O profetismo (Isaias)

  • João Santiago
  • Teologia
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Os Livros Proféticos: são 18 os Livros Proféticos e segundo a Bíblia Nova Pastoral, são eles,  Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias.

Em graus diversos e sob formas variadas, todas as grandes religiões da antiguidade tiveram pessoas tidas como inspiradas que falavam em nome de seus deuses. Eram os profetas. O sentido original da palavra Profeta (nabî) em hebraico deriva de uma raiz que significa "Chamar, anunciar",portanto, o profeta, de modo geral, é aquele que é chamado ou que anuncia, é um mensageiro, é um intérprete da palavra divina, conforme verificamos em (Jr 1,9-10).

Há dois modos de se exercer a profecia: Trabalhar para manter e legitimar privilégios e poderes das elites, ou Propor reformas ou mudanças na sociedade para promover a justiça e a dignidade dos oprimidos. A compreensão de uma profecia, portanto, implica conhecer a história e a sociedade em que ela se apresenta. Na história de Israel, muitas mulheres e homens denunciaram as injustiças, exigindo a conversão da sociedade e a implantação de uma sociedade justa, misericordiosa e solidária, semeando e fortalecendo, no  meio do povo, a esperança e a fé no Deus da vida.

A Bíblia registra apenas alguns profetas da palavra escrita, os chamados “profetas clássicos”:  Amós, Oseias, Isaías, Miqueias Naum, Sofonias, Jeremias Ezequiel, Habacuc, Abdias, Ageu, Zacarias, Malaquias e Joel. Seus livros não nasceram de uma hora para outra. Quase sempre um livro é fruto de longo processo redacional e passa por várias releituras. O processo de redação do livro de Isaías, por exemplo, levou mais de 500 anos.  Diferentes grupos, em épocas e lugares distintos, os escritos de comunidades que vivem experiências semelhantes. Então, a partir das necessidades e interesses da própria realidade, os novos grupos aproveitam ensinamentos e ideias do passado que trazem luz e força para o momento presente.

ISAÍAS: Com 66 capítulos Isaías é o mais extenso livro profético da Bíblia.

Mas não foi escrito de uma só vez. O tipo de linguagem, as palavras escolhidas, as personagens, os nomes de reis, os lugares citados, os grupos que aparecem, entre outros dados, mostram situações históricas de épocas e lugares bem diferentes. Em linhas gerais, o livro está dividido em três livretes:  o primeiro, o segundo e o terceiro Isaías. Primeiro Isaías: (Is 1-39), Segundo Isaías: (Is 40-55), Terceiro Isaías: (Is 56-66).

Primeiro Isaías: (Is 1-39)

É um profeta da corte que presenciou e vivenciou a injustiça, a exploração e as guerras provocadas pela política interna e internacional da elite dirigente e o consequente sofrimento do povo. De acordo com sua fé em “Javé dos exércitos”  (1,9), o “Santo de Israel”, (5,19) – expressões muito usadas por ele para falar de Deus todo poderoso e absoluto -, Isaías, sensível aos pobres, denunciou: que direito tem vocês de oprimir meu povo e esmagar a face dos pobres? (3,15). Ele requer justiça dentro da monarquia davídica. Filho de seu contexto histórico-social, acredita que um rei justo e bom pode criar uma sociedade humana  e fraterna (9, 1-6).

Segundo Isaías: (Is 40-55) – 540 a. C. Babilônia:

É um grupo político de levitas que procura alimentar a esperança do povo nos últimos anos do exílio na Babilônia. Grupo que consola o povo sofrido e faz uma nova leitura do êxodo e da criação, renovando a certeza de que Deus, o “Santo de Israel” (41,14), libertará novamente e recriará seu povo. Ao descrever as características da liderança no novo êxodo, o segundo Isaías propõe a figura do “servo sofredor” (42,1-9), uma liderança  que brote do amor solidário e do compromisso com os pequenos, e que atue na contramão do regime injusto e opressor, sem uso da força e da violência.

Os cânticos têm uma perspectiva universalista. Esta é uma marca do próprio livro segundo Isaías. Já se pode constá-lo no cabeçalho do livro, quando é anunciada a manifestação da glória divina diante de “toda a carne”: “a glória de Javé de manifestará, e toda s carne a verá" (Isaías 40, 5) (SCHWANTES, 2007, p. 103).

No primeiro (42, 1 – 4), a tarefa do servo é formulada em perspectiva ampla. Consiste em: “levará o direito aos povos” (Isaías 42, 1). Sua tarefa não é, pois, intra-israelita. De saída diz respeito aos  povos. O último versículo deste primeiro cântico repete-o “não desanimará nem se quebrará até que estabeleça na terra o direito. E as ilhas aguardarão por sua orientação” (Isaías 42, 4) (SCHWANTE, 2007, p. 104).

Observação importante: os lugares mais distantes serão atingidos pela missão do servo. Para os antigos, as ilhas eram tais locais de difícil acesso. A todas as partes será levado o “direito”. O v. 4 substitui esta palavra por “orientação”. Esta “orientação” é, a partir dos v. 2-3, o direito dos mais fracos. Não esmagar “a cana quebrada”, isto é, o que já está fragilizado e oprimido, é “levar o direito”. (SCHWANTES, 2007, p. 104).

Segundo Cântico: “Dei-te como luz para os gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra”(Isaías 49,6). Esta formulação repete, em outros termos, o que já estivera contido na apresentação do servo no cap. 42. Sua tarefa é universal (SCHWANTES, 2007, p. 105).

No terceiro cântico (50,4 – 9), a atenção não está voltada ao delineamento da tarefa. Seu assunto é outro: a persistência do servo em meio a adversidades (SCHWANTES, 2007, p. 105).

No quarto e último (52, 13 – 53,12), a perspectiva volta a ser ampla. Os “muitos” as “nações” e os “reis” são, desde o início, o fórum, diante do qual transcorreram sofrimento, perseguição e assassinato do servo:  “como passaram muitos à vista dele...  assim causará admiração às nações  e os reis fecharão as suas bocas por causa dele”(Isaías 52, 14-15). No final, estes conteúdos retornam. As nações não voltam a ser citadas. Fala-se dos “muitos” em (Isaías 53,11 – 12). “justificará a muitos... eu lhe darei muitos como a sua parte... levou sobre si o pecado de muitos” (Isaías 53,  11 – 12).

Ora, este “muitos” não são alguns. São rigorosamente “todos”, pois, no hebraico, os termos “muitos” e “todos” estão contidos numa mesma palavra. Pode-se até verificá-lo nos próprios v. 11-12, onde “muitos” está paralelo a “poderosos” e a “ transgressores”. Estes não estão excluídos, mas incluídos nos “muitos”, isto é nos “todos”. Portanto, a perspectiva dos cânticos – à semelhança de todo o Dêutero-Isaías – é universal. Engloba todos, o conjunto das nações. E inclui na missão do servo os lugares mais afastados e distantes (SCHWANTES, p. 105). Contudo, o motivo deste universalismo é, nos cânticos, um tanto diferente do que nos demais capítulos dêutero-isaiânicos. Lá o universalismo tem muito a ver, quer com o reconhecimento da ação criadora de Javé (40, 12 – 31), quer com a restauração de Sião e Jerusalém (54,3), quer com as vitórias militares de Ciro (45, 1- 7). Bem outra é a mediação do universalismo nos cânticos. Neles a missão é mediada pelo sofrimento. As dores do servo são ‘missionárias’! As derrotas como derrotas são vitórias para “muitos”/“todos”! Nisso reside a grande novidade ou excentricidade dos cânticos do servo sofredor (SCHWANTES, 2007, p. 106).

Terceiro Isaías: (Is 56-66) – 538 a. C. - Persas:

Embalados pelo sonho de um novo êxodo e de uma nova sociedade, as pessoas voltam para Jerusalém. No entanto, a elite judaica, apoiada pelos persas, impõe seu projeto: a construção do Templo e da sociedade teocrata. O Templo e a lei do puro e do impuro se tornam mecanismos de arrecadação de tributos para a manutenção das autoridades de Jerusalém, agora aliadas ao império persa na opressão do povo. Porém o sonho da nova sociedade continua vivo.  O grupo do terceiro Isaías procura manter o projeto de “um novo céu e uma nova terra”(65,17)baseado no direito e na justiça.

Isaías nasceu no Reino de Judá, sob o reinado de Ozias (781-740). Educado em Jerusalém, foi profeta do Templo e conselheiro de três reis: Joatão (740-736 a. C.), Acaz (736-716 a. C.) e Ezequias (716-687 a. C.). Seus oráculos eram baseados na teologia davídica: - Javé, Deus absoluto e transcendente; - a escolha divina de Jerusalém-Sião; - a eleição divina da dinastia davídica; - o rei como filho de Deus e defensor dos pobres.

Com essa convicção, Isaías enfrenta os grupos dominantes: anciãos, juízes, latifundiários e a elite de Jerusalém (5, 8 – 24). Defendeu com todo vigor os oprimidos, os órfãos e as viúvas (10, 1-4), e condenou a aliança com as grandes potências (Assíria e Egito), que disputavam a hegemonia da Síria-Palestina. Seus oráculos não foram bem recebidos no meio dos governantes com os quais trabalhava e se relacionava; ao contrário, provocaram descrédito, desprezo e condenação (8, 11-15; 28,7-13).

Paralelo com os Evangelhos.
  • Isaías 5, 8 – 24 = Seis Ais contra os poderosos de Judá.
  • Mateus 23, 13 – 36 = Sete Ais contra Escribas e Fariseus.
  • Isaías 8, 11-15 = Javé Pedra de tropeço.
  • Lucas 2,33-35 = Jesus Pedra de tropeço.
  • Isaías 11, 1 – 5  “Do trono de Jessé nascerá um ramo, um broto nascerá de suas raízes” 
  • Mateus 2,23 Aí chegando, foi morar numa cidade chamada Nazaré, para se cumprisse o que fora anunciado pelos profetas: “Ele será chamado Nazareno”.

João Santiago.


Bibliografia
  • SCHWANTES, Milton. Sofrimento e Esperança no Exílio – História e teologia do povo de Deus no século VI a.C. São Leopoldo-RS; Oikos, 2ª edição, 2007.
  • Bíblia Sagrada Nova Pastoral. São Paulo: Paulus , 2013.
  • SCHWANTES, Milton. Breve história de Israel. São Leopoldo-RS: Oikos, 2008.
  • SCHWANTES, Milton. História de Israel. Vol. 1: Local e origens. São Leopoldo-RS: Oikos, 2012.
  • PIXLEI, Jorge. A história de Israel a partir dos pobres. Petrópolis-RJ: Vozes, 2004.
  • SMITH, Mark S. O memorial de Deus – História, memória e a experiência do divino no Antigo Israel. São Paulo: Paulus, 2006.
Sugestão de sítios: