O Concílio Vaticano II e a Missão

  • Estêvão Raschietti
  • Teologia
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Sabe o que quer dizer a palavra “missão”? Vem do latim “missio” e quer dizer “envio”. Também a palavra “míssil” vem da mesma raiz, e quer dizer “enviado”, “lançado”, “disparado”. Pois bem, quando dizemos que a Igreja é “missionária”, significa que a Igreja é exatamente como um “míssil”, um foguete, um rojão. Não há graça nenhuma admirar um míssil parado, bonitinho, pintadinho: o barato é vê-lo pegar fogo e ser lançado para o espaço!

Da mesma forma a Igreja, não foi constituída por Jesus para ficar firme em suas instituições, em seus assentos e em suas estruturas: ela foi pensada e projetada para pegar fogo e ser arremessada para o mundo, qual sinal e instrumento da imensa ternura de Deus com toda pessoa, com todo povo e com toda humanidade. Neste sentido, também a palavra “Igreja” tem uma origem bem significativa: vem de um verbo grego que quer dizer “chamar fora”!

O Concílio Vaticano II, do qual estamos celebrando os 50 anos, foi um evento que fez redescobrir essa profunda vocação: a Igreja é chamada a ser um míssil, chamada a ser lançada para fora. Desta maneira, o Concílio sacudiu profundamente as bases da cristandade, chacoalhou o chão da bitolação, desinstalou a comunidade cristã do comodismo das sacristias e jogou-a na rua, empurrando os batizados e as batizadas a assumir a missão pelos caminhos do mundo. O Concílio convocou a Igreja a levantar, despertar e lançar-se com ânimo para a missão!

Queremos lembrar aqui apenas sete passagens significativas do documento Ad Gentes (Aos Povos) do Vaticano II que trazem de maneira significativa esse impulso missionário.

A origem. Antes de tudo, o Concílio sentenciou sem rodeios que “a Igreja peregrina é por sua natureza missionária” (AG 2). A palavra “natureza” quer dizer “essência”, e a palavra “essência” remete à natureza divina: Deus é por sua essência missionário, porque Deus é Amor, um amor que não se contem, um amor que transborda e que se auto-envia ao mundo. A missão brota do “amor fontal” do Pai, que envia o Filho, que envia o Espírito, que envia a Igreja. Antes de ser tarefa, a missão é uma essência divina, um impulso gratuito: não é a Igreja que tem uma missão, mas é a missão que tem uma Igreja. Pois ela é chamada a ser “missionária”, “enviada” e não “enviante”, porque quem envia é o Pai.

A razão da missão, portanto, é participar da vida de Deus: Deus chama todos os homens e as mulheres a participar de sua vida, que é vida eterna. Participar da vida de Deus é participar da sua missão: o Pai chama todos a se tornarem missionários, quer todos e todas envolvidos no seu dinamismo de amor gratuito! Esse é o caminho de salvação que torna as pessoas mais fraternas e mais humanas uma com as outras, porque se reconhecem filhas do mesmo Pai, irmãs entre elas. O rosto de Deus revelado em Jesus diz “aos homens a genuína verdade da sua condição e da sua integral vocação, pois Cristo é o princípio e o modelo da humanidade renovada e imbuída de fraterno amor, sinceridade e espírito de paz, à qual todos aspiram” (AG 8).

O caminho para a Igreja concretizar essa sua participação na missão de Deus, é seguir o exemplo de Jesus que “sendo rico, se fez pobre por nós para que nos tornássemos ricos da sua pobreza: o Filho do Homem não veio para que o servissem, mas para ser ele a servir e para dar até a sua vida em redenção por muitos, isto é, por todos” (AG 3). Da mesma forma a Igreja “movida pelo Espírito Santo, deve seguir o mesmo caminho de Cristo: o caminho da pobreza, da obediência, do serviço e da imolação própria até à morte” (AG 5). Com efeito, Jesus envia seus discípulos a dar essencialmente um simples testemunho de vida, despojado e desarmado (cf. Mc 6,7-11), cheio de compaixão para com as pessoas (cf. Mc 6,34). O anúncio e a conversão nascem do desejo de tornar partícipes os outros também dessa vida divina. Por isso que a Igreja não é chamada a fazer proselitismo: ela cresce por atração, como luz das nações, “quando vive em comunhão, pois os discípulos de Jesus serão reconhecidos se amarem uns aos outros como Ele nos amou” (Documento de Aparecida, 159).

Os âmbitos onde ocorre esta missão não são todos iguais: alguns são privilegiados e indicam uma urgência preferencial. O Concílio afirma que a missão é, sem dúvida, uma só em todas as partes do mundo. As diferenças que se observam não provêm da sua natureza, mas das diversas situações. Temos lugares e situações particularmente desafiadoras, que requerem uma atenção especial e um discurso específico. Esses lugares e situações se definem pela carência de um primeiro anúncio do Evangelho, pela falta da presença de uma comunidade cristã, e pela necessidade de uma transformação social em ordem aos valores do Evangelho (cf. EN 29). Daqui tem origem o termo “missões”, no plural, que se dá àquelas atividades em que se realiza “o encargo de pregar o Evangelho e de implantar a Igreja entre os povos ou grupos que ainda não crêem em Cristo” (AG 6) e nas situações mais difíceis (cf. VD 94c).

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Os sujeitos desta atividade missionária não são somente as missionárias e os missionários consagrados, mas todos os batizados, todo o Povo de Deus presente em cada Igreja local. É como se o Concílio tivesse pichado um acréscimo entre as palavras “missionários xaverianos”: “missionários (não são somente os) xaverianos”! A responsabilidade da evangelização até os confins da terra agora é de qualquer cristão, exercida em diferentes formas, a partir do lugar em que cada comunidade se encontra, e sem ficar apenas no lugar onde se encontra: “todos os filhos da Igreja tenham consciência clara de sua responsabilidade para com o mundo inteiro, alimentem em si um espírito verdadeiramente católico” (AG 36). No entanto, nossa permanente tentação é de olhar para o nosso umbigo, limitar o campo da evangelização ao nosso quintal.

O horizonte motivador da atividade missionária realizada pela Igreja é fazer do mundo uma só família, “para que todo o gênero humano forme um só Povo de Deus, se una num só corpo de Cristo” (AG 7). “Cristo e a Igreja transcendem todos os particularismos de estirpe ou de nação e, por isso, não podem ser considerados estranhos a ninguém e em nenhuma parte” (AG 8). O Evangelho é essencialmente universal, ultrapassa qualquer cultura e sonha com a unidade da humanidade, com um mundo sem fronteiras. Por isso que o Concílio afirma que “a atividade missionária é a manifestação dos desígnios de Deus e a sua realização no mundo e na sua história” (AG 9).

O tempo, enfim, para realizar esta missão, decorre entre a primeira e a segunda vinda de Cristo (cf. AG 9). Jesus recomenda aos discípulos de ficar vigiando “pois vocês não sabem qual será o dia, nem a hora” (Mt 25,13). Portanto, esse tempo é agora! A eternidade está neste instante. O Reino está próximo! Nesse tempo de Advento é bom refletir sobre isso, alimentar nossa esperança e revigorar nosso caminho, “pondo-nos ao lado das pessoas para nos tornarmos homens livres, que promovem a justiça e a paz, na espera operante que Deus seja tudo em todos” (Constituições Xaverianas, 8).

Pe. Estêvão Raschietti, sx.