quebram as barreiras geográficas e culturais, criam multiplicidade cultural e alteram o deslocamento de fronteiras, dando novas ressignificações às práticas tradicionais da sociedade de acordo com os protocolos do ciberespaço no contexto da modernidade líquida[2]. Nesta conjuntura a Vida Consagrada é desafiada a buscar uma nova identidade e uma ressignificação para melhor responder aos "sinais dos tempos". A questão está em saber distinguir entre o que permanece e o que muda, entre o mais central e o periférico na realidade humana. Isso facilita uma avaliação da realidade anterior e atual.

            A época que vivemos é marcada por intensas, velozes e profundas mudanças. Isso nos leva a pensar que após a "época de mudanças" entramos na "mudança de época", que enfraquece e altera muitos dos paradigmas tradicionais que sustentavam uma visão de mundo, e gera-se instabilidade, incertezas, inseguranças e até desorientações. Esta nova realidade se deve a um complexo de fatores, talvez jamais todos elencáveis de forma satisfatória. Para o papa Francisco "esta mudança de época foi causada pelos enormes saltos qualitativos, velozes e acumulados que se verificam no progresso cientifico, nas inovações tecnológicas e nas suas rápidas aplicações em diversos âmbitos da vida[3]". Em outras palavras, as novas visões do mundo, da vida, da sociedade e do sagrado são fruto do mundo globalizado e tecnológico. As mudanças estão em todos os campos e em todas as atividades humanas, que influenciam direta ou indiretamente a VRC. Inclusive, "o regresso ao sagrado e a busca espiritual, que caracterizam a nossa época, são fenômenos ambíguos[4]".

            As grandes mudanças da época são comparadas com a liquidez, talvez, porque seja a que mais se encaixa com a realidade que se vive. Neste sentido, os líquidos estão sempre prontos para mudar sua forma de maneira rápida. A mobilidade que lhes é característico faz com que passem pela leveza, associada à mobilidade e inconstância. A situação da presente época pode ser muito semelhante a essa condição dos líquidos. A modernidade derreteu os sólidos. Os sólidos são destruídos, se derretem e se tornam líquidos. Tudo passa a ser temporário e líquido.

            Entre outros aspectos, a dimensão do sólido desta descrição social, corresponde mais a formas institucionais rígidas, estáveis, imutáveis; a rituais pouco flexíveis em vários aspectos da vida; a regras de vida pouco dinâmicas; a um acentuar exagerado da tradição e a pouca abertura ao novo. A dimensão líquida inclui os aspectos do passageiro, da fragmentação, do provisório, do descartável, da mudança rápida, da atenção à tecnologia que acentua o diferente e a mudança... Não basta apenas assumir a sociedade líquida como alternativa. Tanto na sociedade sólida quanto na líquida existe uma realidade humana que se expressa em formas de conteúdos e de processos. Dentro de um processo histórico dialético sabemos que uma determinada forma de ser e agir pode incluir com o tempo, aspectos espúrios, negativos. Estes ‘desvios’ explicam e fazem germinar uma nova forma de ser e de agir, muitas vezes oposta à anterior. Não é aqui o lugar para analisar este aspecto, mas convém ter presente esta dinâmica humana para compreender o novo, as razões deste novo e deste diferente. Evidentemente, tudo isso tem sua influência na questão da identidade. Sempre convém ver bem o que de fato muda e o que permanece. Há mudanças superficiais, mas há-as também profundas. Estas últimas repercutem nestes novos modelos sociais e humanos dos quais temos conhecimento. Não é que o líquido em si é melhor do que o sólido, nem que o sólido era a alternativa saudável e o líquido a ‘desordem’. Sempre convém ver qual conteúdo em questão e quais metodologias o expressam, dentro de uma expressão humana ampla, a questão antropológica.

            Para Sygmunt Bauman, vivemos na sociedade líquida, onde as relações, os hábitos, as formas de proceder, mudam em um tempo muito rápido. A vida é resumida na valorização de coisas supérfluas, isto é, a vida sempre se reinicia. Algo é comprado, logo é descartado. Metaforicamente, os fluidos não são facilmente contidos. Os líquidos penetram nos lugares, nas pessoas, contornam o todo, vão e vem ao gosto das ondas do mar. O mundo fluido ou líquido penetra nas rachaduras por onde passa. A sociedade sólida está impregnada de disciplina, certezas e rigidez. A VRC muito se pensa assim e por isso pouco se encaixa nas novas formas. As certezas da modernidade sólida se foram, inclusive, parece que até muitas utopias desmoronaram.

            Hoje tudo parece ser líquido, isto é, provisório. As relações humanas são provisórias, os casamen­tos são provisórios, o trabalho é provisório, as alianças e pactos são também provisórios e opor­tunistas. Vive-se clima cheio de incerteza, quanto ao futuro. No entanto, a Vida Religiosa continua a sustentar a perpetuidade dos compromissos, mesmo sofrendo as amargas perdas de pessoal que a abandona. Isso faz pensar que, "se a dedicação aos valores duradores está em crise é porque a própria ideia de duração, também está em crise[5]". Em outras palavras, os valores estáveis e duráveis têm pouca chance de ocorrer em uma vida fragmentada vivida em episódios e eventos desconectados. Outra realidade é que muitas das novas gerações não respiram um clima cultural religio­so católico herdado da família. Elas chegam de diversas experiências transitórias e líquidas[6].

Incertezas da Vida Religiosa

Na sociedade líquida, vive-se de incertezas e inseguranças. Os medos são muitos e indissociáveis da vida humana. Por exemplo, a sociedade atual tem medo da violência urbana, das catástrofes naturais, do desemprego, das epidemias, do terrorismo, da exclusão. No ambiente líquido moderno, as incertezas, perigos e ameaças são constantes[7]. A VRC vive também muitas incertezas e medos. Muito se discute sobre o decréscimo das vocações, sobre o envelhecimento e sobre as crises atuais, inclusive sobre o futuro da vida religiosa. Um dos medos que aflige fortemente grande parte das Congregações é a elevada média de idade, resultado de vários fatores como pequena entrada de vocações, saída de consagrados (as) jovens e de média idade, assim como o envelhecimento dos membros como parte do fenômeno do aumento da expectativa de vida[8]. É claro que o envelhecimento gera a diminuição das forças físicas e traz incertezas, o que deve levar a repensar os compromissos assumidos em algumas frentes. Neste contexto é bom propor um projeto originário, a partir da fragilidade histórica que se vive.

            A sociedade líquida cheia de ambivalências[9] na qual a individualização se tornou um destino e não uma opção, pode levar à busca de uma falsa identidade em alguns paradigmas do passado. Na modernidade líquida, há uma nova vitalidade religiosa, que pode aparecer como ultraconservadora e neo-integrista, na defensiva de manter a tradição perante a sociedade líquida, ao relativismo e ao indiferentismo, que pode influenciar de maneira direta ou indireta a VRC. A ansiedade diante do novo pode levar a sistemas e estruturas regressivas e arqueológicas. O fundamentalismo religioso é um filho legítimo da modernidade líquida, nascido de suas alegrias e tormentos, e herdeiro, do mesmo modo, de seus empreendimentos e inquietações[10]. Inclusive, existe uma religião especificamente moderna, nascida das contradições modernas da vida líquida[11], em que se revelam as insuficiências do homem e a futilidade dos sonhos de ter o destino humano sob controle. Enfim, há uma "metamorfose" da religiosidade e da fé.

            A ambivalência como fenômeno representa algo que não se sabe ao certo o que vai acontecer nem saber como comportar, tampouco prever qual será o resultado de determinadas ações. Isso acarreta um sentimento de incerteza. "A falta de clareza de hoje é um produto da ânsia de tornar as coisas mais claras; a maior parte da ambivalência sentida se origina nos esforços difusos e disparatados para eliminar a equivocabilidade de localidades selecionadas, separadas e sempre confinadas".[12] A ambivalência traz a falta de clareza e como consequência a insegurança dos riscos aparecem na conjuntura das incertezas da Vida Religiosa.

Diante da ambivalência e do relativismo moderno, frutos da sociedade líquida, a identidadedas instituiçõessefragilizaram. Como consequência, veio a angústia, a reação defensiva, a organização e o fechamento saudosista, na tentativa de preservação e sobrevivência institucional. A reação apareceu reforçando o controle, fazendo o apelo à coesão institucional. A proposta da ortodoxia radical encontrou eco favorável nos meios conservadores e em alguns jovens das novas gerações, desencantados com o cristianismo social, que marcou em dados momentos o cristianismo do fim do século XX. Enfim, parece que, a "ortodoxia radical tentará corrigir os reducionismos[13]" como um reflexo nostálgico de outro tempo. Porém, esta reação não deixa de ser o retorno para a pré-modernidade de maneira ambivalente, mas tentando forçar e adaptar às condições sociais e culturais da modernidade líquida que penetra na VRC.

Perante o desafio e o questionamento da diminuição das vo­cações, alguns religiosos (as) pensam que é preciso assumir algumas atitudes do passado para atrair os jovens, voltando às antigas formas de vida católica tridentina que parecem agradar a juventude, como o uso do hábito, a disciplina, o afastamento do mundo entre outras, ou também, adequar-se às novas ondas juvenis sem tanta disciplina, pouco estudo sistemático, uma espiritualidade pentecostal, subjetiva, cheia de emoção, ambivalente e fluida. Seria uma Vida Religiosa que mistura símbolos do medievo e da pós-modernidade. Isso poderia ser uma forma sutil de engano e manipulação, ou mesmo um retardar soluções e visões objetivas da vida religiosa dentro da realidade atual.

O sentido de pertença e de identidade parece ser sempre mais líquido. Vivemos um mundo em que todos os meios de vida são permitidos, mas nenhum é seguro. O fundamentalismo na Vida Consagrada parece ser, de maneira errada, um remédio radical contra as ambivalências da sociedade líquida. Aliás, o fundamentalismo é um fenômeno que marca a conjuntura da modernidade líquida, expressão de uma reação às influências da globalização. Mas a busca da identidade não se deve empenhar em trilhar caminhos de re-institucionalização e re-tradicionalização, mas uma renovação missionária e profética, através da leitura adequada aos novos "sinais dos tempos". A identidade, dessa forma, passa a levar fortemente em consideração os aspectos novos e menos os estáveis do passado. Muitas vezes isso significa um distanciamento grande das experiências do passado pessoal marcado pela família, cultura, etnia, religião. Esta espécie de ruptura pode ter consequências as mais diversas. Vividas e assumidas conscientemente segundo critérios de valores antropologicamente positivos estas novas formas darão características novas à identidade.

Nesta identidade convém encontrar formas de inclusão de aspectos evangélicos, cristológicos, eclesiais e do Reino de Deus. As realidades espirituais não são necessariamente estranhas à realidade da sociedade líquida. Para além desta fenomenologia permanece a motivação e o desejo de realização do mais profundo de cada ser humano. A VRC tem uma nova missão decorrente desta vida com características fragmentárias: discernir os desejos profundos não necessariamente manifestos, dar consistência a uma nova identidade que integre esta mudança de época e ajude a todos a encontrar um sentido de vida naquilo que é, do que faz e das expressões tecnológicas como possíveis manifestações saudáveis do ser humano.

Portanto, não se quer um modelo que busque recuperar um passado que já foi, mas que se busque no aqui e agora sinais e formas humanas que expressam o profundo desejo de amar e ser amado, sempre considerando as contribuições significativas de Jesus e daqueles que nele se inspiraram e inspiram no dia a dia.

Relações humanas da vida comunitária

Ao refletirmos sobre as relações humanas da Comunidade, logo nos deparamos que nunca a palavra comunidade foi usada de forma mais indiscriminada e vazia do que nas décadas em que as comunidades, no sentido sociológico, foram difíceis de serem encontradas na vida real[14]. A necessidade da experiência comunitária continua sendo sempre atual. O que pode mudar é a compreensão dela e sua forma de expressão. Viver em comunidade exige maturidade, capacidade de entrega, trazendo ganhos e perdas. Porém, as comunidades tornaram-se mais complexas em tempos da globalização, muitas vezes estabelecidas com base em novas lógicas de tempo e de espaço, dentro da rapidez dos processos de transmissão informacional, formando comunidades extraterritoriais ou virtuais, trazendo transformações na sociabilidade da Vida Consagrada.

As relações humanas da vida comunitária parecem também ser líquidas, fragilizadas por mágoas acumuladas, competição, ironia e rigidez, levando muitas vezes, a refugiar-se nas comunidades virtuais. Por exemplo, a inserção nas redes sociais pode ser um meio de fugir da realidade e se refugiar no mundo virtual, de criar novos laços de maneira rápida, líquida e ambivalente, como um espaço que propicia troca de ideias e encontros virtuais, muitas vezes, desligados das comunidades reais da VRC. Esta ambiguidade indica igualmente o desejo desta comunicação e interação como significativa para a vida. O uso da Internet vem gerando novas práticas e modificando o comportamento, no qual se elabora o mundo social através de redes como Orkut, facebook, twitter, mas estas não podem ser uma maneira de fugir da vida comunitária.  Como "filhos desta época, todos estamos de algum modo sob o influxo da cultura globalizada atual que, sem deixar de apresentar valores e novas possibilidades, pode também limitar-nos, condicionar-nos e, até mesmo, combalir-nos[15]".

            Os vínculos comunitários muitas vezes são frágeis, misteriosos, conflitantes, inseguros e ambivalentes. Os conflitos comunitários fazem parte do ser humano pois os religiosos são pessoas normais, com seus limites e seu desamor. Os conflitos podem nos ajudar a amadurecer e a crescer na fraternidade. Infelizmente, o indivíduo hodierno insaciável por relacionar-se, ao mesmo tempo em que busca uma relação, e desta maneira repudia a solidão, não abre mão de sua liberdade, e para manter a liberdade mantêm a relação, mesmo que seja com outra configuração. A questão da liberdade e responsabilidade se distingue do individualismo e de formas imaturas de expressão. Deste modo, temos um novo modelo de relação social líquida online. Inclusive, o indivíduo moderno busca o outro pelo horror à solidão, mas mantém o outro a uma distância que permita o exercício da liberdade sem compromisso maior. Esta relação entre o eu e os diversos ‘tus’ está carregado de ambiguidades. Ela muitas vezes oscila "entre sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro"[16].

As novas tecnologias podem levar para relações humanas cada vez mais flexíveis e líquidas, gerando níveis de insegurança e ambivalência. Tudo indica que, os seres humanos estão dando mais importância a relacionamentos em rede pela internet através de bate-papo, e-mail ou celular, que podem ser desmanchados a qualquer momento. Sendo o contato apenas virtual, é difícil manter um compromisso em longo prazo. E isso não ocorre apenas nas relações da sociedade e vínculos familiares, mas também na vida comunitária. Enfim, a fluidez dos vínculos, que marca a sociedade contemporânea, encontra-se inevitavelmente inserida nas próprias características da modernidade. Tudo ocorre com intensa velocidade, o que também se reflete nas relações entre as pessoas.

As redes sociais pautadas na relativização do tempo e do espaço, na mudança das concepções de esfera pública, na construção de novas realidades sociais, na estipulação de novas interações entre local e global. Assim, as relações são efetuadas a partir da simples inserção na rede, estabelecendo vínculos fundados em interesses comuns e criando no ciberespaço a busca efetiva por uma conexão social ambivalente. As novas tecnologias abrem novas possibilidades, novas ambivalências, novas maneiras de relacionamento, atuação, educação e evangelização entre os jovens. As barreiras geográficas e temporais são praticamente eliminadas, tudo corre muito rápido.

 Na Vida Religiosa pode ser criado um idealismo comunitário líquido, quer dizer, construir castelos de areia, que imaginam a comunidade como uma vida sem conflitos, sem incoerências, sem patologias, sem encontros físicos. Quando se encontram essas coisas, as quais infelizmen­te existem devido à nossa fragilidade humana, as novas gerações se desencantam e não conseguem responder com uma relativa maturidade. Por isso é preciso educar as novas gerações ao realismo, sem perder, no entanto, o encanto do sonho e a utopia. Todos os integrantes das comunidades religiosas se beneficiam com um diálogo contínuo mútuo que permite compreender a história, as motivações, os desafios e as realidades passadas e atuais. Com isso pode-se encontrar caminhos para um sentido cristão no mundo de hoje.

Uma Vida Religiosa romântica, fragilizada, na qual o aburguesamento, desde os inícios da formação, mina a caridade, em que o consumismo enche os olhos e esvazia o coração, o individualismo ofusca o valor da comunidade e se cria uma dependência da Instituição esperando tudo receber como um ser totalmente dependente do afeto da mãe. Nesse caso, tanto o Instituto como a comunidade eclesial se transformam na mãe que faltou ao religioso. Isso significa que a pessoa não foi educada para administrar fracassos, frustrações[17]. Os processos e conteúdos de crescimento requerem uma autonomia e liberdade tais que se superam processos e formas narcisísticas, bem como dependências maternas e paternas imaturas.

Em busca do núcleo identitário

Na modernidade líquida, como reapropriar-se do núcleo identitário da Vida Religiosa Consagrada? O desafio é gigante, mas nesse contexto, espera-se um testemunho profético missionário na vivência do carisma próprio da Congregação, buscando novos caminhos de fidelidade ao projeto do Reino Deus. O papa Francisco, em 29 de novembro de 2013, falando aos religiosos afirma que "É preciso olhar  tudo a partir da periferia. É preciso andar na periferia para conhecer de verdade como vivem as pessoas. Caso contrário, corre-se  o risco de um fundamentalismo de posições rígidas com base em uma visão centralizada. Isto não é saudável (...) Hoje Deus está nos pedindo para deixar o ninho que nos acomoda. Também  aquele que está na clausura é enviado através da sua oração para que o Evangelho possa crescer no mundo. Estou convencido de que a chave hermenêutica mais importante é o cumprimento do mandato evangélico: Ide! Ide!" Em outras palavras, os  tempos devem ser de purificação, de retomada, de re-encantamento do carisma a partir de uma leitura dos "sinais dos tempos". Deve-se deixar de lado a tentação de voltar ao passado, de não cair na mediocridade, no comodismo. Sempre olhando para frente, procurando revigorar a identidade da Vida Religiosa a partir da ação profética missionária.

            É preciso não ter medo de apresentar às Igrejas Locais os carismas da VRC na sua essência e originalidade para que estejam a serviço da vida. Nas palavras do papa Francisco: "os carismas enriquecem as dioceses. As dioceses precisam dos carismas". Em outras palavras, para tornar possível a inserção na Igreja Local é necessário a revisão das presenças, o que leva a escolher aquelas que estão mais coerentes com a ação missionária do carisma, que são mais proféticas, o que significa a renovação dos projetos, das atividades na linha do projeto do Reino perante o fenômeno da modernidade líquida.

            A fragilidade de identidade contemporânea exige constante atenção, revisão, atualização, renovação, manutenção. Na construção deste caminho é necessário sempre a revisão das estruturas, a leveza e agilidade institucional estabelecida de maneira participativa.

            Deve-se ter a capacidade de dialogar com a modernidade para uma renovação autêntica, pensando que a missão da Vida Religiosa Consagrada no contexto atual não é mais aquele contexto do Fundador ou da Fundadora, nem aquele dos modelos de nosso pensamento, nem o audacioso de épocas relativamente recentes. Tudo precisa ser compreendido e avaliado a partir de grandes horizontes e amplas situações humanas diferenciadas de época, cultura e lugar geográfico, crenças, realidade sócio-político-econômica. O diálogo como abertura deve ajudar a acolher e integrar as mudanças da sociedade de maneira positiva e serena, servindo à missão como autênticos profetas.

QUESTIONAMENTOS
  • Como a nossa comunidade pode viver a profecia no contexto da modernidade líquida?
  • Conseguimos ver os sinais líquidos da VRC na nossa comunidade? Quais? Onde?
  • Como desenvolver uma ação missionária de acordo com o carisma?

Pe Rafael Lopez Villasenor.


[1]  Missionário Xaveriano. Mestre em Ciências da Religião PUC-SP. Doutor em Ciências Sociais PUC-SP. Diretor do Centro Cultural Conforti - Curitiba-PR. e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
[2]  Cf. BAUMAN. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar 2003.
[3]  Exortação Apostólica Evangelii Gaudium  do papa Francisco EG, 52.
[4]  EG, 89.
[5] BAUMAN. A sociedade individualizada, vidas contadas e histórias vividas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor 2008. p 202.
[6]  Cf. MENDOÇA. Vida religiosa provisória: um desafio a ser enfrentado. Revista Convergência.  Brasília, Dezembro de 2008.
[7]  Cf. BAUMAN. Medo líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
[8]  Cf. MURAD. Breve panorama da vida consagrada. Permanece conosco! CRB, 2003.  p. 74
[9] Ambivalência é a “possibilidade de conferir a um objeto ou evento mais de uma categoria. É uma desordem especifica da linguagem, uma falha da função moderna que a linguagem deve desempenhar". BAUMAN, Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Zahar, 1991., p 9.
[10] BAUMAN O mal estar da estar da modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor 1998. p 228.
[11] BAUMAN O mal estar da estar da modernidade. p 226.
[12] BAUMAN. A sociedade individualizada, vidas contadas e histórias vividas: Jorge. p 93.
[13] MENDOZA-ÁLVAREZ. René Girard, o Deus escondido da pós-modernidade: desejo, memória e imaginação escatológica. Ensaio de teologia fundamental pós-moderna.  São Paulo, 2011: Realizações editora. p. 129.
[14] BAUMAN. A sociedade individualizada, vidas contadas e histórias vividas. p 192.
[15]  EG, 77.
[16] BAUMAN. Amor liquido, sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor 2004.. p 8.
[17]  Cf. MENDOÇA. Vida religiosa provisória: um desafio a ser enfrentado.