Cinzas, símbolo de nossa pobreza

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Converter-se significa voltar-se para Deus. Não há conversão sem oração. Não há oração sem confiança em Deus. A oração baseada na confiança nos faz, súbito, ver nossa pobreza de méritos e a necessidade de Alguém que nos dê a mão e a serena convicção de que, ajudados, mão na mão do Senhor, podemos chegar a Páscoa.

Símbolo da nossa pobreza, ou até mesmo nulidade, é a cinza que recebemos hoje sobre nossa cabeça. Ela nos recorda de imediato a origem e o destino de nosso corpo, ou seja, a fragilidade da nossa existência na terra.

Mas ela nos pode lembrar também o pó da estrada que encontram os caminhantes. Os caminhantes somos nós e nossa meta é chegar com Jesus à Paixão e à Ressurreição. É a Ressurreição de Jesus que nos diz que, embora nosso corpo seja destinado ao pó, nossa pessoa tem um destino eterno. Cada um de nós poderá dizer com os Apóstolos que nossa única missão é sermos “testemunhas da Ressurreição de Cristo” (At 4,33) na terra e “participantes da natureza divina” (2 Pd 1,4) no céu. São Francisco costuma dizer que a “cinza é casta e pura”. O fogo, que purifica os metais, purifica também as cinzas. Assim quando o homem queima o fogo da penitência seus apetites mundanos e seus ídolos, o que sobra são as cinzas castas, um coração puro, inteiramente pronto para, da morte, passar à vida eterna. São Francisco não esperou que seus confrades se sentassem sobre cinza. Francisco havia entendido a caducidade das coisas terrenas, havia queimado suas paixões desordenadas e penitenciando seu corpo.

A proposta de Deus para nós

Pode vir-nos o pensamento que conversão é uma questão de nossa vontade. Sem e não. Sim, porque exige nosso querer, nosso esforço, nossa perseverança. Não, porque a conversão é graça dada por Deus, que deve ser pedida. Deus é a razão última e o primeiro motor de nossa conversão. Na verdade, a conversão pe mais um ato de acolhimento daquilo que o Senhor nos diz e pede de nós. O voltar-se para Deus implica uma mudança no modo de pensar e de agir. Ou seja, um conformar nosso pensamento e ação à proposta que Deus tem para nós.

E qual seria a proposta que Deus tem para nós? Ela vem explicitada com bastante clareza no ensinamento e na pessoa de Jesus. Por isso poder-se-ia dizer que converter-nos implica descentrar-nos de nós mesmos e centralizar nossa vida e nossas metas em Jesus. Sou um satélite do Senhor, de quem recebo luz, movimento e sobrevivência. Meu ideal é poder com toda a sinceridade e veracidade do coração: “Não sou mais eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20)

 Talvez seja bom lembrar que a conversão  não me pede tanto que eu discuta o meu comportamento, quanto eu me deixe interpelar pelo comportamento de Deus e meu respeito. Por exemplo: Deus é tico em misericórdia comigo. Desse fato nasce a pergunta: que tanto tem a  minha misericórdia para com os outros? Deus me ama com imenso amor e gratuitamente. Desse fato nasce a pergunta: por que meu amor para com o próximo é tão interesseiro e raras vezes é gratuito? Deus deu sua vida por mim, sem que eu merecesse. Disso nasce a pergunta: Até que ponta a minha vida pertence aos outros? Deus entrou na minha história e assumiu a minha condição humana. Por que eu resisto tanto a entra na historia de Deus e chego a anular as sementes divinas que existem em mim?

 Já nessas lembranças estão presentes os grandes temas da Quaresma: oração e jejum, saudades do céu, fidelidade à aliança com Deus, preparação para uma missão, purificação dos pecados e a conseqüente  penitência, num palavra: conversão, isto é, retorno a Deus, que implica um voltar-se também para as necessidades do próximo.

Esmola, jejum e oração intensa

Os textos litúrgicos do início da quaresma sugerem, como ajuda de conversão e como expressão concreta de nosso esforço, a esmola o jejum e a oração intensa. O jejum se refere em primeiro lugar à boca. Há um pecado capital chamado gula. O jejum não é apenas o contrário da gula, mas é também um abster-se propositadamente de alimentos e bebidas ou coisas que satisfazem o sentido do gosto (cigarro, por exemplo). Quando nos privamos de determinado alimento todos os dias da Quaresma ou em determinados dias (de carne, por exemplo), praticamos a abstinência. O jejum de alimentos recorda a frase dita por Jesus ao demônio, que o tentava pela gula: “Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4), uma citação do Antigo Testamento (Dt 8,3).

Quaresma  é um tempo de alimentar a alma através da escuta da Palavra de Deus.

 A esmola extingue a avareza. Ela mexe com o nosso bolso. Ela lembra que não somos donos de cosa nenhuma: que tudo pertence a Deus. Que somos uma fraternidade, onde os bem devem ser condivididos. Ela nos recorda que a criatura apegada às coisas terrenas não conseguem alçar-se ao céu. É dando aos necessitados, que recebemos de Deus. Dizia Santo Antônio: “Assim como fechamos instintivamente muitas vezes as pálpebras para conservar límpidos os olhos, também devemos dar esmola com freqüência para conservar a beleza da graça de Deus em nós”. A esmola deve refletir essa beleza de graça divina que está em nós, por isso o carinho com que damos a esmola é mais importante que a soma que desembolsamos.

A Quaresma é um tempo especial de partilhar do que temos e somos.

 A oração se faz com os lábios. Mas se for feita só com os lábios será como a fumaça dos sacrifícios de Caim: não sobe para o alto (Gn 4,5). Nossa oração deve partir do coração e ser participada o tempo todo pelo coração, isto é, pelo nosso ser inteiro. Nossa oração é como uma música envolvente que acompanha nosso jejum, nossa esmola, nossa abertura compreensiva aos outros e ao mesmo tempo nosso elevamento a Deus.

A Quaresma é um tempo privilegiado de oração.