Da Imaculada Conceição à Conceição Aparecida

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A conquista das colônias ibéricas sempre teve um braço militar e outro espiritual. A religião era uma arma de submissão dos povos conquistados, mas também um bálsamo para a vida cotidiana dos próprios colonizadores e para a segunda ou terceira geração dos colonizados.

Com o passar do tempo, os povos colonizados se apropriaram de elementos essenciais da religião imposta e fizeram deles uma arma de sua sobrevivência e libertação. Indígenas, escravos e empobrecidos na terra conquistada transformaram as devoções de santos, relíquias e imagens milagrosas em amuletos de sua sorte, interlocutores de suas rezas e instâncias de sua proteção.

Há 300 anos, três pescadores desceram o rio Paraíba do Sul à procura de peixes. Sem sucesso. Chegando ao Porto Itaguaçu, lançaram outra vez sua rede e, em vez de peixes, apanharam o corpo de uma imagem de barro cozido e, num segundo lance de sua rede, apareceu a cabeça da mesma imagem, logo reconhecida como uma imagem despedaçada de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. A história conta que, depois dessa pesca surpreendente, os pescadores apanharam peixes em abundância.

A transfiguração de “Nossa Senhora da Imaculada Conceição” em “Nossa Senhora Aparecida”, ou abreviado, da “Imaculada” portuguesa em “Aparecida” brasileira, às vezes, amorosamente, invocada como “Cida” ou “Cidinha”, pode ser considerado o primeiro milagre de uma santa “cuja ancestral branca”[1] acompanhou os conquistadores no porão de suas naus. No litoral paulista, Martim Afonso de Souza (1500-1571) dedicou a ela a primeira igrejinha no Brasil. Hoje, em todo o território nacional, são mais de 530 paróquias dedicadas a Imaculada Conceição e mais de 340 a Nossa Senhora Aparecida.[2]

O milagre é configurado pela metamorfose de uma santa, que a iconografia nos mostra desde suas origens europeias branca e, na plenitude da graça, acompanhada por anjos e olhando para o céu, e que sobreviveu à longa permanência no rio Paraíba do Sul. Há relatos dos primórdios da atividade missionária que nos falam de certa resistência de alguns grupos guarani contra imagens da Virgem conquistadora, que consideravam portadora “de um poder maléfico”.[3] Ruiz de Montoya nos relata a dor que sentiu quando viu a destruição execrável que os guaranis fizeram de uma imagem da Virgem que pertenceu ao padre Roque Gonzáles (1576-1628).[4] E o jesuíta Pedro Lozano (1697-1752), historiador da Companhia de Jesus, “recolhe em sua obra um fato semelhante no povo guarani chiriguano. Após darem morte ao Pe. Julián Lizardi, os indígenas dividiram de alto a baixo uma pintura de Nossa Senhora, inseparável companheira do missionário, e derrubaram a imagem titular, arrancando-lhe a cabeça e as mãos”.[5] Se foram guaranis que jogaram a imagem no rio Paraíba, não o sabemos. Sabemos, porém, que a passagem de Virgem conquistadora para Virgem protetora dos conquistados se deu num processo demorado e, por que não dizer, processo milagroso de inculturação.[6]

Após a permanência de alguns anos no leito do rio como numa pia batismal, emergiram na rede dos pescadores dois pedaços de barro de uma imagem despida, com seu orgulho de plenitude branca quebrado, sem indumentária, escurecida, realmente “nossa”, Senhora por respeito, não pelo sangue. Azul é apenas seu manto, posteriormente confeccionado para cobrir sua nudez e negritude. Depois do batismo no rio Paraíba e uma longa permanência na casa dos pobres, a imagem é enfeitada com adornos, cordões de ouro e homenagens que têm valor simbólico, não real. Não foram encomendados pela visitada, mas agradam os visitantes. E não é para menos. O povo sempre dá o melhor para seus hóspedes.

A passagem da Imaculada por esse rio indica sua missão como Aparecida. É uma missão que significa despojamento, presença, visitação silenciosa.

Realmente, o primeiro milagre da Aparecida é o processo da inculturação pelo qual a Imaculada se tornou a “Cidinha” missionária, visitada e visitadora de muitos que estão atormentados pelos achaques da vida. Basta visitar a “Sala dos Milagres” em Aparecida, ver os objetos ali deixados e ler os bilhetinhos com as mensagens sobre graças alcançadas.

A pesca abundante pode ser considerada como o segundo milagre de Aparecida. Os peixes eram esperados e tinham destino certo. A Visitadora é Auxiliadora. Mas o que fazer com a imagem em pedaços? Um dos três pescadores, Felipe Pedroso, levou os pedaços toscos do barro da terra para sua casa e deixou restaurar a imagem. Por quinze anos, a vizinhança se reuniu nessa casa, num pequeno anexo, uma espécie de oratório, que foi logo construído para receber cada vez mais devotos. Ao longo desses anos, Aparecida se inculturou na vida dessa gente. Nas rezas do terço, o povo pediu a proteção da Santa e agradeceu pela sua proteção.

Com o tempo, a pescaria de 1717 se tornou o evento fundacional de um santuário novo, num país que ainda era colônia portuguesa e católica. No Brasil viviam-se as restrições semelhantes ao “Édito de Tessalônica” (380), que proibiu as religiões não-cristãs. Até meados do século XVIII, emissários da Inquisição portuguesa vinham periodicamente ao Brasil para punir manifestações clandestinas da alteridade religiosa, enquanto a “Imaculada” mostrou sua alteridade de “Aparecida”.

No rio Paraíba não aconteceu propriamente uma aparição milagrosa de Nossa Senhora. A Aparecida é uma santa silenciosa. Apareceu no silêncio das águas e atuou no silêncio das casas, sem dizer uma só palavra, sem fazer promessas nem profecia, sem dar ordens ou indicar um lugar para construir um templo. Ela não propõe encontros com data e hora marcadas, nem envia mensagens por uma vidente. A Aparecida não fez questão de sua identidade e descendência da Imaculada Conceição, nem se trata da confirmação de um dogma, como em Lourdes, mas de um simples e maravilhoso “encontro” de dois pedaços de uma imagem, logo identificada como da Imaculada Conceição.

Em Lourdes, sim, aconteceram, segundo Bernadete Soubirous, dezoito aparições de uma “senhora branca”. E essa “senhora” falava, deu recados, pediu orações e se identificou na 16ª aparição, no dia 25 de março de 1858, festa da Anunciação do Senhor, com as palavras: “Eu sou a Imaculada Conceição”, eliminando as dúvidas que possam ainda ter pairado sobre a proclamação do dogma por Pio IX, quatro anos antes. Em Lourdes, o nascimento de Maria sem pecado original tinha recebido a sua confirmação do alto.

Apesar do silêncio e de milagres discretos, a devoção da Nossa Senhora Aparecida cresceu e se espalhou pela região. Para receber cada vez mais peregrinos, foi necessário construir espaços maiores, simbólicos e reais. Em 1904, a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi solenemente coroada e, em 1929, foi proclamada padroeira oficial do Brasil. Já em 1980, a Basílica Nova foi consagrada pelo papa João Paulo, e o evento do rio Paraíba tornou-se feriado nacional, litúrgica e politicamente reverenciado a cada dia 12 de outubro. Em 1984, a CNBB declarou a Basílica, oficialmente, Santuário Nacional, e o dia 12 de outubro de 2016 marcou a abertura do Ano Jubilar em comemoração aos 300 anos da aparição de Aparecida.

A integração nacional e oficial de um evento milagroso, originalmente destinado aos pobres e apropriado pelos socialmente humilhados como elemento de resistência e luta pela sua dignidade, não é sem risco e aconteceu também em outros países. As manipulações das elites políticas e culturais passam sempre por aquilo que o povo considera sagrado. Há anos concelebrei com companheiros da Teologia Índia uma Missa na Basílica de N. Sra. de Guadalupe, santuário nacional do México, com não-indígenas sentados nos bancos e com praticamente todos os índios presentes sentados no chão, no fundo da Igreja, ou encostados na parede. As elites, donas da palavra e do poder, procuram fazer os pobres reconhecerem, voluntariamente, “seu” lugar nas repartições públicas, na sociedade e na Igreja. Nas festas religiosas buscam proximidade com as “autoridades” religiosas populares que lhes dão legitimidade e sacralizam seu poder. Mas os milagres acontecem “no fundo da Igreja” e nas periferias, onde nasce a esperança.

Hoje, doentes abastados e pobres, com suas dores desiguais, procuram a Santa.

Vêm para “pagar” promessas atendidas e para encomendar graças urgentes. Cidinha e Rainha, com humildade e majestade, Nossa Senhora Aparecida, pode puxar a cada uma e a cada um para cima e para fora de sua miséria, pode garantir o essencial a cada dia e, na falta desse essencial, e apesar dessa falta, transmitir o sentimento de não abandonar os devotos dos quais é Mãe. Ela também experimentou a precariedade da vida. Na passagem pela água do rio e pela casa dos pobres, a Virgem Imaculada integrou no imaginário dos fiéis traços robustos da Mãe Terra, simbolizada não somente pela cor, mas também pelo adorno da Lua aos seus pés, que a faz “espelho de justiça”, porque reflete a luz de Cristo, como já cantava Anchieta:

Ele, como Sol, domina o universo, cingido com os raios da justiça. Tu, como Lua, com a face toda iluminada, brilhas em trono altíssimo nos céus”. [7]

Pe. Paulo Suess.


[1] “Cujo ancestral branco”. Ancestral é substantivo masculino.

[2] PIVA, Elói Dionisio. A Imaculada na piedade popular luso-brasileira. Em: COSTA, Sandro Roberto da (org.), Imaculada: Maria do povo, Maria de Deus, Petrópolis, Vozes, 2004, 173-204, aqui 183. Tb. MEGALE, Nilza Botelho. Invocações da Virgem Maria no Brasil, 3ª ed., Petrópolis, Vozes, 1997, 45.

[3] CHAMORRO, Graciela. Maria nas culturas e religiões ameríndias [Maria]. Em: Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, n. 46, 2003/3, 92-100, aqui 93.

[4] MONTOYA, Antônio Ruiz de. Conquista espiritual feita pelos religiosos da Companhia de Jesus nas províncias do Paraguai, Paraná, Uruguai e Tape [1639], Porto Alegre, Martins Livreiro, 1985, 200.

[5] CHAMORRO, Maria nas culturas, 94.

[6] Cf. a história de “Nossa Senhora da Vitória”, em: MEGALE, Invocações, 465-469.

[7] ANCHIETA, José de. O poema de Anchieta sobre a Virgem Maria Mãe de Deus (de Beata Virgine Matre Dei Maria), 5ª ed., São Paulo, Paulinas, 1996, p. 322.