Novos caminhos de Animação Missionária a partir da “Laudato Si’”

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“Eis agora o tempo favorável por excelência” (2Cor 2), não vamos desperdiça-lo. Por ocasião do centenário da Faculdade de Teologia (PUC) da Argentina que coincidia com o cinquentenário do encerramento do Vaticano II, o Papa Francisco prestigiava a Faculdade enviando uma carta onde dizia:

“O Concílio Vaticano II, foi uma actualização, uma releitura do Evangelho na perspectiva da cultura contemporânea. Produziu um movimento irreversível de renovação que provém do Evangelho. E agora, é preciso ir em frente. De que modo, então, devemos ir em frente? Ensinar e estudar teologia significa viver numa fronteira na qual o Evangelho se encontra com as necessidades das pessoas às quais é anunciado de maneira compreensível e significativa. Devemos evitar uma teologia que se esgota na disputa académica ou que olha para a humanidade de um castelo de vidro. [...]. Neste tempo a teologia deve enfrentar também os conflitos: não só os que experimentamos na Igreja, mas também os relativos ao mundo inteiro e que são vividos pelas ruas da América Latina. Não vos contenteis com uma teologia de escritório. O vosso lugar de reflexão sejam as fronteiras. E não cedais à tentação de as ornamentar, perfumar, consertar nem domesticar.

Até os bons teólogos, assim como os bons pastores, têm o odor do povo e da rua e, com a sua reflexão, derramam azeite e vinho sobre as feridas dos homens”.

As palavras do Papa Francisco apontam para uma ”teologia em saída” aberta às necessidades e às emergências da humanidade, marcando presença e agindo na arena do mundo como “hospital de campo que vive a sua missão de salvação e cura do mundo”.3 Essa preocupação do Papa Francisco com o mundo e com a humanidade visa imprimir à Igreja um impulso centrífugo, muito bem resumido no imperativo categórico expresso na “Evangelii Gaudium” (EG): “Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! [...]: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 49).

Desde sua nomeação o Papa Francisco procurou, através de palavras e gestos, imprimir à Igreja Católica, em sua ação evangelizadora, uma “aceleração centrifuga” que pode ser resumida nas palavras: “Uma Igreja em Saída” (EG 24). “A Igreja em saída é uma Igreja com as portas abertas” (EG 46), “em movimento a partir do centro rumo às periferias para ir ao encontro de todos, sem medo nem desconfiança, e com coragem apostólica”. 4 Em termos físicos poderíamos usar a expressão “Velocidade de Escape”. Ela é normalmente descrita como a velocidade necessária para “libertar-se” de um campo gravitacional permitindo uma saída rumo ao infinito, ao desconhecido.

Para uma “Igreja em saída” pode-se afirmar que a “velocidade de escape” é a força capaz de:
  • Romper com todas e quaisquer amarras que a impeça de “ir além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária” (DAp 370).
  • Resgatá-la de uma consciência isolada e da autorreferencialidade (cf, EG 8) e do “mundanismo espiritual que se esconde por detrás de aparências de religiosidade e até mesmo de amor à Igreja” (EG 93).
  • Impulsioná-la a sair do espaço apertado da sacristia com cheiro de incenso, para se aventurar no espaço infinito do mundo contraindo assim o “cheiro de ovelha” (EG 24).

Este “impulso centrífugo” - a ser impresso à Igreja - é dever primordial da Animação Missionária (cf. RM 83) que, sustentada por uma reflexão teológica em saída, visa converter a Igreja numa “Igreja toda missionária” (EN 59), cujo espírito missionário “deve impregnar todas as estruturas eclesiais e todos os planos pastorais de dioceses, paróquias, comunidades religiosas, movimentos e de qualquer instituição da Igreja” (DAp 365), “na qual a vida se torna missão” (CNBB-Estudos 108, nr. 27) para mudar o mundo com o fermento do Evangelho. Deveras, por Animação Missionária entende-se a ação de criar, desenvolver e manter viva a consciência missionária de cada batizado e das comunidades eclesiais; em fim, da Igreja como um todo.

As expectativas motivadas nesses três anos de pontificado tem algo de semelhante com os anseios despertados no coração do povo pelo anúncio do Concílio Vaticano II. De fato, há um paralelismo entre a fase pré-conciliar e a de hoje a 50 anos do Concílio que nos dão motivos de esperança para uma nova recepção do Vaticano II e um avanço na “restauração” da Igreja em força do Pontificado do Papa Francisco:

a) A Visão do Papa João XXIII e a do Papa Francisco

  • Um mês antes do Concílio Vaticano II o Papa João XXIII, numa radio mensagem, expressava o desejo de ver uma Igreja a serviço do homem, dizendo: “Perante aos países subdesenvolvidos a Igreja se apresenta come ela é, e quer ser, como a Igreja de todos, e particularmente a Igreja dos pobres”.
  • Poucos dias depois de sua eleição - o Papa Francisco - falando para centenas de jornalistas, dizia: “Ah, como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres!”

b) As dificuldades encontradas com a Cúria Romana

seja por parte do Papa João XXIII como pelo Papa Francisco. Esses obstáculos mostram claramente uma Igreja que lhe custa entender e de se colocar em estado de missão - em saída - rumo ao mundo e aos pobres, abrindo mão do conforto, do poder e dos privilégios.

c) A firmeza com a qual os dois pastores enfrentaram tais dificuldades:

  • O Papa João XXIII chamando, “certas almas ardorosas” de “profetas de desventuras”.
  • O Papa Francisco afirmando: “Há sacerdotes e bispos videirinhos e apegados ao dinheiro que em vez de servir se servem da Igreja”.
  • Falando na Pça. São Pedro: “Sei que muitos de vós ficaram perturbados com as notícias que circularam nos últimos dias, a propósito de documentos reservados da Santa Sé, que foram subtraídos e publicados. [...] quero assegurar-vos que este triste acontecimento não me distrai do trabalho de reforma que levo em frente com os meus colaboradores e com a ajuda de todos vós”.

Estes elementos deveriam ser um forte incentivo para uma Animação Missionária revigorada, mais ousada, desvinculada de quaisquer amarras, seja no âmbito eclesial (ad intra) como nos diversos âmbitos da realidade social (ad extra) e totalmente a serviço da missão universal. Inclusive, sem medo de se enveredar por caminhos ainda inexplorados marcando presença em âmbitos - como a da educação e dos meios de comunicação social - onde se joga o futuro da humanidade. Hoje a Animação Missionária é uma urgência, “empenho prioritário, que deve estar antes e acima de qualquer outra consideração”.

2º) Apontamentos da Encíclica “Laudato Si’” para uma Ecologia Integral

Com o intuito de buscar novos caminhos de Animação Missionária e de Conversão Eclesial fundamentados numa “Ecologia Integral”, conforme a Encíclica “Laudato Si’”, apontamos alguns elementos que, destacando-se ao longo do Documento Pontifício, apontam para uma espécie de “virada copernicana” no pensamento que norteou - de forma preponderante - o agir e a reflexão no âmbito eclesial: o pensamento linear de inspiração cartesiana/newtoniana.

  1. a) Há um refrão que acompanha toda a Encíclica: A relação de tudo com tudo. O ser humano é relação e a qualidade de vida e convivência depende da qualidade de suas relações. Inclusive, o mundo que habitamos é feito de relações, conexões, diálogos; e, a “saúde” do mundo, o cuidado com a Terra, depende da sustentabilidade dessas relações. Assim fala a “Laudato Si’”: Ø Tudo está relacionado (LS 92; 120; 142). Ø Tudo está inter-relacionado (LS 70). Tudo está intimamente relacionado (LS 137). Tudo está interligado (LS 91; 117; 138; 240). Tudo está estreitamente interligado (LS 16). Isso mostra que é de extrema importância olhar sempre a realidade como um “sistema”, um conjunto de interações complexas, superando a fragmentação que leva ao reducionismo e a falsificação da realidade.
  2. b) Dois termos usados no Documento Pontifício chamam a atenção: complexo/s e complexidade. Ao longo do texto encontra-se o uso desses termos em contextos diferentes: Sistema/s complexo/s (LS 18; 23). Problemas mais complexos (LS 110). Questão de caráter complexo (LS 135). Complexidade (LS 38; 47; 63; 144; 190) Percebe-se que o “pensamento complexo” está subjacente à Encíclica “Laudato Si’”, convidando o leitor a uma nova maneira de perceber e pensar o mundo.

O Pensamento Complexo é uma maneira de sair de um padrão de pensamento cartesiano, que leva à fragmentação do conhecimento, negligenciando as relações que existem entre esses conhecimentos e que são essenciais à visão significativa do todo. Ao propagar a ideia de um Pensamento Complexo, apostamos em uma mudança de paradigmas, passando de um paradigma de dominação e poder, de fragmentação, classificação e hierarquização, para um paradigma de cooperação, que valoriza e restabelece as relações, as atitudes significativas.

animaPortanto, pode-se afirmar que - na Encíclica - o pensamento complexo está presente na mensagem transmitida, na construção do texto, e na escolha dos destinatários: Na mensagem transmitida A partir do princípio que “tudo está estreitamente interligado”, o Papa Francisco soube conjugar o tema da justiça social com o tema da ecologia, até então tratados separadamente. Esse tipo de abordagem mostra que o cuidado pela humanidade que precisa de libertação da opressão, das diversas formas de injustiças, da violência, está estreitamente interligado com o respeito e cuidado pela Mãe Terra, nossa casa comum.

Na construção do texto Prestando atenção nas citações pode-se constatar que o Papa Francisco se coloca num “estado de escuta” para acolher reflexões e sugestões vindas dos diversos âmbitos da realidade: eclesial, ecumênica e leiga superando dessa forma a “autorreferencialidade” e o “pensamento ou discurso único”. Citações do Magistério da Igreja; Citações das diversas Conferências Episcopais;  Citações do mundo ecumênico; Citações do mundo acadêmico (Filósofos e Teólogos); Citações de Organismos Internacionais Com esta riqueza de citações a Encíclica mostra ter um “respiro universal”, capaz de reconhecer e valorizar a busca e a sabedoria que brota do seio da humanidade.

Na escolha dos destinatários “O Santo Papa João XXIII [Na fala do Papa Francisco], dirigiu a sua mensagem “Pacem em Terris” a todo o mundo católico [...], e a todas as pessoas de boa vontade. Agora, à vista da deterioração global do ambiente, quero dirigir-me a cada pessoa que habita neste planeta” (LS 3). Sendo que o problema é planetário e envolve a todos, o Papa Francisco quer se dirigir “a cada pessoa”, interagir com todos, gerar um “feedback” universal.

Memore Restori, sx.